quarta-feira, 30 de abril de 2008

Céu de prata


Cansada de vagar sob os olhares do cruzeiro, ela voltou sua alma para os céus de prata. De um lado, descobriu seu encanto, do outro percebeu que encanto também se cativa.

Assim, aquela menina morena voltou à sua pátria, mas não sem antes transbordar na alma uma felicidade celeste.

Amor aos montes, em conta-gotas, de prata e de praia. De vento frio e céu do oriente que dali por diante a orienta.

E este dom sacrossanto? A glória. Nos céus do amor, a glória é cristã. E fiel, porque pronunciada com alma e entusiasmo sublimes, deitados eternamente em berço esplêndido.

Quem negará que é amor o olhar errante pelo horizonte que nem daqui se avista? Pois que horizonte seja lembrança, confiança e esperança. Passado, presente e futuro em um sorriso doce e singelo de Monalisa, a desafiar os que pensam que só se amam os que sempre se tocam.

Porque tocar corações diariamente com palavras também é afagar almas banhadas por sonhos de prata. E ela aguarda com paciência o dia que prata virar ouro e escorrer por seus dedos a provar que valeu a pena cultivar amores cristãos.

domingo, 27 de abril de 2008

Na estrada


Na estrada...
Só ou acompanhada?
Tudo ou nada...
Ser amada?

Teus olhos contemplam o mar pálido
E sob o coração jaz céu esquálido
Faz-se noite o dia
E tristeza a alegria

O luar no dia da noite é luz
Mas na noite do dia não reluz.
A tristeza, companheira do céu...
Mel ou fel? Léu.

Ah, índia...
Queres a liberdade da natureza
A simplicidade e a beleza
Quem roubou tua pureza?

Queres ser como o rio
Seguir livre teu curso,
Driblar pedras anos a fio
Não te importas o discurso.

Tentas, em vão, reter o passado
Mas do coração, só o enfado
Recordação... Tudo acabado?

Versos minguam como o escuro que te acolhe
A aurora vem
Mas, pra ti, a noite é além.

E reserva teu sol para o trabalho,
Enquanto procuras atalho
Para trazer de volta a lua
Só tua.

De volta ao caminho, a rua.
Distante carinho,
Amor que floresce e esquece,
Paradoxo de uma vida que não aquece.

E, no inverno, persiste o amor
Como na primavera a flor
No verão o calor
E no outono a dor.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Estações da alma



Primavera. Deram-lhe um jardim de flores do campo para cuidar. Sem nunca ter sido jardineiro, aceitou a missão, embora soubesse que esse tipo de flor dispensava grandes cuidados para prosperar.

Mas tanta empolgação com a tarefa fez com que, dia após dia, lá fosse ele a regar a terra, retirar as plantas que murchavam, plantar novas sementes, de modo que, em poucos meses, o quinhão sob sua tutela chegava a brilhar de tanto amor.

Verão. Em um dia de muito calor, sentiu-se mal e resolveu descansar em vez de cuidar do jardim. Pensou que não devia fazer tanta diferença, afinal, estava tudo tão perfeito... um dia a mais, um dia a menos, que mal faria.

Acostumou-se com a idéia de nem sempre dar bom-dia às flores do campo. Dividia com a natureza a tarefa de regá-las, afinal, para que fazê-lo se logo viriam as chuvas? As plantas murchas, a brisa do fim-de-tarde se encarregaria de tirar. E as sementes, estas talvez nem fossem tão necessárias assim, pois que haveria insetos a transportar o pólen de um lado a outro.

Ocorreu-lhe que flores do campo sabiam se virar sozinhas, senão nem teriam esse nome. Não eram como as rosas ou violetas que, frágeis, necessitavam de cuidados diários de um jardineiro. Sem se dar conta, começou a tirar seu time de campo. E, em poucos meses, as flores ficaram órfãs de pai e passaram a depender apenas da mãe natureza.

Outono. A chuva, antes fina e constante, agora alagava o jardim abandonado. O vento, até então brisa suave, não raro soprava furiosamente ao fim da tarde, arrancando as flores pela raiz. De belo só o sol do dia seguinte e o céu limpo da manhã, a iludir o jardineiro sobre o bom encaminhamento de sua missão.

Inverno. Finalmente resolve dar bom-dia às flores. E sente o frio cortar sua alma. Em vez do brilho, do colorido habitual, encontra um punhado de terra devastada. Já desacostumado a semear, regar e podar, se vê imóvel diante do que se passa à frente de seus olhos. Na verdade, seus olhos só fazem derramar lágrimas de quem se lembrava do jardim florido e reluzente da primavera, trocado pela imagem de um inverno que acabou por congelar seus sentimentos.

Percebe que perdeu a amizade com o tempo. O tempo das horas e o tempo do clima. De qualquer forma, o tempo. E tem de reconstruir tudo. Mas não é primavera e nem ele sabe se é jardineiro. Agora só lhe cabe a certeza de que cuidar é mais preciso que contemplar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Felicidade em movimento

Anda, anda!
Andar por quê?
Andar pra quê?
Pelo mundo afora.
Pela vida, ora!

Ao fundo, a voz canta
Teu corpo levanta
Movimento se encanta
Energia que espanta!

Os olhos espelham alegria
Quanta magia!
Por eles, um novo dia se cria


Corre, corre!
Correr pra onde?
Correr de quê?
Da tua angústia, dos teus medos...
Pra tua felicidade!

Vamos, um, dois, três, dez, cem...
Vai além, cativa alguém!
Faz um bem...
A alma do corpo refém? Nem vem?
Saudáveis apenas, amém!

Corta o quê? Pula pra onde? Chuta daqui?
Sim, daí!
A vida é pra sorrir
Corta a tristeza onde vir
Pula pra outra, se o coração pedir!

Profissionais do corpo que afagam as almas,
Ensinam, aprendem, praticam
A vocês, as palmas
De uma platéia que chora suor,
Transpira problemas de cor
Mas sem perder o sorriso ao redor

Vocês, maestros da batuta invisível,
Silenciem por um instante as vozes
Pra que nossas almas digam velozes
Caminhar é possível
Viver, incrível!

Quatro horas que mudaram o mundo

Interessante perceber como algumas tecnologias vão permitindo descobertas geniais. Acabo de me convencer que outras “ologias” – as mais ocultas - estão erradas, precisam ser revistas, deu a louca nos astros ou eu estou ficando louco. Explico.

Outro dia estava navegando por um desses sites conhecidos de ‘expansão de círculos’ (a última vez que tinha ouvido falar nisso era nas aulas do velho Dionísio, que conseguia, com maestria, conduzir o giz pelo quadro negro desenhando uma circunferência perfeitamente curvilínea). Mas dizia eu da minha navegação virtual quando me deparei com uma “comunidade” absolutamente única: o dia do meu aniversário!

Sim, depois dos “eu odeio algo ou alguém” e “fora fulano ou cicrano” criaram uma comunidade decente: o dia do nascimento. Imagina... depois que o primeiro sujeito teve o arroubo de genialidade foi copiado por outros 365 (imagino que a mais interessante das 366 seja a do pessoal de 29 de fevereiro, que só pode assoprar velinhas de verdade a cada 4 anos, mas sigo curioso pra saber quando o tal gênio nasceu...).

Mouse vai, clique vem, e eis que alguém surge com o tópico tão esperado, mas que ninguém havia tido coragem de postar: você é de que ano? Hum... senti um arrepio na espinha e aquela sensação de frio na barriga incontrolável. Finalmente os dezessetanos de dezembro saberão quando nasceram seus pares de velinhas.

Minha mãe sempre gostou de astrologia. Nunca fui muito metido no assunto, mas algo me levou a concluir que aquela seria a chance derradeira de saber se os “ólogos” da vida estavam certos. A primeira a se voluntariar – e sugerir o tópico - foi uma simpática senhora de óculos escuros. Pensei: será esse meu futuro? Ser um simpático senhor míope charmoso que fica navegando na Internet com idéias geniais sem muita utilidade?

Antes que me ocupasse da resposta, outras manifestações começaram a aparecer. Em tese, deveriam ser sucintas, afinal, a pergunta era bastante clara. Mas como os sagitarianos são vaidosos! Cada um fez questão de dar pitaco na sua própria resposta. Eis que na terceira tacada chega a Marisa e emenda: “tb sou bem experiente!!!!” Taí outra característica nossa: não assumimos que envelhecemos, aí velhice vira experiência, sabe como é... (ah, e as quatro exclamações bem espalhafatosas ao fim da frase não seriam de se espantar em se tratando de alguém mais jovem... mas vá dizer isso pra um sagitariano “experiente”...)

A criatividade do Zé Faria o levou a fazer uma espécie de auto-degustação: sou da safra de 1952. Faltou dizer se era argentino, chileno, francês ou italiano... Pra não fugir à regra veio logo a Mila cantar de galo: acho que sou a + nova aki, Bem, que é nova não precisa dizer. Basta ver que, com um econômico e moderno “+” e um “k” espremido entre duas vogais ela deu um prepotente tiro no “qu”.

Duas horas depois a Carol, inconformada, foi dizer que ela sim era a mais nova, e provou por a mais b. Coitado de mim... eu que nem estou tão velho, comecei a me sentir um trapo. Elas não viram os caras-pintadas, os colloridos roxos, as diretas, o playmobil, o atari, os discos de vinil... Mas devem estar felizes com as tchutchucas, os tigrões e as festas no apê. Pior a Bia, tadinha, nasceu em 93 e se declarou radiante a mais nova da casa. Não viu o Senna correr nem morrer. Não viu a inflação subir nem descer. Em compensação, deve achar que o futebol brasileiro é algo do outro planeta e até hoje deve se perguntar pra que disputar copas se todo mundo já sabe qual o melhor time (sei não, pensando bem, não deve dar muita bola pra isso...).

Enquanto isso, a Bárbara, mostrava alívio com o destino que a poupou de não ser dezessetana: “às 23:30h. Ufa, por pouco sou do dia 18.”. Tristeza mesmo só pro velho Rodolfo de 1969, cuja melancolia em pouco lembrava o jovem Marcus de 1957: até disse a hora em que nasceu! A Vanessa, por sua vez, parece daquelas que não se cansam de aumentar sua “circunferência social”: “eu nasci em 1983!!!! Quem tbm nasceu no mesmo ano que eu, mi adiciona la tah!!! Bjos.(sic)" Lamento, vanessinha, mas vou ter de ser seu inimigo mordaz por causa de 2 anos...

Tava uma delícia a busca e a cereja do bolo foi quando achei o Rafael de 1981. Não acreditei! Pronto, a confirmação de que há outro como eu! Não sou único! E pelos que os “ólogos” insistem em dizer, deve ser igualzinho a mim! Bom... semelhante, afinal o cara nasceu quatro horas antes... Parecido comigo, pra ser preciso, já que ele estampa seu voto pro “não” no referendo com a mesma convicção com que votei “sim” ...

"O valor das coisas nao esta no tempo q elas duram, mas sim na intensidade com que elas acontecem". Que apresentação! Bravíssimo! Que sintonia! Os astros não mentem! Então era só confirmar a regência solene do espaço: saí a caça das comunidades adeptas do meu homônimo, homoânomo e homodátano.

Ele, de São Paulo; eu, do Rio. Ele, Inri Cristo para papa; eu São Francisco de Assis; ele, Portal do Inferno; eu acampamento Paiol Grande; ele Jason; eu Cidade dos Sonhos; ele bateria, eu violão e teclado; ele, estranho; eu, no máximo, converso com meu cachorro e sou meio esquecido; ele diz que vai pro inferno, eu já não gosto de violência nos estádios; o humor dele é negro, o meu, irônico e suave; o genérico gosta de zumbis e mortos-vivos; eu só quero acampar e fazer trilhas; ele é a favor da pena de morte, eu luto pela vida; ele acha brinquedos traumatizantes, eu jogo Playstation, e daí? Isso pra não dizer que transformava pregadores de roupa coloridos em jogadores de futebol; ah, ele odeia futebol com a mesma gana que eu morro de paixão pelo esporte, e ainda por cima acredita no horóscopo egípcio!

Quer saber? Já não acredito é em horóscopo nenhum!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Anar é...


Anar é não dar bola para a tristeza que bate a porta, ser mais feliz do que um dia cinza e chuvoso pode sugerir.

Anar é contar histórias simples, mas que provoquem risos, é dançar conforme a música e saber que elas não são tão complicadas quanto pensamos.

Anar é abraçar, agarrar, ir e vir, driblar o tempo sem refletir muito sobre o que nos deixa deste ou daquele modo. Anar é viver a vida de cada dia e ponto.


Anar pode não exigir um talento nato com as palavras, mas quem disse que isso é preciso? Se anar dia após dia nos faz felizes e enche nossa alma de pingos de luz, já é o bastante.

Anar é como este texto. Não mais do que três linhas por parágrafo. Não mais do que algumas palavras. Mas basta que elas passem por nossos olhos para garantirem mais um dia de alegria em nossas vidas.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Quem não chorou?


Eu chorei, quem não chorou?


Chorei a perda de meu país para os ditadores do falso milagre.

Chorei a anistia, chorei a queda do Muro de Berlim.

Aliás, chorei o nazismo, chorei o Apartheid e a morte do sonho de igualdade entre os homens.

Chorei a injustiça nossa de cada dia, que consagra ladrões de terno e gravata e relega homens de bem às calçadas da indiferença.

Por isso chorei quando me senti injustiçado, mesmo que durante noventa minutos de um jogo. Ora, o que é um jogo? A vida é um jogo. Meu jogo é minha vida.

Mas chorei com dignidade, porque as lágrimas me foram concebidas com o milagre da vida. Com elas me entristeço, dou gritos de alegria, mostro minha revolta, revelo minha gratidão. Com elas vivo meu jogo diário de vitórias e derrotas.

Eu não atiro.

Armas foram feitas por homens para matar homens.

Para matar sonhos, para plantar a desigualdade, para semear a discórdia e dizimar a humanidade.

Infeliz de quem atira no companheiro de trabalho, no colega de equipe, na alegria de um gol, no adversário de campo, na euforia da vitória, no time que o acolheu.

De quem nasceu para atirar só posso lamentar o choro dissimulado que não verte lágrimas e debocha do sentimento alheio.

Porque artilheiro de verdade só sabe atirar bolas para o gol. Ele balança redes e espalha alegria para um povo sofrido, que junta cada centavo de seu mês curto para expurgar suas frustrações e se alegrar por míseros noventa minutos.

Meu artilheiro veste o branco da paz, o preto do luto no momento devido e sabe chorar na derrota. Por isso, seguirei aplaudindo até seus erros em campo, porque sei que seu esforço é fruto sua dignidade.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Um tapa na cara da hipocrisia

A cena chocou meio mundo: um pai-técnico destemperado agride a filha-atleta após o mau resultado no mundial de esportes aquáticos, disputado na Austrália. De quem é a culpa? Da câmera indiscreta.

Por que ela estava lá no vestiário justamente naquele momento constrangedor, senão para nos tornar cúmplices da nossa imagem e semelhança cotidiana? Só para nos forçar a emitir uma opinião socialmente correta sobre o acontecido? Definitivamente, apareceu na hora errada.

Pois fomos nós. Editoriais abertos, textos cintilantes, consciências tranqüilas de que o absurdo da cena do 'espancamento' merecia reprovação veemente. E cumprimos o papel devido de cidadãos.

Na seqüência da cena, a filha parece fugir. Nosso olhar insiste em segui-la. Ela sai do quadro, como se quisesse abandonar o papel principal da tragédia, mas retorna. Como num passe de mágica, o pai volta do transe. Abandona a fúria perfectível de treinador e volta ao pai-humano, enquanto a filha perde os superpoderes de atleta para ser simplesmente... filha.

Para a ucraniana Kateryna Zubkova, pior do que perder uma disputa esportiva seria consumar a dilapidação moral de seu pai em praça pública. Mais por instinto do que por razão, busca, atordoada, o assento. Claramente arrependidos do ato de agressão mútua, pai e filha transferem ao espectador, ainda que sem saber, o papel do constrangimento. Por que aquela câmera estava ligada?

Imagina então se, a cada agressão nossa a um filho, a um irmão ou um companheiro houvesse uma câmera a apontar o indicador para nossa dignidade? Conviveríamos aterrorizados com o monstro do ato que persiste a despeito do nosso arrependimento, de nossa condição humana, dos erros e acertos inerentes ao simples existir. Quem nunca se excedeu, ainda que verbalmente, que atire a primeira pedra. Pensando bem, melhor não atirar. Pode pegar mal...

Por isso, a filha é a primeira a correr em defesa do pai, proibido pela justiça australiana de se aproximar dela em um raio de 200 metros. Sabe que Mikhail Zubkov errou. E daí? Será que ela também não erraria com um de seus filhos? Humanamente, exige que a proibição seja revista. E o tribunal acata.

Somos todos assim. Batemos na vida aqui, apanhamos dela ali. Zubkova prometeu ao pai uma grande atuação que apagasse a vergonha dos Zubkov. No fundo, a ucraniana sabe que, brevemente, Melbourne serão águas passadas de março. Uma furiosa piscina de julgamentos onde, desta vez, a hipocrisia nossa de cada dia levou uma surra da autenticidade.

***
Abaixo, você vê a cena da agressão de Mikail Zubkov à filha. As imagens são da Rede Globo, veiculadas no programa Redação Sportv, do canal a cabo Sportv. Luis Roberto apresenta da redação e é auxiliado, em Melbourne/AUS pelo repórter Pedro Bassan.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Nós do vandalismo

Neste domingo o futebol viveu um dia de PCCs, Marcolas e Al-Jazeeras. Quem ligar as televisões hoje e vir as cenas exibidas exaustivamente do jogo entre Internacional e Grêmio vai ter a impressão de que o esporte preferido dos brasileiros extrapolou os limites da sanidade.

A informação mais importante do episódio lamentável não está no fato, mas na cobertura mais uma vez espetaculosa da imprensa, conferindo importância àquilo que não merece, de fato. Parte ínfima da torcida do Grêmio se dirigiu ao estádio do Internacional com duas intenções claras: depredar o patrimônio adversário e ganhar notoriedade num caso em que o jogo seria, para eles, mero detalhe. Conseguiu, parte por irresponsabilidade dos órgãos responsáveis pelo planejamento do espetáculo in loco, parte por falta de senso comum de nós, comunicadores.

Não é a primeira vez que damos publicidade a bandidos, estejam eles travestidos ou não de torcedores. Fazemos exatamente o mesmo que a polícia e os políticos, responsáveis pela manutenção de uma polis minimamente civilizada. Despreparados para exercer plenamente nosso ofício, dirigimos nossos instrumentos para a direção errada.

O presidente da equipe que recebe os baderneiros transfere a culpa ao dirigente adversário, que vaticina: "meus torcedores foram tratados como animais, encurralados em uma pequena parte do estádio sem direito a utilizar os banheiros". Sem perceber a gafe que comete ao generalizar a torcida gremista, mistura o torcedor-fã ao bandido travestido de torcedor. Bota no mesmo pacote duas classes que, de comum, só têm o espaço que lhes foi designado.


A inteligência policial (expressão que, aliás, virou moda) não destacou efetivo suficiente para a partida, subestimando os alertas dados pelos baderneiros, que prometeram ao longo da semana fazer o que de fato fizeram. O roteiro da tragédia estava escrito. Bastava ser executado e rodado.

Um dos raros momentos de lucidez se deu quando a partida foi paralisada. Parte do estádio Beira Rio ardia em chamas e o repórter Luciano Calheiros perguntou a um jogador gremista algo do tipo "ainda dá para fazer alguma análise do jogo diante disso tudo?". Não era o tipo de pergunta para qual boa parte dos jogadores estivesse treinado para responder. Aliás, apenas treinadores estão treinados para responder algo que não está na pauta diária. Poucos treinadores, diga-se de passagem. Personas non-gratas pela imprensa, como o hoje beatificado Felipão ou os tão temidos quanto exaltados Emerson Leão e Vanderlei Luxemburgo.

A propósito, o jogador em questão, diante da pergunta do repórter, fez a típica "análise do jogo": o time está lutando, a partida está "pegada", etc e etc. Perplexo com a falta de engajamento do jogador na questão - diante de parte do estádio envolto numa fumaça negra asfixiante - Calheiros tentou situar o atleta no episódio. Em vão. Eles não usam black-tie.

O grau de exaltação dos bandidos era proporcional à agressividade dos despreparados policiais e do deslumbramento de fotógrafos e cinegrafistas. Se pudessem, pegariam uma sonora com a fumaça: como é estar asfixiando os torcedores? Outros comunicadores, mais comedidos, optaram pelo caminho simplista da hipocrisia: eles deveriam ter tomado alguma providência. Esses vândalos não podem continuar freqüentando os estádios. O policiamento está inadequado. Até quando ou onde isso vai parar, perguntavam-se tão alienados quanto o presidente de clube que generaliza seu torcedor ou o responsável pela segurança que não percebeu o infeliz desfecho que o episódio iria ter.

Vinda da imprensa, dos comunicadores, a pergunta soa esquizofrênica. Eles são parte do espetáculo até o ponto que lhes convêm. Depois, não se sentem culpados por "publicizar" o fato, como não se sentiram quando abriram infindos blocos de Fantástico e afins para cobrir as ações do PCC em tempo real. Marcola devia estar rindo e pedindo por celular que aumentassem o vandalismo cada vez que o programa abria novo link a um de seus repórteres.

A imprensa está órfã da censura e refém da democracia. Falar em censura na imprensa é como apoiar o nazismo. Pois é hora de dizer: há um tipo de censura que precisa ser considerada. Ela é necessária para que não se dê cartaz àqueles que não merecem. Diferentemente da implementada pela ditadura militar, esta se baseia na defesa dos direitos humanos e numa sociedade não-violenta, a começar pela construção da linguagem. Se vivemos num país em que mais de 90% da população recebe informações via televisão, se reconhecemos que somos, de fato, produtores e formadores de opinião e educadores, por que não direcionarmos nosso olhar e nossa linguagem para a reeducação de nossa audiência?

Não basta pregar o fim da violência nos estádios. Enquanto ajustarmos nossas lentes para as arquibancadas violentas e não abolirmos de nosso futebolês palavras como guerra, batalha, tiro, bomba e afins cairemos sempre na hipocrisia da omissão de quem sabe que pode mudar mas prefere angariar votos para a a audiência. O bom-senso agradece.
***
Abaixo, a reportagem do jogo entre Internacional e Grêmio, com imagens do canal a cabo Sportv.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Como pode um peixe vivo...

O cruzamento de Jorge Luiz é perfeito. Romário se estica, mas perde para o tempo. Fosse bola, estaria sorrindo de orelha a orelha. Como é Peixe, mergulha no vazio e só encontra a rede.

Romário sonhou com gols. Deram-lhe oito. Pediu uma partida para a história. Por sete vezes a rede balançou em apenas 45 minutos. Suplicou emoção. Disputa de pênaltis. Mas que destino é esse que entrelaça o Peixe na ilusão do quase? Que oferta aquilo que um jogo tem de melhor para o artilheiro, exceto para um sonhador agonizante?


Ninguém deu bola para ele. Bola nos pés do meio-campista, cadê Romário? Bola para o lateral, onde está Ele? Os deuses olham, mas até para eles é difícil encontrar o gênio. Definitivamente, 11 não é a bola da vez. Estatura?

Estigma.

Em noventa minutos tingidos de preto e branco, Romário não tem seu sonho revelado. Ao fim do jogo, suas pernas se transfiguram em cristal frágil, a acusar 23 anos de serviço prestado às redes. Desaba no gramado. "Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só,
mas sonho que se sonha junto é realidade."

Cansados da romaria angustiante, seus companheiros de equipe não sonharam com o milésimo. Se pudessem, todos reservariam uma baliza só para que ele realizasse sua fantasia e, finalmente, deixasse todos trabalharem. Mas a grandeza do Peixe não permite a nau cruzmaltina seguir rumo solo. Por hora, o Maracanã será sempre palco do onze. Só depois, dos outros dez coadjuvantes.

Sem forças, Romário vê seu time e seu sonho serem penalizados. O Peixe olha fixo e abatido para as redes. E, como apraz ao destino de sua espécie, não esboça reação.

11 de abril de 2007. No dia da estrela solitária Romário, foi outra que brilhou. Na verdade, uma constelação de 11 homens com brio de general e sorte de gloriosos. O Botafogo segue em busca do sonho do bi. Ao Peixe, resta descansar em sua rede de ilusões e aguardar a próxima janela do destino se abrir.

***
Abaixo, você confere como foi Botafogo 4 x 4 Vasco no Maracanã, pelas semifinais da Taça Rio pela Globo com a narração de Galvão Bueno e comentários de Sérgio Noronha.