sábado, 4 de outubro de 2008

Almas que brilham


Almas que brilham escondem-se sob casacos de simplicidade. Brilham em síntese e antítese. Logo, ironia. Mas que ironia singela, doce e instigante que a do ser humano... A diferenciar os que marcam dos que apenas passam.


O que seus olhares escondem? Inteligência. E esse sorriso aberto? Franqueza. Ah, sim. Essa não se esconde. Mas bem que poderia ser exemplo. Antídoto contra a blasfêmia da hipocrisia nossa de cada dia.

Por isso é especial. Quem se faz diferente por dentro não precisa de casca de borracha nem sorriso de barbie. Se não entendo, me desespero. Ela se limita a rir desse desespero. Que não é só meu, porque na verdade ri de toda essa ironia palpitante em almas dissimuladas, esforçadas em ser um rascunho mal-acabado de si próprias. 

Ela é e ponto. Melhor, reticências. A dizer que a vida segue aberta como no curso de rios que se cruzam a todo instante. De perto, mar sem fim. De longe, fluxo de energia a irrigar de consciência uma multidão de robôs alienados por um mundo de faz-de-conta. Não deixa de ser cômico que sejamos esboços encharcados de orgulho ambulante. E seu único orgulho seja se  encharcar de si mesma.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Paz inesquecível


A água cai forte, mas a chuva passa rapidamente. Já é madrugada e estou ilhado num posto de gasolina em frente ao meu canto predileto. Belo presente dos céus que, por não poder atravessar o pequeno barco de madeira para a ilha, tenha acabado encontrando três dos melhores amigos que fiz por lá.

Bastou que Uilson chegasse, se juntando a mim, Gui e Gi para que a chuva cessasse. Era um pedido de espera dos deuses para que voltássemos juntos em meu último dia num dos cantinhos mais gostosos de se morar no Rio de Janeiro.

Separada da Barra da Tijuca por apenas um canal e não mais do que 40 segundos, a Ilha da Gigóia foi meu recanto nos útlimos 18 meses. Desde que lá cheguei, encontrei novos amigos, resgatei valores, mas, acima de tudo, achei meu tesouro: uma casa pequena de dois andares suficiente para apaziguar um coração angustiado.

Foi único ter compartilhado momentos especiais numa vila de 12 casas geminadas repletas de olás, abraços, sorrisos e muita espontaneidade. Descomprimidos e desangustiados do ambiente urbanóide, nos permitimos ser crianças, jovens e adultos rebeldes. Tudo a um só tempo, sem vergonha nem preconceito.

Por lá não há polícia, porque também não há ladrões. Não é preciso correr, afinal tudo é logo ali. E, por serem não mais do que 4 mil num espaço tão pequeno, todos se tratam pelo nome, (quando não pelo apelido...), sentem a alegria e a tristeza alheias como parte da deles e fazem do comum um lema silencioso, mas ao mesmo tempo tão presente que os marca da lagoa para fora.

Por isso, quando volto meus olhares novamente ao Rio de Janeiro de verdade - aquele que sofreu com décadas de produção e consumo frenéticos - temo por ver que é necessário haver uma ilha para me fazer enxergar o que não percebo no automatismo cosmopolita: estou perdendo dias de vida a cada dia que passo numa existência hostil.

Lembro-me também de minha mãe, por quem tenho grande carinho. Ela me ensinou que solidão só vale a pena se rimar com reflexão e, ainda assim, não compensa
por nada desse mundo viver ilhado, aí sim, em conceitos imutáveis. Melhor é compartilhar, mesmo que isso valha se expor além do limite. Sou ingênuo sim, confesso. Perco na vida por isso. Mas não troco por nada as goleadas que a sinceridade e a transparência me têm proporcionado.

Margareth, de quem herdei o sobrenome Timoteo, meu olhar e meu sorriso por vezes escrachados me deu mais do que uma educação de mãe. Fez-me tornar humano antes de homem. Ao abrir mão de trabalhar em dois empregos para estar com os filhos, ao deixar de morar em um bairro central para dar qualidade de vida a eles numa vila um tanto quanto distante, lá pelas bandas de Maria Paula, em Niterói, acertava em cheio. Plantava e regava para colher em 10, 20 anos. Pecou por excesso? Talvez. Mas deve ter pensado que há coisas que a vida se encarrega de nos ensinar, como trocar lâmpadas ou trocar de casa, suportar o peso de sacos de cimento ou de julgamentos alheios, não saber lavar direito a louça ou a roupa suja de um relacionamento...

Mas de uma coisa não posso reclamar de minha mãe. Ela nos ensinou a compartilhar do banquete singelo dos sentimentos e da pureza. Por isso, no dia das mães, ela saberá que estou largando um dos lugares mais caros ao meu coração. Mas mamãe me ensinou também que somos responsáveis pelo que cativamos. Portanto, também tem consciência de que saio feliz, afinal o maior item de minha mudança não precisa ser transportado em caminhões ou barcos. Se não posso levar a ilha que vejo, tenho o prazer de carregar para sempre a ilha que sinto.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Tabelas do destino


Mais rápido, mais alto, mais forte. Tudo que soou hiperbólico foi exaustivamente estampado em nossas TVs, afinal os Jogos Olímpicos são a nata da excelência esportiva, embora com alguns casos de superação que valem mais do que medalhas.

Cristina Galarza foge radicalmente dos padrões de estética e performance que esperamos de nossos heróis esportivos. Fui apresentado à jogadora de basquete há um ano, na zona mista da Arena Multiuso do Pan. Como repórter oficial dos Jogos, tinha a obrigação de colher frases das principais jogadoras de cada equipe. Naquele dia, havia sido Galarza.

Deveria perguntá-la sobre percentual de arremessos, movimentação em quadra e obviamente os seis pontos marcados na derrota por larga margem. A Argentina era uma equipe esforçada, muito aquém do time masculino campeão mundial. Antes de nos dizer a primeira sílaba, Cristina estendeu-me a mão. Retribuí o gesto com certo constrangimento. Estavam negras de tanto haverem tocado as rodas de sua cadeira. Ela abriu um largo sorriso e começou a responder às perguntas.

"O que dizer após uma derrota como essa?", propus

"Que devemos continuar lutando. Estar aqui já é uma vitória."

Logo percebi que tratar de arremessos, roubadas de bola e rebotes era desperdiçar a Cristina que havia por trás da Galarza. Entre uma resposta e outra, vi que nada daquilo era especialmente importante para aquela senhora de 46 anos encharcada de suor e com as mãos calejadas.

"Não tínhamos equipe formada desde o Pan de 95, em Mar del Plata. Não há clubes, então jogamos contra homens na Argentina. Foram eles que nos deram força para formar uma equipe e vir ao Rio. Mas sabíamos que não teríamos muitas chances. Viemos apenas pelo prazer de defender nosso país e realmente por falta de opções."

Esportivamente, a equipe de basquetebol em cadeira de rodas da Argentina não era minimamente competitiva. Perderia para qualquer equipe paraolímpica que se montasse no Brasil. A mais jovem do time não tinha menos de 30 anos e a mais velha já havia completado 56.

"Jogo basquetebol por puro prazer. Estava me profissionalizando na Argentina quando, repentinamente, comecei a sentir dores no joelho esquerdo. Isso aos 18 anos. Fui fazer exames de rotina e diagnosticaram câncer. Um tipo tão raro e destrutivo que me obrigou a arrancar
subitamente parte da perna, sob pena de ver a doença se alastrar."

Sabia que não publicaria uma linha sequer no Serviço de Notícias dos Jogos, um serviço que se resumia a contar como haviam sido as partidas acrescido de declarações rápidas dos atletas. Mesmo assim, não conseguíamos nos desvencilhar, separados pela grade de um metro que distinguia Cristina do jornalista e sua equipe de voluntários.

"No início foi mais difícil, mas me perguntei: vou me entregar? Vou deixar de fazer o que mais amo? Deixar de jogar basquetebol? Deixar de ser mãe? Sim, sou mãe de três filhos, todos concebidos após a doença. Eles dependem de mim. Em casa, somos tratados iguais. Mas, me diga, por que vêm me entrevistar? Não há ninguém aqui para falar de nós. Nossa seleção não traz resultados. Não interessa a nenhum jornalista".

Parei por segundos. Poderia dar-lhe a resposta oficial de que era procedimento de praxe e a entrevista seria encerrada. Foi quando uma voluntária interveio com rara sensibilidade.

"Se estamos aqui é porque queremos te ouvir. E sua história é um exemplo. Você é uma vencedora, de verdade. Não importa o que diga o placar".

A emoção contagiou os voluntários que me ajudavam na cobertura. Naquela hora, foi difícil separar o homem do profissional. Achava que ter visto Jade Barbosa, Diego e Daniele Hipólito; Daiane dos Santos, Janeth e Marcelinho tinham sido o bastante. Os 10 dias seguintes de Parapan valeram por 10 minutos de Galarza, que, agora em um choro indisfarçável, terminava de nos contar sua história.

"Está sendo tudo maravilhoso. Nunca imaginei jogar num ginásio como esse. Jamais pensei em ser entrevistada, ter importância para a minha nação. É um momento mágico em minha vida e sei que nunca mais o reviverei. Obrigado pelo carinho".

Em meio a lágrimas e silêncio, nos afastamos. E sentimos que algo não estava completo. Reuni os voluntários no dia seguinte para falarmos de Cristina.

"Acho que ela merece uma homenagem pela mãe, pela mulher e pela atleta que é. Por que não fazemos um kit do Pan para ela? Um pode dar a bolsa que ganhou para ser voluntário, o outro a garrafinha d'água, outro a pochete, enfim, também recebemos camisas demais da organização. Podemos dar umas quatro, uma para cada filho e outra para ela, fora o casaco e o boné."

"Se alguém tiver camisas da seleção brasileira, acho que também vale como recordação", sugeriu um dos voluntários.

A decisão foi unânime e no dia seguinte pouca coisa importava além de localizar Cristina. E foi até mais fácil do que imaginávamos. Após jogar a partida de despedida, fomos até ela.

"De novo? Sempre eu?", disse, abrindo um sorriso carinhoso, como se já nos conhecêssemos há tempos.

"Sim, nos conte sobre o jogo", disfarcei, já sabendo que o mais importante estaria por vir. Após algumas palavras, uma de nossas voluntárias lhe entregou o kit.

"É para você e seus três filhos. Não vamos nos ver mais. Então boa sorte e seja muito feliz. Tomara que eles também gostem".

Cristina parou por alguns segundos. Abraçou cada um de nós cinco, se esforçando para se apoiar, ora na cadeira, ora em uma das pernas. Demorou até dizer a primeira palavra.

"Gostarão sim. Estou muito grata. E certa de que sentirei uma saudade imensa de todos vocês. Muito obrigado. De coração. E até breve."

No adeus silencioso, me dei conta de que o Pan não havia sido Thiago Pereira, Ádria dos Santos ou Clodoaldo Silva. Nada calou mais fundo do que Cristina.

Um ano depois, tento achá-la em sites de busca e descubro que, fora daquela arena, ela é uma entre tantas. Em minha memória, a personagem perfeita. No computador oficial do Pan, sem uma linha de destaque. Perdida para sempre até mesmo onde tudo se encontra. Viva apenas na memória dos que compartilharam aqueles breves minutos com a guerreira Galarza, heroína que os deuses do Olimpo saberão reconhecer, mas que nossos livros de histórias olímpicas jamais contarão.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Joões de barro


As balas que mataram o pequeno João Roberto estilhaçam em nossa cidadania. Onde estão os que deveriam nos proteger? Aliás, onde estava alguém para parar o carro que matou outro João, o Hélio, há um ano atrás? Diante das balas e dos carros que não param, paramos nós.

Por que balas matam? Alguém ainda se lembra que, em 2005, tivemos a chance de pôr um basta nesse falso moralismo de que cidadãos de bem precisam andar armados? Bastava um dedo. E não era no gatilho. Mas as armas ganharam de goleada, quase 65% dos votos. E seguimos podendo matar por legítima defesa e morrer por ilegítima ignorância.

Se optamos por dar armas a quem deveria desarmar, é hora de refletir. Onde começam as armas nossas de cada dia?
Da mesma sociedade que dispara ódio, pressa e intolerância? De bandeiras que sangram ira, línguas que destilam inveja e corações que pulsam mágoa?

Quando essa sociedade vai deixar de passar indiferente pelos que clamam honestamente sua atenção? Ah, mas isso é problema do Estado... Que Estado? Na democracia, o estado somos nós. Se ele é falho, falhamos nós que o escolhemos ou não cobramos dele o que nos é de direito. Revolta silenciosa não basta. É preciso - e legítimo - agir.

Será que nossos bandidos não começam nas fantasias infantis de super-heróis, quando aprendemos (?) que bandidos só são bandidos e mocinhos só são mocinhos? Crescemos e, em vez da liberdade, somos apresentados a um cárcere diário. Vivemos sob o império do medo, e aí a paralisia já nos torna desconfiantes e defensivos perante o desconhecido. Deixamos de ser altruístas, generosos, comunitários. Aliás, algum de nós já deu hoje um simples bom dia que seja?

Não devemos perder a esperança nem a dignidade. Sobretudo a sensibilidade. Ver um país que chamamos de nosso
mais humano não pode ser utopia. Nele, armas voltam a ser lápis, cadernos, livros e corações desarmados; bocas sorridentes e olhares sinceros estão engatilhados tão somente pra disparar felicidade aos quatro ventos. Em nome de Joões, Daniéis e Isabellas, que não merecem ter a sorte selada numa roleta-russa qualquer.

domingo, 6 de julho de 2008

Favor pisar a grama


- Vamos brincar?
- Onde?
- Que tal naquele gramado lá embaixo?
- Não me parece uma boa razão para abrir mão do meu repouso.
- Vem comigo. Algo me diz que não vais te arrepender.

Começava a cair a dinastia de Roger Federer na quadra central do All-England Lawn Tennis & Croquet Club. O elegante número 1 suíço punha à prova seu repertório inigualável de lobs, slices, drives, voleios e todos os aparatos que o conduziram ao topo não só do ranking mundial como da história dos grandes tenistas.

Também de branco, do outro lado, um jovem espanhol sempre disposto a sujar sua roupa de terra. Mas terra não basta no planeta da bolinha amarela. Por isso, o bravo Rafael Nadal, melhor tenista da atualidade, ainda sentia um vazio apertar seu peito, pois que não encontrava títulos sobre aquele terreno gramado.

Mas quantos são os privilegiados que têm do destino a chance de preencher os vazios, de superar os limites, de se auto-conhecerem indo e voltando do e para o limite? Tudo pelo bailar inconstante de uma bolinha que toca irregular a grama do abarrotado clube de tênis inglês.


Duelo de titãs.

Federer líder, clássico, agudo e preciso. Plana na grama como se bater uma bola a duzentos quilômetros por hora fosse acariciá-la com as entranhas de uma raquete.

Nadal enérgico, eficiente, crônico e agressivo. Golpeia a bola como se fosse destroçá-la, sem, entretanto, arrancar-lhe um fio ou levá-la além das linhas brancas de jogo.

Wimbledon 2008. E tão logo os deuses acharam aquele parque para brincar, sentaram-se. Não havia muito a fazer além de aplaudir a inteligência de Roger e a energia de Rafael. Para quem torcer? Olharam para os lados, onde lendas vivas e mortas do tênis se entreolhavam, atônitos, a cada troca de gentilezas entre o suíço, o espanhol e a quadra inglesa. Três línguas que falaram por todas num domingo ora de sol, ora de chuva. Ora de suor, ora de suspiro.

A noite que caía no estádio sem luz artificial chamou os deuses dos vivos e os mortos que não sabem se são deuses, mas juram jogar como os vivos. Precisavam responder à pergunta que quicava há mais de quatro horas e meia na quadra central: para quem entregar o troféu de campeão? Afinal, se havia uma coisa injusta naquele duelo era deixar a noite apagar o brilho de dois cometas, como tentaram fazer nuvens carregadas horas antes.

Em um jogo como o deste domingo, 3x2 Rafael Nadal sobre Roger Federer com 6/4, 6/4, 6/7 (5/7), 6/7(8/10) e 9/7, título é detalhe, troféu é detalhe, números são detalhes. Em jogos raros como os de hoje, para o bem do esporte, o mais precioso está gravado na memória dos presentes e na alma dos ausentes. Por isso, trataram os deuses de encerrar aquela partida, que não podia, por falta de luz artificial, diga-se bem, varar segunda-feira adentro.

Por isso, eram 21h15 na grama sagrada inglesa quando o troféu de Wimbledon refletiu pela primeira vez a face de Rafael Nadal. Sem esconder um centímetro de sorriso, o jovem de 22 anos desfilou alegria na noite londrina. Federer, cinco vezes campeão por ali, ainda rei entre os grandes tenistas, soube reconhecer a façanha do espanhol, mas não encontrou palavras para quebrar sua decepção.
"De verdade, acho que nós dois demos duro até o fim. No tênis, infelizmente precisa haver vencedores e perdedores. Não há empates".

Quando toma de Roger a palavra, Rafael lembra que as lágrimas deste domingo o conectam ao seu primeiro Grand Slam, no saibro francês de Roland Garros, há três anos. Para um jogador tão experiente, embora jovem, a confissão de inocência diante da magia e da grandiosidade de seu esporte nobre.

Assim que a cerimônia termina e os campeões se vão, presenteados pela exibição de gala; tão rápido a lona verde cobre a quadra central do All-England Lawn Tennis & Croquet Club, almas libertas rumam para a quadra vizinha. A noite toma a cidade e cada londrino já trilhou o caminho de casa. É quando duas daquelas almas errantes finalmente resolvem brincar naquele parque. Tentam ser Nadal e Federer por um dia. E descobrem o quão duro é tentar ser humano.

- Não te disse que seria bom?
- Fico devendo essa ao amigo...

E voltam sorrindo para seus afazeres no além.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Cantiga de despertar

Ele saía de um dia longo de trabalho. Embora cansado, não se sentiu mal, como antes. Tomou o táxi e foi subitamente tomado de uma sensação de paz. Uma paz indescritível, que só lhe seria revelada minutos depois, quando chegaria a seu quarto.

Instinto. Tomou da folha de caderno e começou a escrever o que segue. Sua cabeça estava leve e suas mãos incessantes. Não pensou duas vezes. Aliás, nem três, nem quatro. Apenas fez escrever, sentindo que uma força incontrolável invadia sua alma.

Eu não precisaria te escrever, mas sinto que devo. Acalma-te, meu filho. Tu não perdeste nada. Tudo o que passas na vida são pegadas de existência que ganhas em tua alma. Não te afliges com a dor que é passageira. Vieste com uma missão grande a este mundo. Nada que vá revolucionar teu habitat, mas a Missão de tua reforma íntima. Ela começa no desapego. E quantas lições os anjos do Senhor não vos tem enviado. A cada perda que dizes é ganho de vida. Acorda! Sofrimento é calo na alma. Isso é aquisição de longevidade, de décadas, de séculos. E bendiga a Deus por "sofreres" tanto agora, pois só assim podes desentorpecer tua visão e teus sentimentos. Deixe-se ser tocado pelo tempo da vida, pelo Belo de cada hora, de cada segundo. Não te vicies ou apegues a coisas vãs. É mal que tu mesmo recebes e aceitas.


Viveste, pela misericórdia, uma segunda oportunidade perto da natureza e do bucólico. Pedias honestamente isso em teus son hos. Sofrias com a ausência da figura da Mãe onipresente, como fora em tua infância. Concedemo-te as duas coisas por um período. Mas não te iludas, meu filho. Tratava-se apenas de descanso a teu corpo e refrigério a tua alma. Necessitavas deixar num lugar belo e cheio de boas energias a criança que não devia seguir contigo. É uma criança apegada, infantil, ciumenta, pedinte. Não a criança da alegria, da pureza e da caridade que devem persistir em nós. Acredite: tentamos te desligar dessa criança aos poucos, mas não foste capaz de aceitar. Fosse em casa ou no trabalho, estava lá a criança obssessiva. E, filho, quem pelo mundo é obssessivo, pelo mundo é obsidiado. De que adianta se abster dos prazeres mundanos se isso te mantém torpe diante do mundo? Se desconfias, se julgas, se vacilas...

Sê firme. No erro ou no acerto, mas jamais deixe de ser uma alma fluida. Aja com naturalidade, pense com naturalidade. Não reprima nem antecipe. Viva mais e melhor porque em paz constante com tua consciência. Cada um já cumpriu sua missão. Aceite isso de coração. Tua esposa te ajudaste e se ajudaste, mas era tempo de você crescer. Tua casa te abrigaste, mas era tempo de sair. E voar. Liberta-te. Saia, veja o Sol. E perceba como teu coração não depende de ti para pulsar. Basta estar em harmonia com a energia de Deus e do teu Eu-profundo. É hora de estar só para estar com todos. De aceitar a morte para viver o pleno. Deus vai tirar essa chaga do teu peito que se chama opressão. Deus está em ti. Seja mais forte e persistente do que teus pensamentos vãos. E que o balé eterno da natureza habite teu coração no compasso eterno do Criador. Que ele te abençoe agora e sempre.

Teu anjo da guarda

Ainda tomado por aquele sentimento inexplicável, ligou para sua mãe, que lhe confessou minutos de pois: sabe que tua avó acabou de me ligar dizendo não saber muito bem por quê? Escreve este texto que você recebeu no computador que vou mostrar a ela.

Em seguida, foi a vez de seu pai ler. Achou a mensagem coerente, bela e sugeriu que fosse compartilhada, afinal quanta gente não poderia precisar também daquelas palavras...

Aí está. Almas libertas se gostam e se compartilham. Porque nada aqui é só meu ou seu, esse texto é nosso. Como uma cantiga de despertar.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Da arte de congelar o tempo

Teu sorriso tem a medida exata de dez anos.
Faz tua face reluzir e o tempo parar enquanto te calas.
Nele, carrega o enigma esfíngico de teu ser.
Flor que se arma qual escudo impenetrável: mas como é doce contemplá-lo...

As palavras que de tua boca saem não ferem. Podem ser altas, sussurrantes, raivosas ou errantes. Mas fluem numa sinceridade tão clara como o caráter que delas emana.

Parece que essa angelitude rebelde te absolve dos pecados mundanos e dos julgamentos alheios, porque, se entoas o cântico da fúria, teu olhar descansa em mar aberto e sereno.

Ah, teu olhar... honesto como tuas palavras.
Fiel como teus pensamentos renascentistas.
Cada sílaba desmente a anterior, porém unidas soam um concerto lírico, desconcertante e único.

Cada momento contigo é singelo. Teus gestos regem passado, presente e futuro.
E se a dor ameaça feri-la, lá está ele novamente:
O sorriso que nem o tempo pode deixar de reverenciar.
A nós, andarilhos de tua estrada infinda, resta desfrutá-lo e aplaudir em silêncio.

Como é bom reencontrar essa voz doce que deixa palavras noutro plano.
Esse ser mutante, instável e suavemente instigante.
Rico poder te reconhecer pela força do Verbo, que poucos têm compreendido
E por isso mesmo lançado dardos contra teu peito aberto.

Teu trabalho e tua causa redimem teus deslizes.
Te tornam grande, sensível e guerreira.
Apóstola do bem, oferta a teus semelhantes a alegria que proporcionas ao Criador,
Quando te vê defender implacavelmente o Amor, ainda que às custas da guerra,
Sob esse sorriso puro que te traz à Terra.

Segue-te, Ana, tá?
Teu desejo será sempre uma ordem para a natureza que por sua filha se encanta.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Referendo Interno

Sim, eu voto pelo desarmamento.

Desarmem-se as consciências dos preconceitos sem sentido, as famílias do falso moralismo, os conceitos engessados que se perderam no tempo, a sociedade dos pensamentos ocultos, as ofensas desumanas que não cabem dentro de cada um.

Eu voto pelo desarmamento da velha política, dos esquemas sujos que envergonham o país. Desarmem a corrupção e seus autores que nos enganam, matando nossos sonhos e assassinando ideais de um país mais justo.

Meu voto é pelo desarmamento das ruas e seus fuzis barulhentos que disparam ódio, filhos da pressa, irmãos do stress, netos de um despotismo nada esclarecido.

Desarmem-se as bandeiras que sangram de ira, as línguas que destilam inveja, os corações que pulsam mágoa. Desarmem quem insiste em abrir as veias de nossa nação, os que se fartam da falsa riqueza e da pretensa nobreza. Atear fogo no lixo da sociedade? Atirar pedras nos que já cambaleiam?

Voto pelo desarmamento dos casais. Deponham os revólveres do ciúme, as pistolas da vingança, as carabinas do rancor. Sejam suas munições beijos; os tiros, afagos; a arma, o perdão. Calibre? O amor e suas balas que penetram sem perfurar.

Desarme-se a continuidade das cruzadas, basta de novos gladiadores, chega de fogueiras e caça às bruxas. Desarmem as fantasias de super-heróis, os bandidos que só são bandidos e os mocinhos que só são mocinhos.

Meu voto é pelo desarmamento do medo, da paralisia que impregna as cidades, da desconfiança perante o desconhecido. Quantas vezes não fabricamos armas e as entregamos de bandeja nas mãos do algoz, ainda que sejam eles nós mesmos...

Eu voto sim para a franqueza, não para a hipocrisia; sim pelos direitos que sabemos impor, não pelos deveres que aceitamos adquirir.

Meu voto é duplo, jamais nulo. Sim e não. Nascimento e morte. Respeito e reverência às naturezas. A minha, a tua, a dele, a nossa, a vossa, a deles.

Ah, se me fosse lícito o voto multicor... cheio de opções pra escolher algumas, pleno de flores para abastecer minha roleta russa. E poderia distribuir tiros de bom dia, como vai, precisa de ajuda?

Sim, te ajudaria. Não, não cobraria. Apenas faria atirar pro alto rojões de felicidade sempre que a sentisse perfurar nossas almas enquanto te ofereceria deliciosas bombas de chocolate pra agradar teu dia. E se meu peito explodisse de raiva ou ruísse de tristeza, fecharia os olhos
e contaria até dez, cem, mil. O quanto fosse preciso pra me desarmar e seguir de alma lavada.

Bom seria crescer e ver bolas de tênis não mais reféns de pés escaldados pelo asfalto da metrópole. E as armas voltando a ser lápis, cadernos, livros e corações desarmados; bocas sorridentes e olhares sinceros engatilhados tão somente pra disparar felicidade aos quatro
ventos...

Ainda não podemos votar por isso. Esse referendo passa ao largo de nossa pretensa genialidade.

domingo, 18 de maio de 2008

Cantigas de ninar I

Versos que encantam pela sonoridade, por adormecerem nossos corpos ainda na primeira idade, mas que entram e saem por nossos ouvidos como as brisas que assopram nosso dia a dia. Por onde andam nossas cantigas de ninar?

Pouco ou raramente temos a chance na vida de refletir sobre aquele punhado de palavras ditas por nossos pais, tios ou avós. E perceber sua sabedoria ímpar, ora imersa em códigos que passam inocentes por nossos sentidos, ora bem ali em nossa frente, porém guardada num passado que não acessamos mais.

Talvez por nos ocuparamos com tantos pequenos porquês de nosso mundo sério de gente grande, cantigas virem poeira, como as que cercam os livros de infância que ano após ano jogamos fora em nossas arrumações domésticas.

Uma pena que tão cedo esses legados despretensiosos tenham sido substituídos por fórmulas e teoremas nas salas de aula da vida, omitindo-nos a contribuição de nossa cultura e de quem mais deseja o nosso bem-estar.

Hoje acordei com uma dessas músicas na cabeça. Muitos devem lembrar-se dela.

"Se essa rua, se essa rua fosse minha... eu mandava, eu mandava ladrilhar... Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante... só pra ver, só pra ver meu bem passar. Nessa rua, nessa rua tem um bosque... que se chama, que se chama solidão... Dentro dele, dentro dele mora um anjo... que roubou, que roubou meu coração. Se eu roubei, se eu roubei teu coração... tu roubaste, tu roubaste o meu também... Se eu roubei, se eu roubei teu coração... foi porque, só porque te quero bem".

Quanta coisa singela e ao mesmo tempo necessária... quantas previsões... Nas ruas que são nossas teríamos aprendido sobre limites, atalhos, responsabilidades e o cultivar para cativar. No bosque dos anjos ladrões, saberíamos que inveja, ciúme e insegurança andam lado a lado. Que possuir não é ter verdadeiramente. E, finalmente, que estar com não basta para duas almas serem irmãs e libertas.

Ainda assim, rumamos por estradas tortas, enladrilhadas de cacos mal-juntados de experiências. Não importa o quanto erramos, mas em quantas dessas vezes o fazemos com vontade de acertar.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

De volta a Marte


No vazio do não, a razão pediu ao coração que sentisse paixão
Doce ilusão...
Paixão não existe onde pulsa recordação
Nobre tempo, senhor da vida, pai da perfeição

Quem diria, o perdão?
A transformar fel em mel, pedra em algodão
Mágoa em permissão
A fazer o sorriso emergir da sombra hostil de palavras vãs
Para espalhar luz de volta a almas irmãs

Quem diria, a comunhão?
A resgatar risadas puras e abraços abertos
Lágrimas de olhares sinceros
Carinhos de amantes confessos
E lembranças que de alegria transbordam em versos

Bem-vindos de volta os de Marte
Planeta vermelho, antes distante, agora tão perto
Que em minha esquina não é mais deserto
E em meu futuro faz juras de amor eterno