segunda-feira, 2 de maio de 2011

A subversão do afeto

Há uma teoria popular segundo a qual uma paixão não dura mais do que 2 anos. Talvez tenham exagerado no tempo.

Primeiro porque as paixões são mais comuns do que arroz-e-feijão em nossa culinária e, assim como a nossa dobradinha preferida, quando apetitosos, não demoram quinze minutos para serem devorados.

Nos encantamos com a mesma facilidade com que perdemos o interesse pelas coisas. Definitivamente, nossa sociedade vive tomada por um epicurismo doentio, que subverte o tempo natural das relações e relega às pessoas o mero papel de objetos de desejo.

Não vai obviamente uma conotação sexual na observação, embora se saiba que ela exista em muitos casos. O objeto de desejo pode ser, por exemplo, uma promoção no trabalho ou a ânsia por vantagem em determinado empreendimento.

Desnecessário recorrer a Marx, Hobbsbaum, Bourdieu ou Bauman. Sem entrarmos em ideologias de governo, está na cara que há um fundo econômico no consumismo social, afinal a mesma raiz que produz o dinheiro problematiza a riqueza.

Em certo momento de nossa existência histórica coletiva, criamos uma moeda de troca para comercializar nossos produtos. Ao fazer isso, acabamos conferindo valores aos artigos à nossa volta, fossem eles materiais ou não. Se o dinheiro compra uma casa, sua acumulação projeta o status social, sutil armadilha de corrosão do caráter e da pragmatização das relações.

O assunto vem ocupando as tribunas sociológicas, antropológicas e políticas há muito tempo, mas agora as pessoas começam a deter especial atenção sobre essa corrosão de caráter e essa fluidez perniciosa nas relações. Afinal, começam a ser, ao mesmo tempo, agentes e pacientes de sua própria morte através do sistema em que estão inseridas. Em outros tempos não era assim.

Se um país declarava guerra a outro, se sabia de antemão quem era o inimigo a ser combatido. O medo poderia ser projetado para fora e por antecipação como uma forma de defesa. Os mais cautelosos chamariam isso de planejamento. Outros diriam frieza ou racionalidade. Então, não é de se estranhar que a genealogia moral européia tenha forjado cidadãos tão frios ao longo dos séculos e a racionalidade científica tenha ganhado status de bula episcopal.

O problema é que perdemos o agressor externo a nos perturbar. Melhor, não perdemos. Perdemos foi a capacidade de detectar a ameaça como tal. A preocupação excessiva com a doença e a crença absoluta no antídoto nos retiraram da reflexão sobre a causa dos males. É emblemático, nesse sentido, que se morra de câncer e de infarto, e não de varíola ou febre espanhola.

Há muito os sábios orientais profetizavam que a saúde é um estado permanente de equilíbrio. Muito mais o resultado de um projeto de vida coerente com a auto-sustentabilidade - outros diriam, a microecologia - do que a antítese da doença. Hoje, só nos preocupamos com saúde quando estamos doentes. Se estamos mal, queremos ficar sãos, mas raramente vivemos de maneira saudável.

Não há droga mais tóxica do que a alienação espontânea. Ela é engendrada, consumida e expurgada por nós mesmos. Sem a auto-consciência acerca de nossas limitações e possibilidades, fabricamos, a um só tempo, nosso veneno e nosso antídoto. O problema é que uma hora o corpo não agüenta essa montanha-russa de sensações. Os mais sortudos só ficam doentes. Há quem não suporte e entre em colapso mental ou físico.

Quem consome maconha, cocaína, ecstasy ou LSD está apenas na ponta do iceberg humano. Muito provavelmente do lado de fora do mar, suicidamente visível ao preconceito alheio, embora suplicando tresloucadamente por ajuda sem dizer uma palavra. A maioria, entretanto, sustenta a grande camada de gelo invisível. O sistema é a cor branca, a nos incutir resignação de que uma pedra de gelo, ora bolas!, uma pedra de gelo só pode ser assim mesmo: branca.

Branca como o disco de Newton, ao reunir ilusoriamente todas as cores. O mundo elimina fronteiras e suspende a dissensão. Reprime com seus aparelhos invisíveis ou referendados as diversidades, ao reconhecer uma espécie de pluralidade ahistórica. Não há problema em se ser diferente, desde que igual perante a lei do consumo e a égide do capital. Os fins não só justificam os meios, mas suspendem o meio da história. Antes, nos detínhamos no processo. Hoje, basta o resultado.

Assim, repousamos tranqüilamente nossas cabeças sobre o travesseiro de nossa consciência dia após dia, sem ao menos desconfiarmos que, homeopaticamente, estamos submersos em um sistema ontologicamente fatal e historicamente insolúvel.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Fraternidade, ainda que tardia

Dos três lemas da Revolução Francesa, a fraternidade é a mais esquecida pelos cantos. Relegada a um segundo plano social, em grande parte das vezes só encontra eco nos salões ocultos da religião ou como um expurgo do sentimento de culpa humana no trato para com seu semelhante.


Parece haver uma polarização irreversível no lidar com a alteridade, que oscila entre a hipocrisia e a conveniência. Diante de um grande tema que ponha em xeque o discurso da supremacia humana, como a violência, a corrupção ou as disparidades sociais, tendemos a pôr a culpa ora na falência das instituições, ora na insolvência do projeto existencial, como se disséssemos que falhamos por natureza e a humanidade é um erro.

A luta pela liberdade é um tópico central da sociedade moderna. Há uma aceitação razoável para com diferenças sociais, fome e epidemias. Até mesmo conflitos armados são tolerados em prol de uma liberdade desejada - mesmo sabendo que, no fundo, ela não será extensiva a todos num nível mais sutil.

Embora a igualdade não goze de semelhante prestígio no imaginário coletivo, ela se expressa normativamente na predominância de regimes laicos e, dentro deles, na universalidade do discurso legal: iguais perante à lei e condenados ao cárcere no seu descumprimento.

Acontece que reconhecer o outro como extensão de nós mesmos ainda é um desafio pouco tangível em uma sociedade que não associa desenvolvimento humano à humanização. O discurso do auxílio ao próximo quase sempre é listado no rol de ações religiosas, relegado a segundo plano ou exageradamente glorificado no campo da pregação fanática, mas raramente visto como uma obrigação civil.

Talvez porque nossa história tenha estratificado o tripé da modernidade. É como se a igualdade necessariamente passasse pela perfeição do projeto de liberdade e a fraternidade não fosse possível num mundo desigual por essência. Quem ajuda aos pobres de maneira privada é assistencialista e só contribui para a manutenção do fosso social. Outros se isentam relegando o papel ao Estado, já que são descontados em seus vencimentos. Isso lembra muito o discurso dos que comem carne dizendo que se comprazem do sofrimento do animal, mas nada vai mudar se deixarem de fazê-lo, então melhor que comam mesmo.

Por outro lado, é curioso que só se entenda fraternidade como ajuda e não um momento cotidiano que raramente sabemos aproveitar. Se podemos criticar a posição do outro na reunião entre amigos, para que elogiar? Se surge a oportunidade de derrubar o companheiro de trabalho pela falha eventual, bobagem ressaltar as características que o tornam bom profissional. No entanto, vivemos nos lamentando quando somos vítimas da inveja e das injustiças do próximo para conosco.

São muitas as oportunidades de exercermos o descontrole do status social, mas raramente optamos por fazê-lo, talvez porque nos sejam mais agradáveis as risadas das hienas à beira da tragédia do que o vôo solo da águia a buscar novos horizontes. Há uma sabedoria inerente ao movimento da discordância, quando é melhor se sentir um peixe fora d'água do que afundar num lago de egos inflados.

A criação de uma sociedade humanamente sustentável começa em pequenos gestos, necessários à naturalização do discurso em prol da alteridade. Sem eles, continuaremos a transferir a culpa pelos insucessos no trato com o próximo às instituições, mal nos dando conta de que não há sociedade igualitária nem liberta sem a prática ampla, geral e irrestrita da fraternidade.

E amar o próximo não parece assim tão complicado.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Elogio ao primeiro amor

Por favor, não se incomode se invadi sua página, se entrei léguas em sua intimidade. É que o mundo do faz-de-conta estava ficando muito chato. Por isso escolhi seguir contigo.

É apenas uma tentativa, vá lá. E nem pense que é grande coisa tirar o bilhete premiado, afinal esse cupido está mais para saci-pererê. Melhor assim, afinal, de heróis e bandidos já bastam os que nos vendem diariamente. E, se minha vida não é história em quadrinho nem roteiro de ficção, fiquemos com a boa e velha autenticidade.

Por isso, quero um amor de vaga-lume, que se acenda no lampejo instantâneo de uma noite qualquer. Não precisa ser como o sol, a saturar o brilho das coisas pequenas, nem a lua, cheia de promessas enamoradas a cumprir. Basta um brilho de um quarto-de-segundo que dure por uma eternidade em nossas retinas.

Teu amor deve tocar meus olhos, mas não apenas. Precisa dizer à minha íris que cor tem tua alma. E isso não se prova com frases feitas ou presentes pré-fabricados. Quem sabe um olhar pousado, mas sincero, daqueles dias em que até o mar pára para contemplar as gaivotas.

Flores, quem sabe? Contanto que de seu próprio jardim, colhidas com o perfume de teu suor e ofertadas com tuas mãos marcadas de vida. Vida. É disso que precisam nossas quase-vidas. Menos máquina e mais homem. Menos pegar e mais sentir. Menos ficar e mais curtir. E que importa se se vai? Ou há algo mais belo neste mundo do que a impermanência?

Assim, nosso amor será como o fogo, a se apagar a cada brisa noturna e se acender à primeira centelha de sol da manhã. Chama eterna que só dura para sempre porque se apaga a cada dia.

Por isso te peço: por favor, aceite este amor torto, inconstante, impuro, mas único, humano.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Dois traumas


Depois de buscar duas bolas difíceis que vieram em minha direção, resolvi me atirar ao encontro da terceira. A saída rápida nos pés do atacante foi corajosa, embora dolorosa. Dor que não senti no calor da partida. Até aquele momento, meus olhos, boca, nariz, ouvido e mãos estavam única e exclusivamente voltados para meu coração. Um movimento, várias batidas. Todas registradas. Mas, daquela vez, não me permiti o susto com o próprio corpo.


A chuva apertou e simplesmente abri os braços enquanto minha bomba-relógio tentava se rearmar. Neguei-a. Apenas fechei os olhos e abri a alma para uma cachoeira que caía sobre meu peito, tal qual no tempo em que meu órgão mais sagrado era simplesmente um coração. Tudo se asserenou. A partida fluiu, os músculos acusaram o tempo inativo e voltei a me sentir mais um. Quantas vezes não pedi a Deus por aquele momento? A saída escancarada. E como não pensei nela antes? Desarmar. Tão simples quanto pular na bola necessária e deixar sair a que não precisa de mim.

Cinco anos de angústia. Cárcere mental. Pensamentos demais, ações de menos. Cada passo se revestia de uma auto-significação que ultrapassava a simplicidade do momento. Tudo era complexo. E, em complexo, cheio de entradas e saídas. Vazado, retalhado; furado, remendado. Quanto esforço físico e mental em nome da coerência inconsciente. E bastava deixar fazer e passar... Passou.

Agora sim, começa um ano. Recomeça a vida. Acordo do pesadelo que parecia interminável com o corpo dolorido, mas cheio de vontade de movimentá-lo. Hora de simplificar, mexer apenas o necessário. Mas quanta coisa é necessária... Deixar fazer, deixar passar... Jogar com a vida. E me deixar ser jogado. Deixar que passe por entre os poros, corra pelas veias e atinja em cheio um coração apaziguado.

Fim de jogo. De trauma, apenas o de um dedo valente, enfaixado por um dia. Mas o que é esse perto do que acaba de se encerrar? Na memória, ficarão apenas as cicatrizes, a mostrarem que um dia a dor cura, a angústia passa e a felicidade acorda.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Noite de Gala


Ontem foi noite de gala no Bar e Sinuca Bola de Cristal. Há dois meses, ponto de encontro dos amigos após o trabalho na redação do Sportv. Noite especial com a presença de Chafi, Clóvis, Gustavo e Thiago, amigos da rotina que me acompanharam na celebração de mais um dia de vida.


Entre uma tacada e outra, me lembro de outras noites de gala. Há um ano, eram nos bancos de madeira e nas vielas de terra da Ilha da Gigóia, na companhia de chinelos, shorts, camisetas e sorrisos. Passávamos duas, três horas sem que o tempo nos lembrasse de que a vida é curta, os afazeres nos esperam e temos de ser sempre bonitos, perfeitos e eficazes. A noite de ontem foi assim, despretensiosa com o tempo e as aparências. Por isso, foi de gala.


Como há um ano e meio, quando troquei palavras com atletas olímpicos e paraolímpicos na arena esportiva mais moderna do país, que me deu na verdade tantas outras manhãs, tardes e noites de gala. Não com eles, mas com Breiller, Carolina, Fábio, Maria Carol e Rodrigo. Outros cinco com quem tive oportunidade de trabalhar. Voluntários do Pan. Não recebiam um centavo para estar lá. Eu é que devia pagar por cada dia de aprendizado e ensinamento, pelas trocas entre amigos que foram parar na porta de casa meses depois dos Jogos. Sinceramente, não me lembro muito de quem saltou, arremessou, pulou, caiu, levantou, a não ser por Cristina Galarza, de quem já tratei neste blog.


Há 27 anos, minhas noites de gala têm sido acordar com a generosidade e o amor incondicional de minha mãe, os conselhos e a serenidade de meu pai, o carinho dos meus irmãos Gabriel, Gabriela, Isabella e Juninho, meus meios-pais Angela e Marcelo. Sem contar os amigos que vêm e que vão. Alguns ficam, como Felipe. Outros vão mas de certo modo também ficam, como Andreia, Marcinha, Ana, Breiller, Carolina, Fábio, Maria Carol e Rodrigo. Uilson, Marcelo, Anderson, Sheila, Márcia, Gi, Carol, Nina e Gui. Olha só! Dá pra montar um time com reservas e tudo...


Esses são meus maiores presentes. Com eles, todas as noites são de gala. Como ontem, de chinelo no pé, taco na mão, alegria nos olhos e sorrisos pra comprar de graça e dar de brinde. Obrigado a todos! E a Deus, acima de tudo, pelo dom da vida.

sábado, 29 de novembro de 2008

As traves que me sustentam


O aniversário foi do Clóvis, grande amigo das jornadas noturnas no Sportv. Mas houve mais de um presenteado na tarde de hoje, 29 de novembro de 2008.


Foi difícil superar a insegurança, mas após três anos voltei a vestir a capa de vilão e super-herói do camisa 1. Não, não foi um jogo oficial, sequer daquelas peladas com times de coletes. Foi um rachão, um seis pra cá-seis pra lá sem juiz nem compromisso com o placar. Mas como me senti feliz em voltar para a portaria. Sim, porque o gol nada mais é do que uma porta. Não por acaso, os espanhóis chamam o goleiro de portero. Ele frustra as expectativas mais certas dos atacantes e arruina sua própria reputação em questão de segundos. 

Atrás do goleiro, apenas as redes. Não há falha perdoável. Só que neste sábado, até para ser goleiro era preciso encarar o desafio de saltar, cair e me levantar. Sabia que nenhuma defesa mirabolante ou saída arrojada se tornariam mais preciosas do que simplesmente tentar alcançar as bolas. Mero pretexto para voltar à vida. Como diz a Enciclopédia Nilton Santos, maior lateral-esquerdo que o futebol já viu, minha bola é minha vida. 

Também não sou dos que jogam o futebol como se pusessem em xeque a existência a cada dividida. Mas, curiosamente, a sensação que me tocou hoje foi essa. Por outros motivos, claro. Ao longo da vida, sempre sob um travessão e na companhia de dois postes, aprendi a transformar a superfície da pequena área no meu latifúndio. Plantava abraços e colhia amizades; semeava defesas e desfrutava dos momentos de alegria.

Por isso, hoje foi um sábado especial. Daqueles para ficar marcados para sempre. Não me detive mais do que trinta minutos no jogo. Mas era como se, nesse tempo tão breve, todo o mal, insegurança e medo de nunca mais conseguir, tudo isso fosse expurgado em cada vôo cego em busca da bola.

No aniversário do meu amigo Clóvis, agradeço a Deus, à minha família, a quem cuidou e cuida de mim com tanto carinho e aos amigos do Sportv por também ter recebido um presente único. Trinta minutos que valeram três anos de espera e despertaram sonhos latentes de salvador das metas. Agora as metas parecem mais tangíveis. Como as traves que hoje me sustentaram.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Vagar


Seu olhar cansado aponta para o nada. Sentada na cadeira de balanço de frente para a pequena televisão, contempla o vazio, no fundo a extensão de sua alma.


Já não se lembra de um minuto atrás. Uma hora que seja de recordações lhe parece fatigante. No máximo, alguns sussurros e fagulhas de memória. Sincroniza seu cotovelo esquerdo com um dos braços do assento mas seus olhos seguem imóveis. Sua pele lívida não deixa dúvidas: por dentro, o tempo parou. Por fora, passou.

Espera resignada o momento de sua partida, após quase 80 anos de vida, ao menos 70 deles de plena consciência, disposição, utilidade para si própria e para o mundo que a cerca. Agora, só faz carregar um certo sopro de tristeza. Não parece fazer diferença se acorda ou dorme, se é noite ou dia, claro ou escuro. Dentro ou fora.

Por isso, começa a trocar as horas. O tempo, antes companheiro fiel de sua lucidez, pára. E não importa que ela recline neste momento a cabeça para o seu lado direito, a procurar os ponteiros do relógio. Não sabe o que marcam. Apenas se limita a contemplar o vazio e dizer: "Está escuro lá fora". E aqui dentro também, faltou completar.

A culpa me contamina quando deixo escapar segundos preciosos de um fim que poderia ter mais alegria, conforto, auto-confiança, tudo o que aquele corpo ainda fosse capaz de sustentar. Se perdera o brilho, permanecia com movimentos potencialmente intactos. Impossível não voltar a três meses atrás, quando, mesmo aparentando fraqueza e debilidade, ela bailou por breves segundos o orgulho das lembranças de sua terra. Tão distante daqui e tão perto de sua mente fugaz. Quanto tempo faz? Para ela, não fez. Pois que derrubou quatro, cinco décadas com o bailar singelo de uma moça feliz a curtir seu primeiro salão.

De volta à realidade, procura motivo, movimento, continuidade. E isso posso oferecer. De fora pra dentro, como que se agradecesse e reverenciasse quem um dia teve tanta ou mais vitalidade que eu.

Por isso vou dormir mais triste. Nossa tristeza é separada por cinqüenta anos e alguns segundos a mais de reflexos e reflexões. Uma dor que nem ela se dá conta. Lucidez e dignidade. Se pudesse ofertá-los a ela, poria a cabeça no travesseiro com a certeza de que o domingo não teria sido em vão. 

Vai passar. Não importa como, mas vai.

sábado, 15 de novembro de 2008

O príncipe plebeu


Príncipe encantado num cavalo branco. Tudo com o que ela sonhou durante anos. Mas o que a encantou nessa história?


O príncipe é o início de tudo. Princípio, começo. De certo modo, também a continuidade de uma linha de pureza. O príncipe é filho da realeza, não sofreu mácula nem misturou seu sangue - ou sua alma - com sentimentos plebeus.

Caminha com segurança, impõe respeito e beleza. Montado num cavalo branco, igualmente belo e puro, ganha em agilidade e destreza. Desafia o tempo cavalgando por campos de incertezas, mas sabe que, herdeiro da coroa e, a bordo da melhor montaria, chegará são e salvo ao coração da donzela.

Que se alimenta do retorno do príncipe. Ou do sonho de conhecê-lo pela primeira vez. Na verdade, reconhecê-lo, como se já fossem preparados um para o outro, como se antes mesmo de a vida e as circunstâncias interporem seus destinos, fatalmente se encontrasem na razão mútua de existirem. A donzela não caminha senão por sonhos doces e searas límpidas. Apenas cobra que, no fim, o príncipe confirme na beleza de sua face e na alvez de seu cavalo o caminho tenro e suave que ela sempre projetou.

A grande questão não é o príncipe nem o cavalo, mas o quão "encantados" eles são, justo porque encanto é primo de feitiço. Um príncipe encantado está inevitavalmente fora de seu estado natural. Só existe em aparência até que algo ou alguém o desencante. E se for desencantado perde a graça, desanda o enredo, decepciona a pobre da donzela, que se desmancha em lágrimas. Ela nem desconfia, mas no fundo o príncipe encantado é um jogo de espelhos que reflete sua beleza e projeta seus vazios.

E como evitar o círculo vicioso? Se ela se fecha, perde contato com um universo igualmente lindo, porém mais aventureiro e perigoso. Se abre as portas do coração à realidade e abandona a idéia do príncipe, pode antecipar o sofrimento e, quem sabe, até descobrir não um príncipe, mas vários homens generosos, educados, como que meios-príncipes. Mas vai inevitavelmente sofrer. Se dará conta de que precisa completar o quebra-cabeças, juntar as peças. De repente a união é uma soma de complementos. Ele tem o que falta em mim e eu tenho o que falta nele. Nada principesco, não? 

Sem viver por ilusões e encantos, ela não deixará de cair do cavalo muitas vezes. Mas, quanto menos se cobrar o príncipe, mais força terá para tomar as rédeas do cavalo. Que, vá lá, pode nem ser tão branco, forte e veloz. Mas certamente domável. E sempre que se levantar e olhar para as cicatrizes em seu corpo, toda vez que sentir seu coração doer um pouco, terá a certeza de que aprendeu um pouco mais sobre o amor. Não se enredará tão facilmente em sonhos ingênuos ou expectativas eternas, por mais belos e tentadores que pareçam. Mesmo sem saber, estará alguns passos mais próxima da felicidade, afinal, nossa razão mais nobre de existir é tão em carne e osso quanto o sorriso ingênuo de um bebê.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Neologismo de posição


Massa demais essa corrida em Interlagos. De cara, David encerra sua longa carreira de forma Coulthard: encontrando um Piquete no S do Senna. Enquanto isso Felipe guia seu deus-nos-acuda vermelho procurando apostar em algo mais que o chove-não-molha das previsões óbvias.


A saída pela tangente é acelerar. Mas como dar zebra, se num Vettel repentino seus cavalos rampantes não despejam potência no Lago? Iria o Sol brilhar para nosso bravo aventureiro ou lhe sobraria o bagaço do Laranja? O problema é que expurgar seu sentimento de Kubica pelos retões curvos de Interlagos não era o bastante. Porque lá pelo meio, Hamilton seguia um estilo Sutil de pilotagem, que, diga-se de ultrapassagem, o faria campeão mundial.

Tudo conspira para a meticulosidade circunstancial do inglês até que alguns Glocks de chuva dão o ar da graça no asfalto secamente britânico. Nada de previsão, seus engenheiros! Qualquer cidadão mortal sabe que finados chove ano sim, ano também. A questão era quando, como e onde. É só olhar pra torcida brasileira. Ela Takuma vontade tão grande que a chuva estrague a corrida do bom moço da ilha da Rainha... e brasileiro quando se junta pra bater tambor, não tem santo que segure.

De enfadonha, a corrida começa a parecer aqueles Bourdais de cidade pequena. Sacode pra cá, segura dali, como o Fisico desses pilotos aguenta? E a cabeça do inglês está um Trulli só, repetindo aquele verso de Flor de Lewis: "eu sei que o erro aconteceu, mas não sei o que fez tudo mudar de vez... onde foi que eu errei?". E por aí vai. Melhor, quase não vai, porque na Junção dos fatos, cada volta derrapante começa a lembrar uma luta de Boxes. Massa resiste bem à pressão da última delas, ao contrário do inseguro Hamilton, que se confunde entre Raikkonens e Kovalainens, como se tomara um porre de Kazuki.

Sorte dele que, enquanto pingos caem e bolsas despencam, a torcida sobe e Felipe voa, falta Timo ao pelotão que o separa do líder. Assim, um piloto de quinta colocação, que sequer subiria ao pódio, se vê consagrado. Campeão por um Nico assim, ó. Um pontinho. Fazer o quê? Ano que vem tem mais. E que de mangueira a gente só ouça falar em fevereiro ou num canto do banheiro!

domingo, 2 de novembro de 2008

A morte nossa de cada dia


Dia de finados costuma ser cinzento por dentro e por fora. Sutilmente, na dor que insistimos cultivar pelos que se foram, perdemos a chance de encarar a morte como fenômeno natural e cotidiano.


Não apenas porque algo ou alguém morre a cada instante. Há pequenas mortes, na realidade fins de ciclos que abrem brechas para transformações importantes em nossa vida.

O nascimento é a primeira grande morte de qualquer ser. Vir ao mundo é, por si só, um processo igualmente traumático para quem concebe e é concebido. Na ruptura de uma gestação, a morte do desejo e das expectativas dos pais; na saída da zona de conforto do bebê, a agonia inconsciente do pranto pós-morte.

A emoção de vencer na vida - independentemente da potência e da dimensão dessa vitória - é também uma morte. Seja calculada ou inesperada, racional ou intuitiva, a sensação de êxtase que nos invade nesses momentos mágicos e esporádicos de existência se assemelha a uma espécie de "orgasmo espiritual" (não por acaso o orgasmo é chamado pelos franceses de petite-mort, algo como "pequena morte").  Saímos de um estágio inerte (que pode muito bem ser um movimento contínuo, para os físicos uniforme) para sacudir a poeira e, finalmente, despertar. Por isso, costumamos chorar. O choro é dessas expressões como o riso e os espasmos musculares do orgasmo inexplicáveis. Apenas reconhecemos nelas um pouco da beleza de ser e viver.

Despertar e morrer são duas faces de uma mesma questão. Quem desperta de um transe - voluntário ou não - faz contato com sua parte essencial, a integridade existencial invariavlemente corrompida e contaminada por idéias fixas, pensamentos ansiosos e falsos quereres. E não há como se estabelecer vínculo com algo tão profundo sem o contato com a morte.

A sociedade do século XXI nos enche de razões e elementos para viver sem morrer. Mas viver sem morrer é passar pela vida sem que a vida passe por nós, quer dizer, apreciar as experiências sem vivê-las ou vivê-las de forma tão transbordante, tão maximizada que engasgamos em nossa própria superficialidade. Ou então damos a nossa alma satisfação de sua profundidade por meio de ilusões como paixões passageiras e aventuras fugazes.

O dia de finados não deveria nos conduzir à tristeza pelo que perdemos, mas a uma reflexão única sobre o quanto temos crescido com as pequenas e grandes mortes. Sempre que morremos ou sofremos a morte de outro como nossa saímos mais fortes, energizados. Enfim, verdadeiramente estamos prontos a viver a plenitude.