terça-feira, 28 de setembro de 2004

Diário de um vexamista


Depois do boquense, do são-paulino e dos atleticanos, acaba de se inaugurar uma nova categoria: os vexamistas!

Acabo de passar por uma pouco comum, ao ter de me conectar na Internet para ver o resultado do jogo de meu time no dia anterior. Logo eu, tão aficcionado por futebol e mais aficcionado ainda pelo Botafogo! Mas sabe que por um lado foi bom?

Pela primeira vez pude ler uma manchete virtual que me contasse 100% do que eu não sabia. Ontem tive um compromisso inadiável e não pude ver o jogo. Cheguei em casa tarde e fui dormir. Ao navegar pela Grande Rede, então, me deparo com a foto do Juninho cabisbaixo e a legenda: "Zagueiro é a imagem da decepção após vexame". Entre as chamadas, uma garante a demissão do técnico Cuca, não aceita pelo dirigente que se diz envergonhado.

De quanto foi a goleada? Qual o saldo do tango mal dançado em Buenos Aires? Quatro a zero? Não, deve ser pouco. De alma sofredora prevenida, pensei em algo como sete, oito a zero.

Que nada, 4 a 2! Eis o "retrato" do vexame inaceitável. Aí pensei que alguma coisa estava errada. Poderia ser a legenda, que tratou uma eliminação natural como uma catástrofe incalculável. Mas ela não deixava de ser solidária à declaração do dirigente. Será que o cego sou eu mesmo? Pode ser, mais deixa ser que este espaço seja o divã virtual (separado e sem o n no final, por favor!).

Quer dizer que perder para uma das duas maiores forças da Argentina ainda por cima NA ARGENTINA por 4 a 2 é um vexame? Tá certo... Imagina que haviam se esquecido do vexame da tenebrosa Hungria em 1938, quando foi arrasada impiedosamente pelas forças de Mussolini por 4 a 2 ou o próprio Brasil de Didi e Nilton Santos, que se curvou de joelhos à hungriazinha de Puskas e Yashin, num vexame incalculável pelo mesmo placar, em 1954. Por falar em argentinos, e para ser mais contemporâneo, o que dizer então da vergonhosa derrota do Vasco para o lanuzinho semana passada por 2 a 0. Com um pouco de vergonha na cara, nem teriam entrado em campo anteontem. Mas vá lá, o regulamento mandava...

Por isso, era obrigação que o Botafogo saísse triunfante com uma vitória incontestável da Argentina. O 1 a 0 no Brasil tinha sido um mero disfarce, afinal a diferença de esquadrões era abissal. Veja que o time alvinegro até deixou ser vencido pelo fraquíssimo Fluminense para dar aquele ar de sansão moribundo...

A desfaçatez foi tamanha que, por 94 dos 95 minutos de jogo, o Botafogo esteve com a vaga na mão, em mais uma demonstração da genuína Raça Gloriosa, demonstrada tão bem no domingo contra aquele Fluminense. Mas levou um gol aos 47 do segundo! Um gol do riverplatezinho na argentinazinha.

Pensando bem, foi um vexame! Perder para um time que tem um cara chamado Ortega... Ortega não, orteguinha. Ou orteguito, como os próprios argentinos gostam de dizer curvando-se à sua vexaminosa inferioridade. Mas vá saber onde estavam com a cabeça os deuses do futebol...

Senão, como explicar as falhas de Max, o paredão alvinegro, Barbosa redivivo sempre a carregar sua cruz pelos erros que não cometeu? Ou a improvável derrocada de uma zaga absoluta. Aliás, alguém se lembra da última vez que essa muralha deixou passar quatro gols de um argentino? (Digo, de um TIME argentino).

Por isso mesmo, me rendo à minha miopia. Os dirigentes desse glorioso e vencedor clube têm razão. Como a FIFA ainda não descobriu o Botafogo para torná-lo sócio-vitalício do Mundial de Clubes e a Conmebol o deixou 11 anos sem uma partida estrangeira oficial?

A culpa é do Cuca, que transformou um time que não ganha quase nada em um time que quase ganha tudo...

segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Cidade maravilhosamente tricolor


Com o mesmo número de jogos que o vice-líder Cruzeiro e nove pontos à frente do time mineiro, o São Paulo chega ao último terço do campeonato brasileiro com a mão na taça. Só perde para si mesmo e ainda assim se fizer muita força. Fase maravilhosa com a bênção do Redentor, de braços abertos para o clube mais bem estrutuado e planejado do país.

É na cidade fundada por Mem de Sá que residem as maiores glórias tricolores na temporada. Primeiro, com a vitória sobre o então vice-líder Botafogo, no fim do primeiro turno. Se alguém tinha dúvidas de que o título de 2007 estava muito bem encaminhado para o tricolor, a prova dos nove foi dada ali, diante de 50 mil torcedores do rival. E quando a vantagem já estava consolidada, foi a vez de desbancar o Vasco, invicto há um ano em seu estádio e com o melhor aproveitamento em casa entre os 20 participantes do Brasileirão.

O terceiro triunfo são-paulino em terras fluminenses veio nesta quarta sem que a equipe precisasse derramar uma gota de suor. Não é difícil imaginar que a vitória cruzeirense diante do Flamengo e uma derrota para o Santos no fim-de-semana poderia derrubar a confortável vantagem de nove pontos, construída com tanto cuidado e planejamento. Os 3 a 1 rubro-negros foram o presente de natal antecipado que todo tricolor gostaria de ter recebido. Agora é ter paciência para esperar os jogos que restam.

Entra jogador, sai jogador e o São Paulo não muda a maneira de jogar. Defesa sólida e ataque cada vez mais produtivo são a certeza de que Muricy Ramalho tem o time nas mãos. O tricolor é a prova daquela máxima: técnico ganha e perde jogo. Por isso, não é exagero jogar a culpa neles quando um time vai mal, afinal, quando o trabalho é bem feito, os jogadores viram mais uma peça dentro da engrenagem da equipe. Por que então na Europa os técnicos não viram bodes-expiatórios?

É que lá eles estão submetidos a uma rigorosa e austera estrutura dentro dos clubes. São eles próprios parte da engrenagem, composta também por torcedores-sócios, diretores técnicos e jogadores com prazos de validade contratual decentes. No Brasil, falar nesse tipo de organização é cair numa utopia impensável até mesmo em terras são-paulinas. Então fica combinado que a promiscuidade beira-campo é inevitável, emblemática e educativa, como que a dar a medida da desorganização de nossa administração esportiva. Os técnicos recebem para arrumarem times e não dores-de-cabeça para dirigentes amadores de fala fácil. Pagam o pato pelos insucessos de um futebol efêmero.

Chega a soar irônico que uma das cidades com o futebol mais carente de organização da série A consagre o clube mais estruturado do país. Em um lugar onde a regularidade tricolor soa irritantemente sem-graça, fica o exemplo para que os cariocas recuperem a glória perdida em algum lugar do passado e que hoje passa à frente de suas janelas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2004

Sabe aquela do padre?

Se o campeonato brasileiro de futebol é uma maratona de 38 rodadas, a acusação de doping contra Dodô foi o padre irlandês que atrapalhou a corrida surpreendente do líder.

A competição chega a seu momento crucial, quando os chamados "coelhos" dão espaço para os atletas de alto nível que realmente têm chances de faturar o prêmio maior. Para quem não sabe, o coelho é aquele corredor que dá todo o gás no início da prova para tentar puxar o ritmo dos grandes atletas. Como nenhum ser humano consegue manter o ritmo frenético de um "coelho", este se retira da prova fatigado, ou então se contenta em apenas terminar a corrida, isso lá no pelotão intermediário.

O Botafogo fez um grande campeonato carioca e uma boa Copa do Brasil, embora não tenha vencido nenhuma das duas competições. Até aí nada demais, afinal o Flamengo cansou de ser campeão estadual do Rio de Janeiro e fazer feio nos campeonatos brasileiros. O próprio Flu, que venceu a Copa do Brasil neste ano tem um time bastante limitado e que ocupa as posições medianas da tabela. O que surpreende no alvinegro é o bom futebol e a eficiência: liderou durante mais de dez rodadas, algumas delas com cinco pontos de vantagem para o segundo colocado.

Quando a lua-de-mel com a atorcida parecia ter chegado ao ápice, o glorioso sofreu um duro golpe. Assim, da noite para o dia, surgiu a notícia de que seu principal jogador, Dodô, havia sido pego no antidoping. Pronto. O padre derrubou o líder e a casa botafoguense caiu.

Recordo-me das declarações de Vanderlei Cordeiro de Lima após o bronze em Atenas afirmando que não sabia se venceria aquela prova caso não tivesse sido atrapalhado. Mais do que humildade, ele mostrou realismo na análise. Primeiro porque sabia que não era favorito e que havia pelo menos cinco corredores com mais condições técnicas de vencer aquela prova, a começar pelo italiano que levou o ouro. Depois porque, mesmo antes de ser agarrado pelo padre irlandês, Vanderlei já via sua vantagem ser reduzida para os primeiros colocados.

Ocorreu o mesmo com o Botafogo.

Em termos de pontos, a vantagem alvinegra era boa. A questão é que o São Paulo começou meio devagar mesmo, ainda se recuperando dos traumas das eliminações na Taça Libertadores da América e no Campeonato Paulista. Já dava sinais de que entraria na briga quando a bomba do doping explodiu. Possivelmente não teria chegado tão rapidamente, mas nem o mais otimista dos alvinegros acreditava que ficaria tanto tempo na liderança sem ser incomodado. O São Paulo tem mais dinheiro, mais estrutura, mais elenco e, por isso, mais fôlego para setir menos o peso dessa maratona. Até os portões de General Severiano sabem isso de cor.

Nos cinco jogos sem Dodô, o Botafogo venceu dois, perdeu dois e empatou um. Em suma, não fez uma campanha tão ruim. O que impressiona é o aproveitamento até a décima rodada, momento em que a notícia catastrófica chegou a General Severiano. Eram sete vitórias e quatro empates (o Bota havia jogado 11 partidas devido à antecipação do confronto com o Vasco, pela rodada 12). Estava com cara de "coelho" e pinta de coelho. Ou cavalo-paraguaio, como gostam de dizer no meio futebolístico.

Pois Dodô foi absolvido e voltou a jogar. Retornou à pista justamente quando o Botafogo perdia toda a vantagem que tinha para os são-paulinos e tinha de passar o bastão da liderança pela primeira vez na competição.

Provavelmente a euforia que resvala numa certa soberba impeça os botafoguenses de uma análise fria como a que fez Vanderlei Cordeiro de Lima após ganhar o bronze nas Olimpíadas de Atenas. Eles podem até praguejar contra o tribunal que condenou seu artilheiro em primeira instância tal e qual o padre que se intrometeu na corrida dourada de nosso maratonista. Fato é que nem o mais otimista dos alvinegros acreditaria no fim de 2006 que estaria brigando pelo título e com chances reais de chegar entre os quatro primeiros para garantir vaga na Taça Libertadores da América. Nada mal uma medalha e um pódio para quem há pouco tempo se mostrava satisfeito em não flertar com a segunda divisão.

sexta-feira, 4 de junho de 2004

Com que cidade eu vou?

Postei sobre a influência política nos 21 projetos das 22 cidades candidatas a sede da Copa do Mundo em 2014. A seguir, você fica sabendo quem são elas e quais as chances de cada uma, com base no projeto apresentado e nos atributos... você sabe, políticos.

Rio de Janeiro (Maracanã) *****

Não que seja o melhor estádio do Brasil, mas conta com o aval político da CBF e o peso histórico de ter sido palco de uma decisão de copa, em 1950. Basta saber se vai abrir ou encerrar a competição.


São Paulo (Morumbi) *****

Candidatura apresentada logo que a CBF abriu para as cidades, briga com o Rio para ver quem abre e quem fecha a competição. Muita coisa precisa ser feita em termos de acesso e conforto dos torcedores, mas tem o aval político.


Curitiba (Arena da Baixada) ****
Nome certo na Copa, estádio moderno, adaptado às exigências da Fifa, conforto para o torcedor, opções de estacionamento e acesso. Precisa apenas aumentar sua capacidade. Deve sediar uma quarta-de-final, uma oitava-de-final ou a disputa do terceiro lugar.


Brasília (Mané Garrincha) ****

Candidatura não só avalizada como elogiada pela CBF. Brasília rima com política. Fazer uma copa no Brasil sem jogos na capital é idéia fora de cogitação. Candidata a receber uma quarta-de-final, uma oitava-de-final ou a decisão do terceiro lugar.





Belo Horizonte (Mineirão) ****

Peso político, proximidade do eixo RJ-SP credenciam o Gigante da Pampulha a receber jogos decisivos, como uma semifinal, uma quarta-de-final ou a disputa do terceiro lugar. Ainda precisa passar por algumas reformas para atingir o nível exigido pela Fifa.


Porto Alegre (Beira-Rio) ****

Passou recentemente por reformas e tem o peso político a seu favor. O problema é que tem duas candidaturas de peso entre os vizinhos e está distante do "centro", como eles gostam de se referir ao eixo RJ-SP. Se escolhida, deve sediar um dos grupos e pode abocanhar uma das oitavas-de-final.


Florianópolis (Orlando Scarpelli) ***

Leva vantagem por se tratar de um projeto particular do Figueirense que independe da candidatura da cidade, em si. Por isso, é forte candidata. Em tese, porque briga contra a competência curitibana da Arena da Baixada e o peso histórico-político de Porto Alegre. Candidata a uma quarta-de-final ou oitava-de-final.


Recife/Olinda (a ser construído) ***

Centro simpático à CBF, já articulou a construção de um quarto estádio na cidade, este perto da fronteira com Olinda. Dificilmente deixa de ser sede da Copa, mas, provavelmente, não fica com jogos decisivos. Oitava-de-final ou quarta-de-final a vista.


Salvador (Fonte Nova) ***

Candidatura eminentemente política. O estádio da Fonte Nova é ultrapassado e vai precisar de uma boa recauchutagem para sediar jogos em 2014. Mas nada que a caneta do Governo Federal e o apoio da CBF não resolvam... Pode sediar uma quarta-de-final ou oitava-de-final.


Belém (Mangueirão) ***

Também não deve ficar de fora na divisão dos quinhões. Por ficar na grande Belém, tem o acesso facilitado e a possibilidade de uma reforma sem dor de cabeça para a cidade. Ainda precisa melhorar o sistema viário, mas deve receber uma forcinha política da CBF, que não esconde o desejo de ter um estádio na região amazônica. Pode sediar uma oitava-de-final ou quarta-de-final.


Fortaleza (Castelão) ***
Peso político e simpatia da torcida local são trunfos importantes que já trouxeram vários jogos da seleção para a capital cearense. Porém, dessa vez, vai ter que brigar contra concorrentes fortes politicamente no nordeste, como Bahia e Pernambuco. O estádio vai precisar passar por profundas reformas. Se vencer, periga receber um jogo de oitavas-de-final ou até mesmo uma das quartas-de-final.


Manaus (Vivaldão) ***
Deve vencer a disputa interna do norte junto com Belém. Uma candidatura ajuda a outra, pois são centros aparentemente ermos, porém relativamente próximos entre si. O Vivaldão é recente e, desde que reformado na década passada, se tornou um elefante branco que precisa receber jogos da seleção para justificar o investimento feito à época. Uma copa cai como uma luva nesse sentido.


Goiânia (Serra Dourada) ***
O estádio precisa passar por reformas profundas. Conta com a força política e a tradição de receber sempre jogos amistosos e eliminatórias. Tem a simpatia da CBF e pode chegar a sediar uma oitava-de-final.


Rio Branco (Arena da Floresta) **
Candidatura aparentemente modesta, a capital do Acre vem com um projeto ambicioso e de pedigree. É assinado pelo mesmo projetista da Arena da Baixada, em Curitiba. Se tiver peso político para sair do papel e vencer o isolamento geográfico, pinta como candidato a sediar jogos da primeira fase e, quem sabe, abocanhar uma oitava-de-final.


Campo Grande (Morenão) **
Empolgação não falta à cidade, que enviou representante à última Euro, em Portugal. O objetivo foi conferir as instalações de lá e as adaptar no Morenão. O problema é que falta peso político à cidade e sobram concorrentes, a começar por Brasília e Goiânia. Se passar, pode lamber os beiços em ser sede da fase de grupos.


Cuiabá (Verdão) **
Os planos para o remodelamento do José Frageli, o Verdão, são ambiciosos. Se a cidade conseguir apoio para o projeto, sai como uma candidata forte. Caso contrário, vai perder espaço para as relativamente vizinhas Goiânia e Campo Grande. Pode sediar até uma oitava-de-final. E deve agradecer se isso acontecer...


Teresina (Albertão) *
Candidatura enfraquecida pelos concorrentes Recife/Olinda, Fortaleza e Salvador. Ainda precisa brigar com João Pessoa para provar que é uma sede possível. As obras previstas estão orçadas em mais de 50 milhões de reais e, como sabemos que esses orçamentos sempre mentem para baixo, vai ser difícil arranjar argumento político para o Governo Federal meter a mão no bolso.


Maceió (Rei Pelé)*
Idem a Teresina, com a diferença que costuma sediar mais jogos da seleção em amistosos e eliminatórias. O custo das reformas necessárias só se justifica com um bom apadrinhamento político na terra de Fernando Collor.


Natal (Machadão)*
O estádio precisava ser reformado para receber jogos da série A do brasileirão. Se já foi um custo para tudo ficar pronto, imagina em uma Copa...


João Pessoa (Almeidão) *


Vai fazer número, pois não tem condições técnicas nem políticas de brigar com os vizinhos. O estádio está completamente ultrapassado.


Campinas (a ser construído(?)) *Brigar contra a capital é tarefa inglória para Campinas. Cheira candidatura política. Quer dizer, para promover os políticos de lá...

Copas fora

Não que o Brasil merecesse sediar uma Copa do Mundo, mas, seguindo o rodízio de confederacões determinado pela Fifa, o Brasil não encontra concorrentes sul-americanos. Logo, sera mesmo sede da Copa 2014.

Cumprindo, então, o cronograma estabelecido internamente pela entidade máxima do futebol brasileiro, essa semana marcou o encerramento do prazo para as cidades brasileiras apresentarem sua candidatura. E lá vamos nós com 22 possíveis futuros palcos do principal evento do futebol mundial. No fim, apenas 10 restarão.

Por incrível que isso possa parecer, nem bem o Brasil lançara sua candidatura e seu principal estádio fora sumariamente excluído pela CBF. O Maracanã estava ultrapassado e inadequado às exigencias da Fifa? Nada disso. Política mesmo. A CBF, com sede no Rio, não via com carinho a torcida local desde que a seleção venceu a Bolívia por 5 a 0, no Maracanã, no longínquo ano 2000. Goleou debaixo de vaias, embora Romário tenha sido exceção.

Ali, ficou límpido para a Confederação Brasileira de Futebol – como, alias, nunca foi novidade – que jogar no Rio é encarar uma torcida exigente ao extremo. Crítica e bairrista mesmo. Mande um carioca escalar sua seleção ideal sem enxertar pelo menos cinco jogadores formados ou atuantes no futebol da Cidade Maravilhosa.

Mas não é que, como num passe de mágica, troca o commando na Superintendência de Esportes do Estado do Rio e o Maracanã é afagado não só com a possibilidade de ser uma das sedes, mas, com apoio explícito de Ricardo Teixeira, vira a menina-dos-olhos da CBF? Em um ano, o estádio recupera o prestígio perdido, a torcida deixa de ser um empecilho e o estádio se vê irresistivelmente impelido a sediar jogos das eliminatórias para a Copa. Novamente, o “maior do mundo” é seríssimo candidato à grande final. Competência administrativa? Política mesmo.

São Paulo se apressou em mostrar o Morumbi como provável sede. Esse é barbada. Recentemente reformado, deve passar por novas obras antes de ouvir o sim da generosa Confederação Brasileira de Futebol. A Federação Paulista de Futebol se cansa de dar alegrias à CBF, assinando tudo que é cheque em branco quanto às grandes decisões tomadas pela entidades. Competência? Nem tanto. Política mesmo.

Não fica difícil “escolhermos” nossos outros estádios preferidos. Um deles é o Mineirão, estádio ainda muito longe dos padrões exigidos pela Fifa, mas que conta com o aval do destemido presidente da CBF. Se tem uma Federação amiga e que não dá a menor dor de cabeça ao alto commando do futebol brasileiro é a FMF, na figura de seu presidente e dos irmãos Perrela, presidentes eternos do Cruzeiro. Portanto, mineiros, fiquem tranqüilos: o Gigante da Pampulha está apto a receber jogos da Copa.

O mesmo raciocínio se aplica ao Beira-Rio, do Internacional de Porto Alegre. Fábio Koff, gaúcho antes de gremista ou colorado, tem sido durante muito tempo os braços direito e esquerdo da CBF nos Pampas. Centro tradicional de contestação a qualquer movimento do “centro”, Porto Alegre não tem oposto uma vírgula às decisões da Confederação Brasileira de Futebol nos últimos 20 anos.

Os oito restantes entram mesmo pelo mérito geográfico – mas pode chamar de coronelismo. Espalhar os quinhões nos quarto cantos do país sempre foi obssessão do presidente da entidade máxima do futebol brasileiro. Se a Arena da Baixada, em Curitiba, é candidata incontestável pela sua infra-estrutura, o mesmo não se pode dizer, por exemplo, dos estádios do nordeste. E quem se importa com isso por lá? O Governo de Pernambuco, por exemplo, se apressou em encomendar uma daquelas maquetes de empreiteira para mostrar que tem condições de construir um dos complexos mais modernos do país até 2014. Isso porque já há três estádios só em Recife…

E podem esperar porque pelo menos dez das vinte candidaturas não têm seus palcos aprontados. Mas quem disse que eles não serão? Possivelmente, todos ficarão lustrosos, nem que seja para sediar jogos isolados da seleção e entrar na fila de candidatos desesperados. Tudo com o aval da CBF, com o dinheiro do contribuinte e, assim como no Pan, na base da euforia nacional que esconde os superfaturamentos de obras, as licitações sem transparência, os problemas de infra-estrutura maquiados, e por aí vai.

Ainda falta bastante para a Copa da CBF, mas, passar os olhos pelas audaciosas candidaturas de nossas cidades - e a forma como elas são magicamente avalizadas pela entidade máxima do futebol brasileiro - pode se revelar um bom exercício crítico. Assim, quem sabe, não deixamos nosso precioso dinheiro ir pelo ralo do banheiro para parar numa copa qualquer.
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Candidatas e chances (indicadas pelas estrelas)

Rio de Janeiro (Maracanã) *****
Não que seja o melhor estádio do Brasil, mas conta com o aval político da CBF e o peso histórico de ter sido palco de uma decisão de copa, em 1950. Basta saber se vai abrir ou encerrar a competição.

São Paulo (Morumbi) *****
Candidatura apresentada logo que a CBF abriu para as cidades, briga com o Rio para ver quem abre e quem fecha a competição. Muita coisa precisa ser feita em termos de acesso e conforto dos torcedores, mas tem o aval político.

Curitiba (Arena da Baixada) *****
Nome certo na Copa, estádio moderno, adaptado às exigências da Fifa, conforto para o torcedor, opções de estacionamento e acesso. Precisa apenas aumentar sua capacidade. Deve sediar uma quarta-de-final, uma oitava-de-final ou a disputa do terceiro lugar.

Brasília (Mané Garrincha) *****
Candidatura não só avalizada como elogiada pela CBF. Brasília rima com política. Fazer uma copa no Brasil sem jogos na capital é idéia fora de cogitação. Candidata a receber uma quarta-de-final, uma oitava-de-final ou a decisão do terceiro lugar.

Belo Horizonte (Mineirão) ****
Peso político, proximidade do eixo RJ-SP credenciam o Gigante da Pampulha a receber jogos decisivos, como uma semifinal, uma quarta-de-final ou a disputa do terceiro lugar. Ainda precisa passar por algumas reformas para atingir o nível exigido pela Fifa.

Porto Alegre (Beira-Rio) ****
Passou recentemente por reformas e tem o peso político a seu favor. O problema é que tem duas candidaturas de peso entre os vizinhos e está distante do "centro", como eles gostam de se referir ao eixo RJ-SP. Se escolhida, deve sediar um dos grupos e pode abocanhar uma das oitavas-de-final.

Florianópolis (Orlando Scarpelli) ****
Leva vantagem por se tratar de um projeto particular do Figueirense que independe da candidatura da cidade, em si. Por isso, é forte candidata. Em tese, porque briga contra a competência curitibana da Arena da Baixada e o peso histórico-político de Porto Alegre. Candidata a uma quarta-de-final ou oitava-de-final.

Recife/Olinda (a ser construído) ****
Centro simpático à CBF, já articulou a construção de um quarto estádio na cidade, este perto da fronteira com Olinda. Dificilmente deixa de ser sede da Copa, mas, provavelmente, não fica com jogos decisivos. Oitava-de-final ou quarta-de-final a vista.

Salvador (Fonte Nova) ****
Candidatura eminentemente política. O estádio da Fonte Nova é ultrapassado e vai precisar de uma boa recauchutagem para sediar jogos em 2014. Mas nada que a caneta do Governo Federal e o apoio da CBF não resolvam... Pode sediar uma quarta-de-final ou oitava-de-final.

Belém (Mangueirão) ****
Também não deve ficar de fora na divisão dos quinhões. Por ficar na grande Belém, tem o acesso facilitado e a possibilidade de uma reforma sem dor de cabeça para a cidade. Ainda precisa melhorar o sistema viário, mas deve receber uma forcinha política da CBF, que não esconde o desejo de ter um estádio na região amazônica. Pode sediar uma oitava-de-final ou quarta-de-final.

Fortaleza (Castelão) ***
Peso político e simpatia da torcida local são trunfos importantes que já trouxeram vários jogos da seleção para a capital cearense. Porém, dessa vez, vai ter que brigar contra concorrentes fortes politicamente no nordeste, como Bahia e Pernambuco. O estádio vai precisar passar por profundas reformas. Se vencer, periga receber um jogo de oitavas-de-final ou até mesmo uma das quartas-de-final.

Manaus (Vivaldão) ***
Deve vencer a disputa interna do norte junto com Belém. Uma candidatura ajuda a outra, pois são centros aparentemente ermos, porém relativamente próximos entre si. O Vivaldão é recente e, desde que reformado na década passada, se tornou um elefante branco que precisa receber jogos da seleção para justificar o investimento feito à época. Uma copa cai como uma luva nesse sentido.

Goiânia (Serra Dourada) ***
O estádio precisa passar por reformas profundas. Não tem cadeiras na maior parte dele, por exemplo. Conta com a força política e a tradição de receber sempre jogos amistosos e eliminatórias. Tem a simpatia da CBF e pode chegar a sediar uma oitava-de-final.

Rio Branco (Arena da Floresta) **
Candidatura aparentemente modesta, a capital do Acre vem com um projeto ambicioso e de pedigree. É assinado pelo mesmo projetista da Arena da Baixada, em Curitiba. Se tiver peso político para sair do papel e vencer o isolamento geográfico, pinta como candidato a sediar jogos da primeira fase e, quem sabe, abocanhar uma oitava-de-final.

Campo Grande (Morenão) **
Empolgação não falta à cidade, que enviou representante à última Euro, em Portugal. O objetivo foi conferir as instalações de lá e as adaptar no Morenão. O problema é que falta peso político à cidade e sobram concorrentes, a começar por Brasília e Goiânia. Se passar, pode lamber os beiços em ser sede da fase de grupos.

Cuiabá (Verdão) **
Os planos para o remodelamento do José Frageli, o Verdão, são ambiciosos. Se a cidade conseguir apoio para o projeto, sai como uma candidata forte. Caso contrário, vai perder espaço para as relativamente vizinhas Goiânia e Campo Grande. Pode sediar até uma oitava-de-final. E deve agradecer se isso acontecer...
Teresina (Albertão) *
Candidatura enfraquecida pelos concorrentes Recife/Olinda, Fortaleza e Salvador. Ainda precisa brigar com João Pessoa para provar que é uma sede possível. As obras previstas estão orçadas em mais de 50 milhões de reais e, como sabemos que esses orçamentos sempre mentem para baixo, vai ser difícil arranjar argumento político para o Governo Federal meter a mão no bolso.

Maceió (Almeidão) *
Idem a Teresina, com a diferença que costuma sediar mais jogos da seleção em amistosos e eliminatórias. O custo das reformas necessárias só se justifica com um bom apadrinhamento político na terra de Fernando Collor.
Natal (Machadão) *
O estádio precisava ser reformado para receber jogos da série A do brasileirão. Se já foi um custo para tudo ficar pronto, imagina em uma Copa...
João Pessoa (Almeidão) *
Vai fazer número, pois não tem condições técnicas nem políticas de brigar com os vizinhos. O estádio está completamente ultrapassado.
Campinas (a ser construído(?)) *
Brigar contra a capital é tarefa inglória para Campinas. Cheira candidatura política. Quer dizer, para promover os políticos de lá...

quarta-feira, 24 de março de 2004

Amansem o Felipe!!!



A pergunta é de meu amigo especialista em automobilismo Rodrigo Mattar. Felipe errou porque quer ser Felipe Mansell ou porque quer ser Nigel Massa?

O fundo de ironia e perspicácia da pergunta resvala na memória de uma audácia muitas vezes desmedida do Leão inglês, campeão mundial uma única vez em 1992 com um carro tão acertado pela Williams que não tinha como dar errado.

Mansell era um show à parte. Andava muito, mas muito rápido. E, não raro, se excedia. Gostava de ter máquinas velozes nas mãos. Velozes e potentes, nas quais podia depositar quinhões de sua fúria nada britânica. Por isso, se mordeu de raiva quando ficou trocentas voltas atrás de Senna, em 1992, no GP de Mônaco: era mais rápido, mas não podia - ou devia, àquela altura - desrespeitar a lei newtoniana. Assim como um ano antes em Suzuka, quando Senna foi tricampeão e o Leão foi chorar suas mágoas na brita.

Massa rodou quando lutou contra a zebra. Logo ela, que já foi dar o ar da graça no segundo grande prêmio da temporada. Na terra malasiana dos petrodólares, o destempero latino de Massa perdeu para a constância cerebral do finlandês Raikkonen. Massa não queria ser zebra de novo. Por isso, atacou demais uma delas. E, olha ela ali, deu zebra na cabeça!

Raikkonen vence porque guia uma ferrari com esilo "mclariano". Roda bem quando precisa, não faz questão de ser audacioso, mas também o é quando tem de ser. Enfim, faz tudo na conta do chá. E chá lembra Inglaterra. E na Inglaterra, voltamos à McLaren.

Digo isso para lembrar que o mundo da fórmula 1 parece não suportar algumas dicotomias. Só para não retroceder tanto no tempo, há pares que não nasceram para ser: Senna-Williams, Alonso-McLaren e, quem sabe prove o futuro (?), Raikkonen-Ferrari.

Por enquanto, a maré de azar alheia combina com um trabalho honesto dos italianos, que rendem a Raikkonen bons resultados. O problema vai ser quando a equipe do cavalo rampante precisar do gás extra do finlandês. Naquele momento em que ele precisar duelar reta a reta, curva a curva com os McLaren. Isso não esperem de Raikkonen. Basta lembrar que o próprio título do finlandês veio um pouco às custas da benevolência de Massa no GP Brasil, somado à trapalhada monumental de Lewis Hamilton, que deixou seu carro - e títulos - morrerem na curva do Lago.

Por um tempo, Felipe vai continuar sem entender por que leva tanta rasteira do destino, já não querendo ser confundido com outro brasileiro que ficou estigmatizado por não vencer nunca - tremenda injustiça, diga-se de passagem. Massa é justamente o oposto. Anda demais, ataca demais, desafia demais. E, às vezes, passa do ponto. Só que, num regulamento que distribui salomonicamente os pontos entre os oito primeiros, passar do ponto é pecado mortal. Fosse no tempo de Mansell, com um Ferrari acertado, Massa já poderia até ter nos dado a honra de mais um título. Por hora, vai brigar contra seus instintos, tendo à sombra outro alemão, este chamado Sebastian Vettel, que, dizem as más línguas, o sucederá em breve.

A conferir...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2004

Risos e lágrimas de história


Flamengo campeão. Quem venceu comemore. Quem perdeu se contente...

Botafoguenses se lamentarão pelo pênalti que decidiu a final da Taça Guanabara. Fato por fato, até podem ter razão. A falta foi duvidosa, a expulsão de Zé Carlos equivocada (talvez fosse mais justo eliminar o goleiro Castilho do jogo) e, no 10 contra 9, os rubro-negros tiveram o jogo nas mãos para fazer mais um gol e levantar a taça.

Futebol não é feito pra ser justo, mas para apaixonar. Se tudo fosse honesto no planeta bola, não precisaria de juiz, torcer seria em vão e venceria sempre o melhor. Não houve melhor nem pior nessa final. Houve o elemento humano, sempre a desequilibrar e tornar esse jogo maravilhoso.

Léo Moura desequilibrou, como sempre. Foi dele o passe decisivo para Diego Tardelli, que concluiu com simplicidade e maestria. Não é fácil sair atrás do placar em um jogo decisivo e encontrar forças para reagir. O juiz desequilibrou. Não importa. Com ou sem ele, uma coisa é certa: nos dois jogos mata-mata, contra Vasco e Botafogo, o Flamengo teve a maturidade de um campeão.

Fim de jogo, me intriga o complexo de perseguição alvinegro, que, psicologicamente, traduz uma recusa em se perceber inferior. O Botafogo é inferior ao Flamengo em tudo o que é mensurável, numérico: em torcida, em títulos, em arbitragens pró, em mídia pró, entre outros. O Botafogo é grande, mas infinitamente menor em torcida do que o rubro-negro. Para cada 10 torcedores no Rio, 6 são flamenguistas, 2 vascaínos, 1 botafoguense e 1 tricolor. É o que dizem as duas últimas pesquisas feitas por Ibope e Datafolha.

Quer dizer, há mais empresários flamenguistas, mais comerciantes flamenguistas, mais motoristas, mais catadores de papel, mais homossexuais, mais heterossexuais, mais jornalistas, mais juízes. Juízes? Sim, ou alguém tem a ilusão de que juízes não têm time?

O que o Botafogo não é menor nem maior do que ninguém é no imaginário popular, nos cânticos, na transcendência de um simples 11 contra 11. É nisso que reivindica - e ganha - sua grandeza e sua tradição. Por isso, proclama a frase mais fiel a seus torcedores possível: "ninguém cala esse nosso amor", que podia muito bem dizer "sou alvinegro apesar de tudo e graças a Deus".


Acontece que, quando há um lance duvidoso lá pela metade do segundo tempo e ele pode beneficiar o Flamengo, é natural que seja marcado a favor do Flamengo. Natural não quer dizer certo, mas, como todo time maior (não confundir com grande, que o Rio tem quatro), em grande parte das vezes penderá para ele o benefício da dúvida. O árbitro tem pouco tempo para decidir e sabe que tem duas escolhas: não marcar um pênalti que as câmeras podem revelar ser ou marcar um pênalti que as imagens mostrarem não ser. Sabe que, se optar por não marcar um pênalti que for de fato, pode ser crucificado pela opinião pública, pela federação, enfim, por tanta gente influente e com poder de voto e veto que pode adiar o sonho de alavancar a carreira.

Botafoguenses questionam uma possível omissão conveniente da mídia nesses momentos. Ora, o certo mesmo seria fazer como o Hélio Fernandes Filho, da Tribuna da Imprensa, que estampou na capa a indignação com o erro capital na final do ano passado (quando o bandeira marcou impedimento inexistente em Dodô e expulsou o atacante). Agora, eu questiono: quantos cidadãos de bem comprarão a tribuna da imparcialidade? Eles amanhã vão preferir comprar um jornal escrito "Campeão", "Time de Tradição" ou simplesmente "Créu", ou um que diga: "campeão sim, mas...?". Não adianta, um jornal, uma televisão, um rádio são meios de comunicação de massa e para as massas. Não podem falar uma linguagem diferente da maioria. Que não se confunda isso com mentir. Simplesmente a discussão do pênalti e das expulsões tende a ocupar um espaço menor do que talvez merecesse por justiça.


Porque futebol é paixão e multidão. Se fosse o contrário, os jornais até questionariam com mais veemência o lance capital. Não há nada de anormal nisso. Jornalista não é robô. Além de torcer, sabe que, mesmo querendo ser imparcial, deve levar em conta seu público. Se, daqueles 10 torcedores cariocas, 6 acordassem de mau-humor, sabendo que perderam uma final sem merecer, isso sim seria relevante. Isso sim seria notícia. Falar de imparcialidade absoluta nesse universo é ser hipócrita e ignorar o acontecimento esportivo.


Se a história é a eterna procissão dos vencedores, a notícia esportiva é a romaria dos fiéis torcedores. Para eles e por eles são feitas as manchetes. Como sempre, carregadas de emoções e parcialidades, um pouquinho mais ou menos envernizadas. É assim desde que bola é bola, doa a quem doer.

domingo, 15 de fevereiro de 2004

A estátua que congela a história


Romário faz o milésimo em São Januário e lá estão os holofotes no Reino da Cruz de Malta. Começa a perder a corrida para o tempo e chegam as redes salvadoras de Miranda I a oferecer ao baixinho o cargo de técnico como consolação. Justas homenagens, embora resvalem em um paternalismo conveniente. O príncipe não está só.

Em pouco tempo a história reestabelecerá a verdade dos fatos, pois não glorifica déspotas nem consagra mitos de cera. Miranda I é bem menos do que pensa, mas um dia, como mortal que pretende não ser, perderá a corrida para o tempo. Esse ninguém poderá salvar.

O que a história nem sempre faz é justiça com a omissão. Por isso, a estátua de Romário em São Januário é o pecado capital da administração de Miranda I. Ela mostra o que convém para esconder o que não interessa.

Não que Romário não merecesse uma homenagem à altura de seus feitos - e entenda-se altura meramente no sentido figurado -, mas nos poucos alqueires que se abrem atrás de um gol de São Januário há a fila que história nenhuma pode negligenciar.

De forma curiosa, a torcida faz questão de reestabelecer a justiça religiosamente. A ode ao Expresso da Vitória se mistura nas arquibancadas ao grito singelo; "Roberto, Roberto". Inusitado que o nome do maior ídolo da história do clube surja como sinônimo de protesto. No Reino da Cruz de Malta, democracia é artigo de luxo. E Roberto era democracia.


O palco preferido do 10 era a República do Maracanã. Lá as cadeiras desconheceram brasões e vozes puderam entoar uníssionas a pluralidade de um futebol que encantava. E Roberto era astro. Não a serviço de Miranda I, mas de vascaínos e, principalmente, amantes do futebol-arte. Definitivamente, o Reino da Cruz de Malta era pequeno para sua grandeza.


Como a Gávea é pequena para Zico. Como General Severiano foi pequeno para Garrincha e Laranjeiras para Rivelino. O problema é questionar isso num regime que faz questão de apartar o grande palco de seu público. Se há alguma camisa a ser imortalizada, com justiça aos números e à história, a 10 antes da 11. E se uma só estátua coubesse naquele pedaço de terra, certamente ela teria o 10 nas costas.


Camisa que nem o Santos de Pelé e nem o Botafogo do 7 Garrincha fizeram menção de imortalizar. Sabem que grandes gestos não se retribuem materialmente, pois que são feitos de imagens e memória. Mas vá dizer isso a Miranda I.


Ele pensa que é dono do Reino, mas está de passagem. Em breve, será goleado pela história e, queiram os deuses do futebol, terá suas injustiças despóticas varridas pelo tempo para escanteio.


Um gol de placa que a nação vascaína saberá comemorar como fazia nos tempos de Roberto.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2004

Cornetadas carnavalescas


Depois de postar sobre futebol e fiosofia, ponho a prova o caráter eclético desse blog com uma breve análise do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Sempre fui um entusiasta dos desfiles. Costumo ficar acordado até cedo para acompanhar todas as escolas. De qualquer modo, uma operação de risco extremo, já que o texto é postado a pouco mais de uma hora da abertura dos envelopes, ou seja, será necessariamente desmentido pelo resultado da apuração.

Então, vamos às cornetadas carnavalescas.

São Clemente - Um desfile leve, irreverente e de grande competência. A escola sofre com um problema crônico de preconceito dos jurados, pela sua tradição menor do que as rivais e por isso pena com avaliações muito rigorosas. O enredo foi bem desenvolvido, o samba fácil, a harmonia razoável e um bom conjunto. Como não chegou a ser magnífica, briga para permanecer.

Porto da Pedra - Um bom samba e tema de fácil desenvolvimento, mas pecou pela falta de empolgação dos componentes e pode ser penalizada em harmonia. Os carros também ficaram aquém do nível de acabamento e sofisticação do grupo especial, assim como as fantasias. Briga para não cair.

Salgueiro - Como sempre, desfile empolgante, com um tema de fácil desenvolvimento, bateria impecável e samba na boca dos componentes. Precisa se acertar na evolução, pois, há anos, alterna momentos mais parada na avenida com outros de aceleração. Candidata a voltar no sábado, para o desfile das campeãs.

Portela - Um desfile competente para resgatar a auto-estima da escola de Madureira. Boa harmonia e ótimo conjunto. Vai brigar para voltar às campeãs, embora em alegorias e fantasias esteja ainda um pouco aquém da grandiosidade de algumas adversárias e de sua própria história.

Mangueira - Desfile mediano, prejudicado pela chuva, que molhou as fantasias e murchou as plumas dos componentes. O samba e o enredo não empolgaram na avenida como prometiam. Fica no lucro se voltar no sábado.

Viradouro - Alegorias impecáveis, como sempre, fantasias criativas, embora pesadas em alguns casos, como na ala das baianas. A escola não sambou de maneira fluida e perdeu a espontaneidade. Muito mais passou como numa parada militar, com excesso de coreografias. Por isso, pode perder pontos em harmonia e evolução. Paulo Barros é um excelente carnavalesco, mas acaba "encaixotando" os componentes dentro de sua proposta. Deve voltar no sábado.

Mocidade - Um desfile bonito, surpreendente e à altura das tradições da escola de Padre Miguel. A bateria veio impecável, empurrou o samba para cima (a linha melódica era complexa e questionada por muitos da comunidade) e proporcionou uma harmonia perfeita à escola. As alegorias estavam bonitas, assim como as fantasias. Ótima comissão de frente. Candidata a voltar no sábado.

Unidos da Tijuca - Desfile correto, enredo claro e de fácil vizualização. Embora não tenha contagiado a torcida, empolgou os componentes, que querem deixar de lado a fama de vice e voltar a conquistar um título após 72 anos.

Imperatriz Leopoldinense - Depois de vagar por enredos de qualidade duvidosa, a Imperatriz apostou no que sabe fazer de melhor: contar história (com h). Rosa Magalhães mostrou por que é uma das melhores carnavalescas do país com fantasias muito bem concebidas e acabadas e carros alegóricos muito luxuosos. O senão da escola vai para a harmonia - a primeira metade da escola passou sem empolgação - e o conjunto pecou com essa heterogeneidade do desfile.

Vila Isabel - Bom gosto foi a marca registrada do desfile, que desenvolveu bem o enredo sobre os trabalhadores. Fantasias com bom acabamento e ótimo conjunto. É visível a maturidade da escola da Zona Norte desde que retornou ao grupo Especial em 2005. Sua briga para estar entre as primeiras e retornar no sábado está comprometida pelo último carro, que demorou a conseguir entrar e causou um buraco no fim do desfile.

Grande Rio - Um tema desconhecido, mas desenvolvido e explicado com competência pelo carnavalesco. Desfile correto, boas alegorias, fantasias e comissão de frente ótimas e bom trabalho de harmonia. Briga para voltar no sábado, entre as campeãs.

Beija Flor - Em condições normais, briga pelo título com ampla vantagem. Perfeita em todos os quesitos, fez um desfile num nível acima das demais. Grandiosa nas alegorias e fantasias, porém leve e harmoniosa. Conjunto impecável e samba-enredo envolvente, puxado com extrema competência por Neguinho. Parabéns para ele, para o carnavalesco Laíla e para a bateria perfeita de Mestre Paulinho.

Para quem tem dificuldade de visualizar os itens julgados, vai um pequeno guia dos quesitos dos jurados.


Dez itens são avaliados em um desfile. São eles:

Enredo - A maneira como uma história é contada na avenida ao longo das alas e alegorias. Os eruditos do carnaval gostam de chamar "leitura do samba/tema" pela escola. Durante muito tempo confundi tema com enredo. Um exemplo: a Viradouro veio cantando o "arrepio" em suas mais variadas formas. Um tema difícil, mas que nada tem a ver com o enredo ter sido bem ou mal-desenvolvido. Da mesma maneira, falar da mania de colecionar não garante por si só à Tijuca o sucesso no desenvolvimento do enredo.

Samba-enredo - Melodia e letra compõem um samba. Na melodia, observa-se a coerência harmônica do samba, algo como saber se os acordes musicais andam numa seqüência lógica - isso quase sempre acontece. Além disso, o puxador precisa levar os 80 minutos na avenida sem desafinar nem interpretar uma mesma estrofe de maneira muito diferente. O excesso de puxadores pode contribuir para a desafinação, assim como o desentrosamento com a cadência da bateria. A outra parte da avaliação corresponde à letra. Os versos devem realmente rimar (isso parece óbvio, mas às vezes são vistas rimas de mau-gosto) e terem uma métrica confortável para serem acompanhados pela melodia.

Harmonia - É a pulsação da escola, de dentro para fora. Se vai contagiar o público ou não, isso é outra conversa, mas os componentes devem necessariamente cantar o samba todo de cor, sem erros e em conjunto. Os jurados precisam ouvir a escola uníssona abraçar a melodia e a letra, além, é claro, sambar. Parece também óbvio, mas vale lembrar que muitos gringos e pessoas que não têm gingado participam do carnaval. Elas precisam vir nas alas misturadas com membros da comunidade e foliões antigos da escola. Assim, um puxa o outro e o desfile fica harmônico. Muitas escolas vendem fantasias de uma mesma ala para quem não é da comunidade. O resultado é que ela passa "reta", sem cantar o samba nem vibrar com o desfile.

Bateria - O coração da escola, como todo coração que se preze, deve pulsar forte, mas compassado. Por isso, não dá para alterar o andamento demais ao longo do desfile (começar rápido e depois diminuir e vice-versa). A afinação dos instrumentos também é observada pelos jurados. Como perceber isso? O som sai mais "seco" ou dá muito eco? É possível identificar com clareza cada instrumento ou os sons se fundem de maneira não-harmônica? Ter uma ótima bateria não é tão difícil. Complicado é passar com 10 em todos os jurados.

Evolução - A escola tem 1h20 para cruzar o sambódromo sem correr nem se "arrastar". Para que isso aconteça, as alas têm diretores de harmonia - isso mesmo, harmonia e não evolução - rs - para acelerarem ou retardarem a escola. O ideal é que eles nem precisem entrar tanto em ação. Esse "milagre" costuma acontecer quando a harmonia da escola funciona (os componentes se engajam no samba e fluem naturalmente) e, é claro, haja parcimônia na criação de alas e fantasias (a escola pode ficar muito grande e ter de acelerar). Não pode haver buracos entre as alas nem dentro delas. Esse é um dos quesitos de mais fácil identificação para o público comum. Facilmente se identifica que uma escola "com buracos" vai perder pontos.

Fantasia - As roupas dos componentes precisam ter um bom acabamento - material, pintura e ornamentações -, além de terem cores harmoniosas com as da escola, do enredo e das alegorias. É um quesito mais perceptível quando chove e as plumas murcham. Dá a impressão de que as fantasias estão pobres. Na verdade, a análise é mais minuciosa e complexa e, não raro, é o que acaba decidindo o título para uma das escolas.

Alegorias e adereços - Os carros-alegóricos devem contar o enredo de maneira clara, seus destaques precisam interagir com as formas e desenhos da alegoria. O carro não deve ser necessariamente grande, mas precisa ter acabamento impecável - pintura, desenho, esculturas, elementos cênicos, posição e função dos destaques. Um carro é um palco ambulante que precisa ser sustentado até o fim do desfile de maneira íntegra (não pode cair pedaço, queimar luzes, deixar destaque em perigo, pegar fogo, etc.).

Mestre-sala e porta-bandeira - As escolas geralmente têm dois casais. A porta-bandeira guarda o símbolo maior da escola e precisa bailar com graciosidade e alegria sem jamais deixar a bandeira dobrar, cair ou sofrer qualquer tipo de avaria que dependa dela. O mestre-sala deve cortejá-la mostrando alegria, desenvoltura e samba no pé, além de ajudar a porta-bandeira a manter a bandeira esticada e visível para os jurados. A fantasia deles também é julgada por esse quesito.

Comissão de frente - Deve apresentar a escola de maneira criativa, elegante e harmoniosa. É um dos quesitos mais subjetivos e comparativos. Por isso, não raro é quem acaba decidindo um desfile. Em 2008, pelo sorteio da Liga das Escolas de Samba, vai ser, de fato, quem vai decidir, já que será o último quesito a ter suas notas lidas e o primeiro critério de desempate.

Conjunto - A escola impressionou? Esteve harmoniosa como um todo? As cores das alas combinaram? Houve coesão entre as partes da escola? Uma análise global, subjetiva e difícil de ser feita.