quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Noite de Gala


Ontem foi noite de gala no Bar e Sinuca Bola de Cristal. Há dois meses, ponto de encontro dos amigos após o trabalho na redação do Sportv. Noite especial com a presença de Chafi, Clóvis, Gustavo e Thiago, amigos da rotina que me acompanharam na celebração de mais um dia de vida.


Entre uma tacada e outra, me lembro de outras noites de gala. Há um ano, eram nos bancos de madeira e nas vielas de terra da Ilha da Gigóia, na companhia de chinelos, shorts, camisetas e sorrisos. Passávamos duas, três horas sem que o tempo nos lembrasse de que a vida é curta, os afazeres nos esperam e temos de ser sempre bonitos, perfeitos e eficazes. A noite de ontem foi assim, despretensiosa com o tempo e as aparências. Por isso, foi de gala.


Como há um ano e meio, quando troquei palavras com atletas olímpicos e paraolímpicos na arena esportiva mais moderna do país, que me deu na verdade tantas outras manhãs, tardes e noites de gala. Não com eles, mas com Breiller, Carolina, Fábio, Maria Carol e Rodrigo. Outros cinco com quem tive oportunidade de trabalhar. Voluntários do Pan. Não recebiam um centavo para estar lá. Eu é que devia pagar por cada dia de aprendizado e ensinamento, pelas trocas entre amigos que foram parar na porta de casa meses depois dos Jogos. Sinceramente, não me lembro muito de quem saltou, arremessou, pulou, caiu, levantou, a não ser por Cristina Galarza, de quem já tratei neste blog.


Há 27 anos, minhas noites de gala têm sido acordar com a generosidade e o amor incondicional de minha mãe, os conselhos e a serenidade de meu pai, o carinho dos meus irmãos Gabriel, Gabriela, Isabella e Juninho, meus meios-pais Angela e Marcelo. Sem contar os amigos que vêm e que vão. Alguns ficam, como Felipe. Outros vão mas de certo modo também ficam, como Andreia, Marcinha, Ana, Breiller, Carolina, Fábio, Maria Carol e Rodrigo. Uilson, Marcelo, Anderson, Sheila, Márcia, Gi, Carol, Nina e Gui. Olha só! Dá pra montar um time com reservas e tudo...


Esses são meus maiores presentes. Com eles, todas as noites são de gala. Como ontem, de chinelo no pé, taco na mão, alegria nos olhos e sorrisos pra comprar de graça e dar de brinde. Obrigado a todos! E a Deus, acima de tudo, pelo dom da vida.

sábado, 29 de novembro de 2008

As traves que me sustentam


O aniversário foi do Clóvis, grande amigo das jornadas noturnas no Sportv. Mas houve mais de um presenteado na tarde de hoje, 29 de novembro de 2008.


Foi difícil superar a insegurança, mas após três anos voltei a vestir a capa de vilão e super-herói do camisa 1. Não, não foi um jogo oficial, sequer daquelas peladas com times de coletes. Foi um rachão, um seis pra cá-seis pra lá sem juiz nem compromisso com o placar. Mas como me senti feliz em voltar para a portaria. Sim, porque o gol nada mais é do que uma porta. Não por acaso, os espanhóis chamam o goleiro de portero. Ele frustra as expectativas mais certas dos atacantes e arruina sua própria reputação em questão de segundos. 

Atrás do goleiro, apenas as redes. Não há falha perdoável. Só que neste sábado, até para ser goleiro era preciso encarar o desafio de saltar, cair e me levantar. Sabia que nenhuma defesa mirabolante ou saída arrojada se tornariam mais preciosas do que simplesmente tentar alcançar as bolas. Mero pretexto para voltar à vida. Como diz a Enciclopédia Nilton Santos, maior lateral-esquerdo que o futebol já viu, minha bola é minha vida. 

Também não sou dos que jogam o futebol como se pusessem em xeque a existência a cada dividida. Mas, curiosamente, a sensação que me tocou hoje foi essa. Por outros motivos, claro. Ao longo da vida, sempre sob um travessão e na companhia de dois postes, aprendi a transformar a superfície da pequena área no meu latifúndio. Plantava abraços e colhia amizades; semeava defesas e desfrutava dos momentos de alegria.

Por isso, hoje foi um sábado especial. Daqueles para ficar marcados para sempre. Não me detive mais do que trinta minutos no jogo. Mas era como se, nesse tempo tão breve, todo o mal, insegurança e medo de nunca mais conseguir, tudo isso fosse expurgado em cada vôo cego em busca da bola.

No aniversário do meu amigo Clóvis, agradeço a Deus, à minha família, a quem cuidou e cuida de mim com tanto carinho e aos amigos do Sportv por também ter recebido um presente único. Trinta minutos que valeram três anos de espera e despertaram sonhos latentes de salvador das metas. Agora as metas parecem mais tangíveis. Como as traves que hoje me sustentaram.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Vagar


Seu olhar cansado aponta para o nada. Sentada na cadeira de balanço de frente para a pequena televisão, contempla o vazio, no fundo a extensão de sua alma.


Já não se lembra de um minuto atrás. Uma hora que seja de recordações lhe parece fatigante. No máximo, alguns sussurros e fagulhas de memória. Sincroniza seu cotovelo esquerdo com um dos braços do assento mas seus olhos seguem imóveis. Sua pele lívida não deixa dúvidas: por dentro, o tempo parou. Por fora, passou.

Espera resignada o momento de sua partida, após quase 80 anos de vida, ao menos 70 deles de plena consciência, disposição, utilidade para si própria e para o mundo que a cerca. Agora, só faz carregar um certo sopro de tristeza. Não parece fazer diferença se acorda ou dorme, se é noite ou dia, claro ou escuro. Dentro ou fora.

Por isso, começa a trocar as horas. O tempo, antes companheiro fiel de sua lucidez, pára. E não importa que ela recline neste momento a cabeça para o seu lado direito, a procurar os ponteiros do relógio. Não sabe o que marcam. Apenas se limita a contemplar o vazio e dizer: "Está escuro lá fora". E aqui dentro também, faltou completar.

A culpa me contamina quando deixo escapar segundos preciosos de um fim que poderia ter mais alegria, conforto, auto-confiança, tudo o que aquele corpo ainda fosse capaz de sustentar. Se perdera o brilho, permanecia com movimentos potencialmente intactos. Impossível não voltar a três meses atrás, quando, mesmo aparentando fraqueza e debilidade, ela bailou por breves segundos o orgulho das lembranças de sua terra. Tão distante daqui e tão perto de sua mente fugaz. Quanto tempo faz? Para ela, não fez. Pois que derrubou quatro, cinco décadas com o bailar singelo de uma moça feliz a curtir seu primeiro salão.

De volta à realidade, procura motivo, movimento, continuidade. E isso posso oferecer. De fora pra dentro, como que se agradecesse e reverenciasse quem um dia teve tanta ou mais vitalidade que eu.

Por isso vou dormir mais triste. Nossa tristeza é separada por cinqüenta anos e alguns segundos a mais de reflexos e reflexões. Uma dor que nem ela se dá conta. Lucidez e dignidade. Se pudesse ofertá-los a ela, poria a cabeça no travesseiro com a certeza de que o domingo não teria sido em vão. 

Vai passar. Não importa como, mas vai.

sábado, 15 de novembro de 2008

O príncipe plebeu


Príncipe encantado num cavalo branco. Tudo com o que ela sonhou durante anos. Mas o que a encantou nessa história?


O príncipe é o início de tudo. Princípio, começo. De certo modo, também a continuidade de uma linha de pureza. O príncipe é filho da realeza, não sofreu mácula nem misturou seu sangue - ou sua alma - com sentimentos plebeus.

Caminha com segurança, impõe respeito e beleza. Montado num cavalo branco, igualmente belo e puro, ganha em agilidade e destreza. Desafia o tempo cavalgando por campos de incertezas, mas sabe que, herdeiro da coroa e, a bordo da melhor montaria, chegará são e salvo ao coração da donzela.

Que se alimenta do retorno do príncipe. Ou do sonho de conhecê-lo pela primeira vez. Na verdade, reconhecê-lo, como se já fossem preparados um para o outro, como se antes mesmo de a vida e as circunstâncias interporem seus destinos, fatalmente se encontrasem na razão mútua de existirem. A donzela não caminha senão por sonhos doces e searas límpidas. Apenas cobra que, no fim, o príncipe confirme na beleza de sua face e na alvez de seu cavalo o caminho tenro e suave que ela sempre projetou.

A grande questão não é o príncipe nem o cavalo, mas o quão "encantados" eles são, justo porque encanto é primo de feitiço. Um príncipe encantado está inevitavalmente fora de seu estado natural. Só existe em aparência até que algo ou alguém o desencante. E se for desencantado perde a graça, desanda o enredo, decepciona a pobre da donzela, que se desmancha em lágrimas. Ela nem desconfia, mas no fundo o príncipe encantado é um jogo de espelhos que reflete sua beleza e projeta seus vazios.

E como evitar o círculo vicioso? Se ela se fecha, perde contato com um universo igualmente lindo, porém mais aventureiro e perigoso. Se abre as portas do coração à realidade e abandona a idéia do príncipe, pode antecipar o sofrimento e, quem sabe, até descobrir não um príncipe, mas vários homens generosos, educados, como que meios-príncipes. Mas vai inevitavelmente sofrer. Se dará conta de que precisa completar o quebra-cabeças, juntar as peças. De repente a união é uma soma de complementos. Ele tem o que falta em mim e eu tenho o que falta nele. Nada principesco, não? 

Sem viver por ilusões e encantos, ela não deixará de cair do cavalo muitas vezes. Mas, quanto menos se cobrar o príncipe, mais força terá para tomar as rédeas do cavalo. Que, vá lá, pode nem ser tão branco, forte e veloz. Mas certamente domável. E sempre que se levantar e olhar para as cicatrizes em seu corpo, toda vez que sentir seu coração doer um pouco, terá a certeza de que aprendeu um pouco mais sobre o amor. Não se enredará tão facilmente em sonhos ingênuos ou expectativas eternas, por mais belos e tentadores que pareçam. Mesmo sem saber, estará alguns passos mais próxima da felicidade, afinal, nossa razão mais nobre de existir é tão em carne e osso quanto o sorriso ingênuo de um bebê.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Neologismo de posição


Massa demais essa corrida em Interlagos. De cara, David encerra sua longa carreira de forma Coulthard: encontrando um Piquete no S do Senna. Enquanto isso Felipe guia seu deus-nos-acuda vermelho procurando apostar em algo mais que o chove-não-molha das previsões óbvias.


A saída pela tangente é acelerar. Mas como dar zebra, se num Vettel repentino seus cavalos rampantes não despejam potência no Lago? Iria o Sol brilhar para nosso bravo aventureiro ou lhe sobraria o bagaço do Laranja? O problema é que expurgar seu sentimento de Kubica pelos retões curvos de Interlagos não era o bastante. Porque lá pelo meio, Hamilton seguia um estilo Sutil de pilotagem, que, diga-se de ultrapassagem, o faria campeão mundial.

Tudo conspira para a meticulosidade circunstancial do inglês até que alguns Glocks de chuva dão o ar da graça no asfalto secamente britânico. Nada de previsão, seus engenheiros! Qualquer cidadão mortal sabe que finados chove ano sim, ano também. A questão era quando, como e onde. É só olhar pra torcida brasileira. Ela Takuma vontade tão grande que a chuva estrague a corrida do bom moço da ilha da Rainha... e brasileiro quando se junta pra bater tambor, não tem santo que segure.

De enfadonha, a corrida começa a parecer aqueles Bourdais de cidade pequena. Sacode pra cá, segura dali, como o Fisico desses pilotos aguenta? E a cabeça do inglês está um Trulli só, repetindo aquele verso de Flor de Lewis: "eu sei que o erro aconteceu, mas não sei o que fez tudo mudar de vez... onde foi que eu errei?". E por aí vai. Melhor, quase não vai, porque na Junção dos fatos, cada volta derrapante começa a lembrar uma luta de Boxes. Massa resiste bem à pressão da última delas, ao contrário do inseguro Hamilton, que se confunde entre Raikkonens e Kovalainens, como se tomara um porre de Kazuki.

Sorte dele que, enquanto pingos caem e bolsas despencam, a torcida sobe e Felipe voa, falta Timo ao pelotão que o separa do líder. Assim, um piloto de quinta colocação, que sequer subiria ao pódio, se vê consagrado. Campeão por um Nico assim, ó. Um pontinho. Fazer o quê? Ano que vem tem mais. E que de mangueira a gente só ouça falar em fevereiro ou num canto do banheiro!

domingo, 2 de novembro de 2008

A morte nossa de cada dia


Dia de finados costuma ser cinzento por dentro e por fora. Sutilmente, na dor que insistimos cultivar pelos que se foram, perdemos a chance de encarar a morte como fenômeno natural e cotidiano.


Não apenas porque algo ou alguém morre a cada instante. Há pequenas mortes, na realidade fins de ciclos que abrem brechas para transformações importantes em nossa vida.

O nascimento é a primeira grande morte de qualquer ser. Vir ao mundo é, por si só, um processo igualmente traumático para quem concebe e é concebido. Na ruptura de uma gestação, a morte do desejo e das expectativas dos pais; na saída da zona de conforto do bebê, a agonia inconsciente do pranto pós-morte.

A emoção de vencer na vida - independentemente da potência e da dimensão dessa vitória - é também uma morte. Seja calculada ou inesperada, racional ou intuitiva, a sensação de êxtase que nos invade nesses momentos mágicos e esporádicos de existência se assemelha a uma espécie de "orgasmo espiritual" (não por acaso o orgasmo é chamado pelos franceses de petite-mort, algo como "pequena morte").  Saímos de um estágio inerte (que pode muito bem ser um movimento contínuo, para os físicos uniforme) para sacudir a poeira e, finalmente, despertar. Por isso, costumamos chorar. O choro é dessas expressões como o riso e os espasmos musculares do orgasmo inexplicáveis. Apenas reconhecemos nelas um pouco da beleza de ser e viver.

Despertar e morrer são duas faces de uma mesma questão. Quem desperta de um transe - voluntário ou não - faz contato com sua parte essencial, a integridade existencial invariavlemente corrompida e contaminada por idéias fixas, pensamentos ansiosos e falsos quereres. E não há como se estabelecer vínculo com algo tão profundo sem o contato com a morte.

A sociedade do século XXI nos enche de razões e elementos para viver sem morrer. Mas viver sem morrer é passar pela vida sem que a vida passe por nós, quer dizer, apreciar as experiências sem vivê-las ou vivê-las de forma tão transbordante, tão maximizada que engasgamos em nossa própria superficialidade. Ou então damos a nossa alma satisfação de sua profundidade por meio de ilusões como paixões passageiras e aventuras fugazes.

O dia de finados não deveria nos conduzir à tristeza pelo que perdemos, mas a uma reflexão única sobre o quanto temos crescido com as pequenas e grandes mortes. Sempre que morremos ou sofremos a morte de outro como nossa saímos mais fortes, energizados. Enfim, verdadeiramente estamos prontos a viver a plenitude.  


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O tal do Marco


Natália surge com a questão super pertinente: "Onde está o Marco Teórico?". Mas que pergunta complicada, essa... Não vou passar horas dissertando sobre o tal sujeito (ou seria objeto?) porque periga eu acabar encontrando-o. Mas que essa criatura advinda do âmago de qualquer professor universitário existe, disso não tenho a menor dúvida.


Achar o Marco... Curioso porque, tirando o Marco Polo e o Nanini, todo mundo que conheço é Marcos, Marquinhos ou Marcão. Desconfio que na nossa brasilidade inculta jogamos o pobre do Marco para escanteio. Pensando bem, um escanteio qualificado e excêntrico.

Tem o Marco da Revolução Russa (Markov?), da Tomada da Bastilha (Jean Marc, talvez...), da Independência Americana (esse deve ser o Mark) e os Marcos possessivos do dia-a-dia: "Marco contigo e você nunca aparece". Deve ter se apaixonado cegamente por ele... 

Dizem que Jesus foi o Marco do Cristianismo. Peraí. Jesus foi Marco? E eu que jurava ser apenas João Batista o novo Elias ou vice-versa... Outros vaticinam: Fidel foi o Marco do comunismo em Cuba. Até tu, Fidel?

Quando quero me impor, demarco meu espaço. Olha o cara aí outra vez. Preciso pedir autorização ao Marco para extravasar meu eu-criativo, meu eu-lírico e todos os eus-raio-que-o-partam.

O problema é que, além de poliglota e onipresente, Marco é extremamente egocêntrico, logo malquisto. Marco com a noiva e a noiva não aparece: casamento desfeito. Marco no bar e você fura: no mínimo não vai com a cara do energúmeno (palavra feia, mas eu sei que a Natália vai gostar dela, então tá feita a homenagem). Marco às oito, você aparece às nove. Além de tudo, não tem a menor pontualidade - se bem que no Brasil isso nem é um grande defeito...

É, Natália, acho que vou te dever essa. Procurei e achei muitos marcos, mas o tal Marco Teórico talvez tenha me fugido em alguma esquina entre a subjetividade do não-pensamento à luz de Foucault e a ontologia psico-cognitiva de Freud. Isso te garanto que nem ele - Marco da psicanálise - explica!

sábado, 25 de outubro de 2008

Precisa-se


Havia um muro intransponível de palavras que ele erguia meticulosamente. Ali sobravam pontos, vírgulas e reticências que transbordavam para o nada. Perdiam-se sem significado que não o de belas palavras ao vento.


Ela queria mais. Palavras deviam tocar, seduzir, mexer com o coração de alguma forma. Procurava a ação, a química, quem sabe com boa dose de generosidade tão somente o olhar penetrante, a transformar sentimento em sensação, sensação em emoção... E daí para paixão seria um pequeno grande salto. 

Mas não havia sequer sensação. Diante das palavras que a ela sobravam, restava a ele o silêncio e a ação. Por onde começar a agir, se perguntava? Como se mover diante da paixão desperta que sequer encontra voz no peito alheio? 

Minguou. E fez adormecer um jardim lindo que brotava a exalar perfumes nunca antes experimentados. A vida que voltava, a luz que se acendia, a música que tocava. Nada disso precisava de motivo, sequer de existência. Bastava a força do amor que ele sentia. Deixou de bastar.

Curioso que tantos procurem amar e outros tantos recebam de presente o amor não-correspondido. Aí a magia das relações. Não fosse assim, o mundo inteiro se resumiria a um exército de robôs a dizer eu-te-amos, entregar uns aos outros flores de plástico, fazer de perfumes alfazemas passageiras, de luz feixe que se apaga e música apenas um punhado de sons. 

Ao ouvir não, ele se entristeceu. Em seguida, pediu a seu coração que se apacientasse. Nada como o tempo para ensinar os melhores caminhos, revelar os grandes amores e guardar as melhores experiências. Mesmo assim, ele a seguiu amando porque ainda não sabe como dizer não ao que tem de mais precioso: a luz de sua alma.

sábado, 4 de outubro de 2008

Almas que brilham


Almas que brilham escondem-se sob casacos de simplicidade. Brilham em síntese e antítese. Logo, ironia. Mas que ironia singela, doce e instigante que a do ser humano... A diferenciar os que marcam dos que apenas passam.


O que seus olhares escondem? Inteligência. E esse sorriso aberto? Franqueza. Ah, sim. Essa não se esconde. Mas bem que poderia ser exemplo. Antídoto contra a blasfêmia da hipocrisia nossa de cada dia.

Por isso é especial. Quem se faz diferente por dentro não precisa de casca de borracha nem sorriso de barbie. Se não entendo, me desespero. Ela se limita a rir desse desespero. Que não é só meu, porque na verdade ri de toda essa ironia palpitante em almas dissimuladas, esforçadas em ser um rascunho mal-acabado de si próprias. 

Ela é e ponto. Melhor, reticências. A dizer que a vida segue aberta como no curso de rios que se cruzam a todo instante. De perto, mar sem fim. De longe, fluxo de energia a irrigar de consciência uma multidão de robôs alienados por um mundo de faz-de-conta. Não deixa de ser cômico que sejamos esboços encharcados de orgulho ambulante. E seu único orgulho seja se  encharcar de si mesma.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Paz inesquecível


A água cai forte, mas a chuva passa rapidamente. Já é madrugada e estou ilhado num posto de gasolina em frente ao meu canto predileto. Belo presente dos céus que, por não poder atravessar o pequeno barco de madeira para a ilha, tenha acabado encontrando três dos melhores amigos que fiz por lá.

Bastou que Uilson chegasse, se juntando a mim, Gui e Gi para que a chuva cessasse. Era um pedido de espera dos deuses para que voltássemos juntos em meu último dia num dos cantinhos mais gostosos de se morar no Rio de Janeiro.

Separada da Barra da Tijuca por apenas um canal e não mais do que 40 segundos, a Ilha da Gigóia foi meu recanto nos útlimos 18 meses. Desde que lá cheguei, encontrei novos amigos, resgatei valores, mas, acima de tudo, achei meu tesouro: uma casa pequena de dois andares suficiente para apaziguar um coração angustiado.

Foi único ter compartilhado momentos especiais numa vila de 12 casas geminadas repletas de olás, abraços, sorrisos e muita espontaneidade. Descomprimidos e desangustiados do ambiente urbanóide, nos permitimos ser crianças, jovens e adultos rebeldes. Tudo a um só tempo, sem vergonha nem preconceito.

Por lá não há polícia, porque também não há ladrões. Não é preciso correr, afinal tudo é logo ali. E, por serem não mais do que 4 mil num espaço tão pequeno, todos se tratam pelo nome, (quando não pelo apelido...), sentem a alegria e a tristeza alheias como parte da deles e fazem do comum um lema silencioso, mas ao mesmo tempo tão presente que os marca da lagoa para fora.

Por isso, quando volto meus olhares novamente ao Rio de Janeiro de verdade - aquele que sofreu com décadas de produção e consumo frenéticos - temo por ver que é necessário haver uma ilha para me fazer enxergar o que não percebo no automatismo cosmopolita: estou perdendo dias de vida a cada dia que passo numa existência hostil.

Lembro-me também de minha mãe, por quem tenho grande carinho. Ela me ensinou que solidão só vale a pena se rimar com reflexão e, ainda assim, não compensa
por nada desse mundo viver ilhado, aí sim, em conceitos imutáveis. Melhor é compartilhar, mesmo que isso valha se expor além do limite. Sou ingênuo sim, confesso. Perco na vida por isso. Mas não troco por nada as goleadas que a sinceridade e a transparência me têm proporcionado.

Margareth, de quem herdei o sobrenome Timoteo, meu olhar e meu sorriso por vezes escrachados me deu mais do que uma educação de mãe. Fez-me tornar humano antes de homem. Ao abrir mão de trabalhar em dois empregos para estar com os filhos, ao deixar de morar em um bairro central para dar qualidade de vida a eles numa vila um tanto quanto distante, lá pelas bandas de Maria Paula, em Niterói, acertava em cheio. Plantava e regava para colher em 10, 20 anos. Pecou por excesso? Talvez. Mas deve ter pensado que há coisas que a vida se encarrega de nos ensinar, como trocar lâmpadas ou trocar de casa, suportar o peso de sacos de cimento ou de julgamentos alheios, não saber lavar direito a louça ou a roupa suja de um relacionamento...

Mas de uma coisa não posso reclamar de minha mãe. Ela nos ensinou a compartilhar do banquete singelo dos sentimentos e da pureza. Por isso, no dia das mães, ela saberá que estou largando um dos lugares mais caros ao meu coração. Mas mamãe me ensinou também que somos responsáveis pelo que cativamos. Portanto, também tem consciência de que saio feliz, afinal o maior item de minha mudança não precisa ser transportado em caminhões ou barcos. Se não posso levar a ilha que vejo, tenho o prazer de carregar para sempre a ilha que sinto.