sábado, 15 de novembro de 2008

O príncipe plebeu


Príncipe encantado num cavalo branco. Tudo com o que ela sonhou durante anos. Mas o que a encantou nessa história?


O príncipe é o início de tudo. Princípio, começo. De certo modo, também a continuidade de uma linha de pureza. O príncipe é filho da realeza, não sofreu mácula nem misturou seu sangue - ou sua alma - com sentimentos plebeus.

Caminha com segurança, impõe respeito e beleza. Montado num cavalo branco, igualmente belo e puro, ganha em agilidade e destreza. Desafia o tempo cavalgando por campos de incertezas, mas sabe que, herdeiro da coroa e, a bordo da melhor montaria, chegará são e salvo ao coração da donzela.

Que se alimenta do retorno do príncipe. Ou do sonho de conhecê-lo pela primeira vez. Na verdade, reconhecê-lo, como se já fossem preparados um para o outro, como se antes mesmo de a vida e as circunstâncias interporem seus destinos, fatalmente se encontrasem na razão mútua de existirem. A donzela não caminha senão por sonhos doces e searas límpidas. Apenas cobra que, no fim, o príncipe confirme na beleza de sua face e na alvez de seu cavalo o caminho tenro e suave que ela sempre projetou.

A grande questão não é o príncipe nem o cavalo, mas o quão "encantados" eles são, justo porque encanto é primo de feitiço. Um príncipe encantado está inevitavalmente fora de seu estado natural. Só existe em aparência até que algo ou alguém o desencante. E se for desencantado perde a graça, desanda o enredo, decepciona a pobre da donzela, que se desmancha em lágrimas. Ela nem desconfia, mas no fundo o príncipe encantado é um jogo de espelhos que reflete sua beleza e projeta seus vazios.

E como evitar o círculo vicioso? Se ela se fecha, perde contato com um universo igualmente lindo, porém mais aventureiro e perigoso. Se abre as portas do coração à realidade e abandona a idéia do príncipe, pode antecipar o sofrimento e, quem sabe, até descobrir não um príncipe, mas vários homens generosos, educados, como que meios-príncipes. Mas vai inevitavelmente sofrer. Se dará conta de que precisa completar o quebra-cabeças, juntar as peças. De repente a união é uma soma de complementos. Ele tem o que falta em mim e eu tenho o que falta nele. Nada principesco, não? 

Sem viver por ilusões e encantos, ela não deixará de cair do cavalo muitas vezes. Mas, quanto menos se cobrar o príncipe, mais força terá para tomar as rédeas do cavalo. Que, vá lá, pode nem ser tão branco, forte e veloz. Mas certamente domável. E sempre que se levantar e olhar para as cicatrizes em seu corpo, toda vez que sentir seu coração doer um pouco, terá a certeza de que aprendeu um pouco mais sobre o amor. Não se enredará tão facilmente em sonhos ingênuos ou expectativas eternas, por mais belos e tentadores que pareçam. Mesmo sem saber, estará alguns passos mais próxima da felicidade, afinal, nossa razão mais nobre de existir é tão em carne e osso quanto o sorriso ingênuo de um bebê.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Neologismo de posição


Massa demais essa corrida em Interlagos. De cara, David encerra sua longa carreira de forma Coulthard: encontrando um Piquete no S do Senna. Enquanto isso Felipe guia seu deus-nos-acuda vermelho procurando apostar em algo mais que o chove-não-molha das previsões óbvias.


A saída pela tangente é acelerar. Mas como dar zebra, se num Vettel repentino seus cavalos rampantes não despejam potência no Lago? Iria o Sol brilhar para nosso bravo aventureiro ou lhe sobraria o bagaço do Laranja? O problema é que expurgar seu sentimento de Kubica pelos retões curvos de Interlagos não era o bastante. Porque lá pelo meio, Hamilton seguia um estilo Sutil de pilotagem, que, diga-se de ultrapassagem, o faria campeão mundial.

Tudo conspira para a meticulosidade circunstancial do inglês até que alguns Glocks de chuva dão o ar da graça no asfalto secamente britânico. Nada de previsão, seus engenheiros! Qualquer cidadão mortal sabe que finados chove ano sim, ano também. A questão era quando, como e onde. É só olhar pra torcida brasileira. Ela Takuma vontade tão grande que a chuva estrague a corrida do bom moço da ilha da Rainha... e brasileiro quando se junta pra bater tambor, não tem santo que segure.

De enfadonha, a corrida começa a parecer aqueles Bourdais de cidade pequena. Sacode pra cá, segura dali, como o Fisico desses pilotos aguenta? E a cabeça do inglês está um Trulli só, repetindo aquele verso de Flor de Lewis: "eu sei que o erro aconteceu, mas não sei o que fez tudo mudar de vez... onde foi que eu errei?". E por aí vai. Melhor, quase não vai, porque na Junção dos fatos, cada volta derrapante começa a lembrar uma luta de Boxes. Massa resiste bem à pressão da última delas, ao contrário do inseguro Hamilton, que se confunde entre Raikkonens e Kovalainens, como se tomara um porre de Kazuki.

Sorte dele que, enquanto pingos caem e bolsas despencam, a torcida sobe e Felipe voa, falta Timo ao pelotão que o separa do líder. Assim, um piloto de quinta colocação, que sequer subiria ao pódio, se vê consagrado. Campeão por um Nico assim, ó. Um pontinho. Fazer o quê? Ano que vem tem mais. E que de mangueira a gente só ouça falar em fevereiro ou num canto do banheiro!

domingo, 2 de novembro de 2008

A morte nossa de cada dia


Dia de finados costuma ser cinzento por dentro e por fora. Sutilmente, na dor que insistimos cultivar pelos que se foram, perdemos a chance de encarar a morte como fenômeno natural e cotidiano.


Não apenas porque algo ou alguém morre a cada instante. Há pequenas mortes, na realidade fins de ciclos que abrem brechas para transformações importantes em nossa vida.

O nascimento é a primeira grande morte de qualquer ser. Vir ao mundo é, por si só, um processo igualmente traumático para quem concebe e é concebido. Na ruptura de uma gestação, a morte do desejo e das expectativas dos pais; na saída da zona de conforto do bebê, a agonia inconsciente do pranto pós-morte.

A emoção de vencer na vida - independentemente da potência e da dimensão dessa vitória - é também uma morte. Seja calculada ou inesperada, racional ou intuitiva, a sensação de êxtase que nos invade nesses momentos mágicos e esporádicos de existência se assemelha a uma espécie de "orgasmo espiritual" (não por acaso o orgasmo é chamado pelos franceses de petite-mort, algo como "pequena morte").  Saímos de um estágio inerte (que pode muito bem ser um movimento contínuo, para os físicos uniforme) para sacudir a poeira e, finalmente, despertar. Por isso, costumamos chorar. O choro é dessas expressões como o riso e os espasmos musculares do orgasmo inexplicáveis. Apenas reconhecemos nelas um pouco da beleza de ser e viver.

Despertar e morrer são duas faces de uma mesma questão. Quem desperta de um transe - voluntário ou não - faz contato com sua parte essencial, a integridade existencial invariavlemente corrompida e contaminada por idéias fixas, pensamentos ansiosos e falsos quereres. E não há como se estabelecer vínculo com algo tão profundo sem o contato com a morte.

A sociedade do século XXI nos enche de razões e elementos para viver sem morrer. Mas viver sem morrer é passar pela vida sem que a vida passe por nós, quer dizer, apreciar as experiências sem vivê-las ou vivê-las de forma tão transbordante, tão maximizada que engasgamos em nossa própria superficialidade. Ou então damos a nossa alma satisfação de sua profundidade por meio de ilusões como paixões passageiras e aventuras fugazes.

O dia de finados não deveria nos conduzir à tristeza pelo que perdemos, mas a uma reflexão única sobre o quanto temos crescido com as pequenas e grandes mortes. Sempre que morremos ou sofremos a morte de outro como nossa saímos mais fortes, energizados. Enfim, verdadeiramente estamos prontos a viver a plenitude.  


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O tal do Marco


Natália surge com a questão super pertinente: "Onde está o Marco Teórico?". Mas que pergunta complicada, essa... Não vou passar horas dissertando sobre o tal sujeito (ou seria objeto?) porque periga eu acabar encontrando-o. Mas que essa criatura advinda do âmago de qualquer professor universitário existe, disso não tenho a menor dúvida.


Achar o Marco... Curioso porque, tirando o Marco Polo e o Nanini, todo mundo que conheço é Marcos, Marquinhos ou Marcão. Desconfio que na nossa brasilidade inculta jogamos o pobre do Marco para escanteio. Pensando bem, um escanteio qualificado e excêntrico.

Tem o Marco da Revolução Russa (Markov?), da Tomada da Bastilha (Jean Marc, talvez...), da Independência Americana (esse deve ser o Mark) e os Marcos possessivos do dia-a-dia: "Marco contigo e você nunca aparece". Deve ter se apaixonado cegamente por ele... 

Dizem que Jesus foi o Marco do Cristianismo. Peraí. Jesus foi Marco? E eu que jurava ser apenas João Batista o novo Elias ou vice-versa... Outros vaticinam: Fidel foi o Marco do comunismo em Cuba. Até tu, Fidel?

Quando quero me impor, demarco meu espaço. Olha o cara aí outra vez. Preciso pedir autorização ao Marco para extravasar meu eu-criativo, meu eu-lírico e todos os eus-raio-que-o-partam.

O problema é que, além de poliglota e onipresente, Marco é extremamente egocêntrico, logo malquisto. Marco com a noiva e a noiva não aparece: casamento desfeito. Marco no bar e você fura: no mínimo não vai com a cara do energúmeno (palavra feia, mas eu sei que a Natália vai gostar dela, então tá feita a homenagem). Marco às oito, você aparece às nove. Além de tudo, não tem a menor pontualidade - se bem que no Brasil isso nem é um grande defeito...

É, Natália, acho que vou te dever essa. Procurei e achei muitos marcos, mas o tal Marco Teórico talvez tenha me fugido em alguma esquina entre a subjetividade do não-pensamento à luz de Foucault e a ontologia psico-cognitiva de Freud. Isso te garanto que nem ele - Marco da psicanálise - explica!

sábado, 25 de outubro de 2008

Precisa-se


Havia um muro intransponível de palavras que ele erguia meticulosamente. Ali sobravam pontos, vírgulas e reticências que transbordavam para o nada. Perdiam-se sem significado que não o de belas palavras ao vento.


Ela queria mais. Palavras deviam tocar, seduzir, mexer com o coração de alguma forma. Procurava a ação, a química, quem sabe com boa dose de generosidade tão somente o olhar penetrante, a transformar sentimento em sensação, sensação em emoção... E daí para paixão seria um pequeno grande salto. 

Mas não havia sequer sensação. Diante das palavras que a ela sobravam, restava a ele o silêncio e a ação. Por onde começar a agir, se perguntava? Como se mover diante da paixão desperta que sequer encontra voz no peito alheio? 

Minguou. E fez adormecer um jardim lindo que brotava a exalar perfumes nunca antes experimentados. A vida que voltava, a luz que se acendia, a música que tocava. Nada disso precisava de motivo, sequer de existência. Bastava a força do amor que ele sentia. Deixou de bastar.

Curioso que tantos procurem amar e outros tantos recebam de presente o amor não-correspondido. Aí a magia das relações. Não fosse assim, o mundo inteiro se resumiria a um exército de robôs a dizer eu-te-amos, entregar uns aos outros flores de plástico, fazer de perfumes alfazemas passageiras, de luz feixe que se apaga e música apenas um punhado de sons. 

Ao ouvir não, ele se entristeceu. Em seguida, pediu a seu coração que se apacientasse. Nada como o tempo para ensinar os melhores caminhos, revelar os grandes amores e guardar as melhores experiências. Mesmo assim, ele a seguiu amando porque ainda não sabe como dizer não ao que tem de mais precioso: a luz de sua alma.

sábado, 4 de outubro de 2008

Almas que brilham


Almas que brilham escondem-se sob casacos de simplicidade. Brilham em síntese e antítese. Logo, ironia. Mas que ironia singela, doce e instigante que a do ser humano... A diferenciar os que marcam dos que apenas passam.


O que seus olhares escondem? Inteligência. E esse sorriso aberto? Franqueza. Ah, sim. Essa não se esconde. Mas bem que poderia ser exemplo. Antídoto contra a blasfêmia da hipocrisia nossa de cada dia.

Por isso é especial. Quem se faz diferente por dentro não precisa de casca de borracha nem sorriso de barbie. Se não entendo, me desespero. Ela se limita a rir desse desespero. Que não é só meu, porque na verdade ri de toda essa ironia palpitante em almas dissimuladas, esforçadas em ser um rascunho mal-acabado de si próprias. 

Ela é e ponto. Melhor, reticências. A dizer que a vida segue aberta como no curso de rios que se cruzam a todo instante. De perto, mar sem fim. De longe, fluxo de energia a irrigar de consciência uma multidão de robôs alienados por um mundo de faz-de-conta. Não deixa de ser cômico que sejamos esboços encharcados de orgulho ambulante. E seu único orgulho seja se  encharcar de si mesma.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Paz inesquecível


A água cai forte, mas a chuva passa rapidamente. Já é madrugada e estou ilhado num posto de gasolina em frente ao meu canto predileto. Belo presente dos céus que, por não poder atravessar o pequeno barco de madeira para a ilha, tenha acabado encontrando três dos melhores amigos que fiz por lá.

Bastou que Uilson chegasse, se juntando a mim, Gui e Gi para que a chuva cessasse. Era um pedido de espera dos deuses para que voltássemos juntos em meu último dia num dos cantinhos mais gostosos de se morar no Rio de Janeiro.

Separada da Barra da Tijuca por apenas um canal e não mais do que 40 segundos, a Ilha da Gigóia foi meu recanto nos útlimos 18 meses. Desde que lá cheguei, encontrei novos amigos, resgatei valores, mas, acima de tudo, achei meu tesouro: uma casa pequena de dois andares suficiente para apaziguar um coração angustiado.

Foi único ter compartilhado momentos especiais numa vila de 12 casas geminadas repletas de olás, abraços, sorrisos e muita espontaneidade. Descomprimidos e desangustiados do ambiente urbanóide, nos permitimos ser crianças, jovens e adultos rebeldes. Tudo a um só tempo, sem vergonha nem preconceito.

Por lá não há polícia, porque também não há ladrões. Não é preciso correr, afinal tudo é logo ali. E, por serem não mais do que 4 mil num espaço tão pequeno, todos se tratam pelo nome, (quando não pelo apelido...), sentem a alegria e a tristeza alheias como parte da deles e fazem do comum um lema silencioso, mas ao mesmo tempo tão presente que os marca da lagoa para fora.

Por isso, quando volto meus olhares novamente ao Rio de Janeiro de verdade - aquele que sofreu com décadas de produção e consumo frenéticos - temo por ver que é necessário haver uma ilha para me fazer enxergar o que não percebo no automatismo cosmopolita: estou perdendo dias de vida a cada dia que passo numa existência hostil.

Lembro-me também de minha mãe, por quem tenho grande carinho. Ela me ensinou que solidão só vale a pena se rimar com reflexão e, ainda assim, não compensa
por nada desse mundo viver ilhado, aí sim, em conceitos imutáveis. Melhor é compartilhar, mesmo que isso valha se expor além do limite. Sou ingênuo sim, confesso. Perco na vida por isso. Mas não troco por nada as goleadas que a sinceridade e a transparência me têm proporcionado.

Margareth, de quem herdei o sobrenome Timoteo, meu olhar e meu sorriso por vezes escrachados me deu mais do que uma educação de mãe. Fez-me tornar humano antes de homem. Ao abrir mão de trabalhar em dois empregos para estar com os filhos, ao deixar de morar em um bairro central para dar qualidade de vida a eles numa vila um tanto quanto distante, lá pelas bandas de Maria Paula, em Niterói, acertava em cheio. Plantava e regava para colher em 10, 20 anos. Pecou por excesso? Talvez. Mas deve ter pensado que há coisas que a vida se encarrega de nos ensinar, como trocar lâmpadas ou trocar de casa, suportar o peso de sacos de cimento ou de julgamentos alheios, não saber lavar direito a louça ou a roupa suja de um relacionamento...

Mas de uma coisa não posso reclamar de minha mãe. Ela nos ensinou a compartilhar do banquete singelo dos sentimentos e da pureza. Por isso, no dia das mães, ela saberá que estou largando um dos lugares mais caros ao meu coração. Mas mamãe me ensinou também que somos responsáveis pelo que cativamos. Portanto, também tem consciência de que saio feliz, afinal o maior item de minha mudança não precisa ser transportado em caminhões ou barcos. Se não posso levar a ilha que vejo, tenho o prazer de carregar para sempre a ilha que sinto.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Tabelas do destino


Mais rápido, mais alto, mais forte. Tudo que soou hiperbólico foi exaustivamente estampado em nossas TVs, afinal os Jogos Olímpicos são a nata da excelência esportiva, embora com alguns casos de superação que valem mais do que medalhas.

Cristina Galarza foge radicalmente dos padrões de estética e performance que esperamos de nossos heróis esportivos. Fui apresentado à jogadora de basquete há um ano, na zona mista da Arena Multiuso do Pan. Como repórter oficial dos Jogos, tinha a obrigação de colher frases das principais jogadoras de cada equipe. Naquele dia, havia sido Galarza.

Deveria perguntá-la sobre percentual de arremessos, movimentação em quadra e obviamente os seis pontos marcados na derrota por larga margem. A Argentina era uma equipe esforçada, muito aquém do time masculino campeão mundial. Antes de nos dizer a primeira sílaba, Cristina estendeu-me a mão. Retribuí o gesto com certo constrangimento. Estavam negras de tanto haverem tocado as rodas de sua cadeira. Ela abriu um largo sorriso e começou a responder às perguntas.

"O que dizer após uma derrota como essa?", propus

"Que devemos continuar lutando. Estar aqui já é uma vitória."

Logo percebi que tratar de arremessos, roubadas de bola e rebotes era desperdiçar a Cristina que havia por trás da Galarza. Entre uma resposta e outra, vi que nada daquilo era especialmente importante para aquela senhora de 46 anos encharcada de suor e com as mãos calejadas.

"Não tínhamos equipe formada desde o Pan de 95, em Mar del Plata. Não há clubes, então jogamos contra homens na Argentina. Foram eles que nos deram força para formar uma equipe e vir ao Rio. Mas sabíamos que não teríamos muitas chances. Viemos apenas pelo prazer de defender nosso país e realmente por falta de opções."

Esportivamente, a equipe de basquetebol em cadeira de rodas da Argentina não era minimamente competitiva. Perderia para qualquer equipe paraolímpica que se montasse no Brasil. A mais jovem do time não tinha menos de 30 anos e a mais velha já havia completado 56.

"Jogo basquetebol por puro prazer. Estava me profissionalizando na Argentina quando, repentinamente, comecei a sentir dores no joelho esquerdo. Isso aos 18 anos. Fui fazer exames de rotina e diagnosticaram câncer. Um tipo tão raro e destrutivo que me obrigou a arrancar
subitamente parte da perna, sob pena de ver a doença se alastrar."

Sabia que não publicaria uma linha sequer no Serviço de Notícias dos Jogos, um serviço que se resumia a contar como haviam sido as partidas acrescido de declarações rápidas dos atletas. Mesmo assim, não conseguíamos nos desvencilhar, separados pela grade de um metro que distinguia Cristina do jornalista e sua equipe de voluntários.

"No início foi mais difícil, mas me perguntei: vou me entregar? Vou deixar de fazer o que mais amo? Deixar de jogar basquetebol? Deixar de ser mãe? Sim, sou mãe de três filhos, todos concebidos após a doença. Eles dependem de mim. Em casa, somos tratados iguais. Mas, me diga, por que vêm me entrevistar? Não há ninguém aqui para falar de nós. Nossa seleção não traz resultados. Não interessa a nenhum jornalista".

Parei por segundos. Poderia dar-lhe a resposta oficial de que era procedimento de praxe e a entrevista seria encerrada. Foi quando uma voluntária interveio com rara sensibilidade.

"Se estamos aqui é porque queremos te ouvir. E sua história é um exemplo. Você é uma vencedora, de verdade. Não importa o que diga o placar".

A emoção contagiou os voluntários que me ajudavam na cobertura. Naquela hora, foi difícil separar o homem do profissional. Achava que ter visto Jade Barbosa, Diego e Daniele Hipólito; Daiane dos Santos, Janeth e Marcelinho tinham sido o bastante. Os 10 dias seguintes de Parapan valeram por 10 minutos de Galarza, que, agora em um choro indisfarçável, terminava de nos contar sua história.

"Está sendo tudo maravilhoso. Nunca imaginei jogar num ginásio como esse. Jamais pensei em ser entrevistada, ter importância para a minha nação. É um momento mágico em minha vida e sei que nunca mais o reviverei. Obrigado pelo carinho".

Em meio a lágrimas e silêncio, nos afastamos. E sentimos que algo não estava completo. Reuni os voluntários no dia seguinte para falarmos de Cristina.

"Acho que ela merece uma homenagem pela mãe, pela mulher e pela atleta que é. Por que não fazemos um kit do Pan para ela? Um pode dar a bolsa que ganhou para ser voluntário, o outro a garrafinha d'água, outro a pochete, enfim, também recebemos camisas demais da organização. Podemos dar umas quatro, uma para cada filho e outra para ela, fora o casaco e o boné."

"Se alguém tiver camisas da seleção brasileira, acho que também vale como recordação", sugeriu um dos voluntários.

A decisão foi unânime e no dia seguinte pouca coisa importava além de localizar Cristina. E foi até mais fácil do que imaginávamos. Após jogar a partida de despedida, fomos até ela.

"De novo? Sempre eu?", disse, abrindo um sorriso carinhoso, como se já nos conhecêssemos há tempos.

"Sim, nos conte sobre o jogo", disfarcei, já sabendo que o mais importante estaria por vir. Após algumas palavras, uma de nossas voluntárias lhe entregou o kit.

"É para você e seus três filhos. Não vamos nos ver mais. Então boa sorte e seja muito feliz. Tomara que eles também gostem".

Cristina parou por alguns segundos. Abraçou cada um de nós cinco, se esforçando para se apoiar, ora na cadeira, ora em uma das pernas. Demorou até dizer a primeira palavra.

"Gostarão sim. Estou muito grata. E certa de que sentirei uma saudade imensa de todos vocês. Muito obrigado. De coração. E até breve."

No adeus silencioso, me dei conta de que o Pan não havia sido Thiago Pereira, Ádria dos Santos ou Clodoaldo Silva. Nada calou mais fundo do que Cristina.

Um ano depois, tento achá-la em sites de busca e descubro que, fora daquela arena, ela é uma entre tantas. Em minha memória, a personagem perfeita. No computador oficial do Pan, sem uma linha de destaque. Perdida para sempre até mesmo onde tudo se encontra. Viva apenas na memória dos que compartilharam aqueles breves minutos com a guerreira Galarza, heroína que os deuses do Olimpo saberão reconhecer, mas que nossos livros de histórias olímpicas jamais contarão.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Joões de barro


As balas que mataram o pequeno João Roberto estilhaçam em nossa cidadania. Onde estão os que deveriam nos proteger? Aliás, onde estava alguém para parar o carro que matou outro João, o Hélio, há um ano atrás? Diante das balas e dos carros que não param, paramos nós.

Por que balas matam? Alguém ainda se lembra que, em 2005, tivemos a chance de pôr um basta nesse falso moralismo de que cidadãos de bem precisam andar armados? Bastava um dedo. E não era no gatilho. Mas as armas ganharam de goleada, quase 65% dos votos. E seguimos podendo matar por legítima defesa e morrer por ilegítima ignorância.

Se optamos por dar armas a quem deveria desarmar, é hora de refletir. Onde começam as armas nossas de cada dia?
Da mesma sociedade que dispara ódio, pressa e intolerância? De bandeiras que sangram ira, línguas que destilam inveja e corações que pulsam mágoa?

Quando essa sociedade vai deixar de passar indiferente pelos que clamam honestamente sua atenção? Ah, mas isso é problema do Estado... Que Estado? Na democracia, o estado somos nós. Se ele é falho, falhamos nós que o escolhemos ou não cobramos dele o que nos é de direito. Revolta silenciosa não basta. É preciso - e legítimo - agir.

Será que nossos bandidos não começam nas fantasias infantis de super-heróis, quando aprendemos (?) que bandidos só são bandidos e mocinhos só são mocinhos? Crescemos e, em vez da liberdade, somos apresentados a um cárcere diário. Vivemos sob o império do medo, e aí a paralisia já nos torna desconfiantes e defensivos perante o desconhecido. Deixamos de ser altruístas, generosos, comunitários. Aliás, algum de nós já deu hoje um simples bom dia que seja?

Não devemos perder a esperança nem a dignidade. Sobretudo a sensibilidade. Ver um país que chamamos de nosso
mais humano não pode ser utopia. Nele, armas voltam a ser lápis, cadernos, livros e corações desarmados; bocas sorridentes e olhares sinceros estão engatilhados tão somente pra disparar felicidade aos quatro ventos. Em nome de Joões, Daniéis e Isabellas, que não merecem ter a sorte selada numa roleta-russa qualquer.

domingo, 6 de julho de 2008

Favor pisar a grama


- Vamos brincar?
- Onde?
- Que tal naquele gramado lá embaixo?
- Não me parece uma boa razão para abrir mão do meu repouso.
- Vem comigo. Algo me diz que não vais te arrepender.

Começava a cair a dinastia de Roger Federer na quadra central do All-England Lawn Tennis & Croquet Club. O elegante número 1 suíço punha à prova seu repertório inigualável de lobs, slices, drives, voleios e todos os aparatos que o conduziram ao topo não só do ranking mundial como da história dos grandes tenistas.

Também de branco, do outro lado, um jovem espanhol sempre disposto a sujar sua roupa de terra. Mas terra não basta no planeta da bolinha amarela. Por isso, o bravo Rafael Nadal, melhor tenista da atualidade, ainda sentia um vazio apertar seu peito, pois que não encontrava títulos sobre aquele terreno gramado.

Mas quantos são os privilegiados que têm do destino a chance de preencher os vazios, de superar os limites, de se auto-conhecerem indo e voltando do e para o limite? Tudo pelo bailar inconstante de uma bolinha que toca irregular a grama do abarrotado clube de tênis inglês.


Duelo de titãs.

Federer líder, clássico, agudo e preciso. Plana na grama como se bater uma bola a duzentos quilômetros por hora fosse acariciá-la com as entranhas de uma raquete.

Nadal enérgico, eficiente, crônico e agressivo. Golpeia a bola como se fosse destroçá-la, sem, entretanto, arrancar-lhe um fio ou levá-la além das linhas brancas de jogo.

Wimbledon 2008. E tão logo os deuses acharam aquele parque para brincar, sentaram-se. Não havia muito a fazer além de aplaudir a inteligência de Roger e a energia de Rafael. Para quem torcer? Olharam para os lados, onde lendas vivas e mortas do tênis se entreolhavam, atônitos, a cada troca de gentilezas entre o suíço, o espanhol e a quadra inglesa. Três línguas que falaram por todas num domingo ora de sol, ora de chuva. Ora de suor, ora de suspiro.

A noite que caía no estádio sem luz artificial chamou os deuses dos vivos e os mortos que não sabem se são deuses, mas juram jogar como os vivos. Precisavam responder à pergunta que quicava há mais de quatro horas e meia na quadra central: para quem entregar o troféu de campeão? Afinal, se havia uma coisa injusta naquele duelo era deixar a noite apagar o brilho de dois cometas, como tentaram fazer nuvens carregadas horas antes.

Em um jogo como o deste domingo, 3x2 Rafael Nadal sobre Roger Federer com 6/4, 6/4, 6/7 (5/7), 6/7(8/10) e 9/7, título é detalhe, troféu é detalhe, números são detalhes. Em jogos raros como os de hoje, para o bem do esporte, o mais precioso está gravado na memória dos presentes e na alma dos ausentes. Por isso, trataram os deuses de encerrar aquela partida, que não podia, por falta de luz artificial, diga-se bem, varar segunda-feira adentro.

Por isso, eram 21h15 na grama sagrada inglesa quando o troféu de Wimbledon refletiu pela primeira vez a face de Rafael Nadal. Sem esconder um centímetro de sorriso, o jovem de 22 anos desfilou alegria na noite londrina. Federer, cinco vezes campeão por ali, ainda rei entre os grandes tenistas, soube reconhecer a façanha do espanhol, mas não encontrou palavras para quebrar sua decepção.
"De verdade, acho que nós dois demos duro até o fim. No tênis, infelizmente precisa haver vencedores e perdedores. Não há empates".

Quando toma de Roger a palavra, Rafael lembra que as lágrimas deste domingo o conectam ao seu primeiro Grand Slam, no saibro francês de Roland Garros, há três anos. Para um jogador tão experiente, embora jovem, a confissão de inocência diante da magia e da grandiosidade de seu esporte nobre.

Assim que a cerimônia termina e os campeões se vão, presenteados pela exibição de gala; tão rápido a lona verde cobre a quadra central do All-England Lawn Tennis & Croquet Club, almas libertas rumam para a quadra vizinha. A noite toma a cidade e cada londrino já trilhou o caminho de casa. É quando duas daquelas almas errantes finalmente resolvem brincar naquele parque. Tentam ser Nadal e Federer por um dia. E descobrem o quão duro é tentar ser humano.

- Não te disse que seria bom?
- Fico devendo essa ao amigo...

E voltam sorrindo para seus afazeres no além.