quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O maior artilheiro do mundo

* Mais um texto antigo, publicado ano passado no meu blog. Cai bem, no entanto, a todos os botafoguenses já "viúvos" do matador André Lima. Quem sabe o protagonista da história não venha a ser o próximo artilheiro do Fogão?


O Guiness Book registra o australiano Archie Thompson como o jogador que mais marcou gols em uma só partida. Nas eliminatórias da Copa de 2002, a Austrália fez 31 a 0 em Samoa Americana. Thompson anotou 13 e entrou para a história do futebol. O recorde mineiro de gols em uma só partida pertence a Ninão, ex-jogador do Cruzeiro. Pelo Campeonato Mineiro de 1928, o centroavante fez 10 gols contra o Alves Nogueira, de Sabará.

Porém, tanto Thompson quanto Ninão tiveram recentemente suas marcas batidas. O maior artilheiro de todos os tempos, em um só jogo, é Ricardo do Fardo. Pouquíssimos devem conhecê-lo. O time pelo qual ele atua disputa apenas o Campeonato Rural do pequeno município de Tocantins-MG. Ainda assim, o seu feito não deixa de ser histórico, digno de documentação nos papiros do futebol.

Na partida válida pelo Ruralzão-Tocantins 2006, Ricardo do Fardo marcou todos os gols do Guarajá contra o Só Show. O Só Show levou um verdadeiro “showcolate”. A partida terminou 21 a 0. “Hum? Então o cara marcou 21 gols?”

Deveras!

De acordo com Marquinho Cassiano, companheiro de time e testemunha ocular da façanha do artilheiro, nenhum jogador do Guarajá, além de Ricardo, fez sequer um golzinho. Marquinho ressaltou que Ricardo prometera aos defensores do Só Show - time sem chances de classificação no campeonato - um fardo de refrigerantes, caso eles facilitassem sua vida. Por isso, sem contar o espaço na história, Ricardo ganhou também um apelido.

Assim como grandes craques do futebol brasileiro [Jair Bala, Roberto Dinamite, Didi Folha Seca e Jorginho Carvoeiro], Ricardo do Fardo não poderia atingir a fama sem um pseudônimo emblemático. O recorde pode ser contestado devido à condição de atleta amador de Ricardo do Fardo. Sem considerar ainda o fardo de refrigerantes que ele pagou em troca de um refresco dos zagueiros.

Mas quem é que, mesmo naquela pelada de fim-de-semana, já marcou 21 gols em um só jogo? Com fardo ou sem fardo, é tarefa das mais tortuosas. Enquanto não aparecer um que tenha marcado mais de 21 gols em 90 minutos, Ricardo é quem carrega o fardo de ser o maior artilheiro do mundo.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Ao som da bola

* O texto abaixo foi postado há um ano no meu blog e adaptado para o Nem dou bola. Momento bem propício para a estréia neste espaço e para essa postagem. Afinal, os Jogos Parapan-americanos já estão batendo à porta.

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O que faz do futebol o esporte mais popular do mundo é justamente a sua praticidade. Não são necessários equipamentos complexos, nem mesmo aptidão para o esporte. Uma bola qualquer, um espaço delimitado e demarcações para as duas balizas. São os requisitos básicos para bater aquela tradicional “pelada”.

E, nessas condições, costumam surgir os melhores jogadores; nos subúrbios, nos campinhos de terra ou de várzea. O futebol não é exigente. Em qualquer lugar, quem quiser pode jogar.

Então, como distinguir um bom jogador dos demais?

Velocidade? Força física? Habilidade? Perspicácia? Visão de jogo? Mas quem disse que é preciso visão para jogar bola?

O "futebol de 5" é prova concreta de que a bola rola para todos. A modalidade é disputada por deficientes visuais e segue basicamente as mesmas regras do futsal. A quadra é adaptada para 40m x 20m e as partidas disputadas em dois tempos de 25 minutos.

As equipes têm quatro atletas de linha que jogam vendados. O goleiro enxerga normalmente. No entanto, ele só pode atuar em uma área reduzida, de 2m x 5m. Dentro da bola há um guizo, através do qual os atletas a localizam em quadra. Eles são orientados também por um “chamador” - técnico da equipe – que fica atrás do gol adversário. Por isso, nos jogos do futebol de 5, costuma-se pedir silêncio aos torcedores, que geralmente só vibram na hora do gol.

O Brasil é o atual campeão paraolímpico da modalidade. A seleção brasileira ganhou a medalha de ouro nos Jogos Paraolímpicos de Atenas, em 2004, após vencer a Argentina na final - se bobear, até em futebol de botão os argentinos também são fregueses. Medalha que o país ainda não conseguiu ganhar em Olimpíadas.

Os brasileiros são favoritos nos Jogos Parapan-americanos Rio 2007, que começam na semana que vem, de 12 a 19 de agosto.

Assista aqui a um vídeo da Associação de Esporte e Cultura para Deficientes Visuais, a URECE. A Associação trabalha no estado do Rio de Janeiro incentivando o esporte e promovendo o acesso à cultura por parte dos deficientes visuais.

Dá para notar que nem mesmo a falta da visão impede a prática de um futebol bonito de se ver.

sábado, 4 de agosto de 2007

Não tente ser imparcial

Essa frase deveria ser estampada em todos os quadros-negros das faculdades de jornalismo pelo Brasil. Não vale a pena se formar achando que tem como se isentar de um dos lados ao tomar partido de uma questão qualquer. Viva a liberdade de puxar a brasa para a sardinha, porque quem acha que pode escapar dessa fatalidade anda escorregando feio.

Que o diga o Flávio Prado, que se notabilizou como apresentador do Cartão Verde, da TV Cultura de São Paulo e, atualmente, dirige um programa esportivo na Gazeta, também na maior cidade do país, além de assinar uma coluna no site Gazetaesportiva.net. Lembro-me do Flávio criticando ardorosamente os apresentadores que se rendiam ao poder da publicidade e aceitavam dividir espaço e tempo em seus programas com anúncios dos mais diversos. Foi capa da Carta Capital lá pelo ano de 2003. Dizia que, ao fazer isso, o comunicador perdia a liberdade de criticar o anunciante, caso precisasse. Tinha razão. Mas o que dizer de falar mal do futebol alheio só porque você nasceu no estado vizinho? Pois a parcialidade deu uma goleada em Flávio nesta semana quando o jornalista se meteu a dar opinião sobre o doping do jogador Dodô, do Botafogo.

Abre aspas o Flávio, em sua coluna no site Gazetaesportiva.net "Dodô está liberado para jogar depois da prova e contra prova de sua urina ter dado positivo no exame anti-doping.(...) Não é de hoje que o Botafogo é beneficário desse tribunaleco, ou alguém esqueceu do caso Sandro Hiroshi. Aliás, há um jogador do Juventude, Alex Alves suspenso pela mesma substância e pelos mesmos auditores. É uma vergonha./ Se Dodô for inocente o Botafogo foi no mínimo displicente e teria que ser punido. Aliás penalizados só foram os clubes que enfrentaram uma equipe com jogadores turbinados, sem qualquer punição".

Prado fala de um complô para ajudar o alvinegro carioca, que não vem de hoje e insinua que o clube teria dopado intencionalmente seus atletas e que, por isso, eles estariam tão bem, justificando inclusive a liderança no equilibrado e difícil campeonato brasileiro. Reparem na palavra "turbinado" cheia de más-intenções, quando se refere ao clube.

A acusação que pesa sobre Dodô tem origem no erro de manipulação de um laboratório, que misturou acidentalmente traços de uma substância proibida com cafeína, composto permitido e utilizado amplamente pelo Botafogo em seus atletas. Isso ficou evidente em uma análise particular encomendada pelo próprio clube. A questão é que, perante a justiça, o laboratório não quis assumir. Como se fala em responsabilidade objetiva, fica sempre a hipótese de alguém do clube ter intencionalmente contaminado seus próprios atletas, ainda que isso vá completamente contra o bom-senso.

Quem conhece um milímetro de Dodô sabe que o atacante seria incapaz de compactuar com a insanidade de se dopar com Femproporex, uma espécie de "bolinha" mal-acabada usada por caminhoneiros no Brasil, que traz mais efeitos colaterais como enjôo, náuseas, surtos psicóticos, entre outros, do que benefícios a um atleta de alto rendimento. Definitivamente não condiz com o caráter do artilheiro, primeiro porque ele não precisa disso. Segundo porque ele até poderia ser mau-caráter, mas burro não.

A mágoa de Flávio, no fundo, é com o futebol carioca. Com o Botafogo, que pediu pontos de um jogo que havia perdido de goleada, em 1999 (6 a 1 para o São Paulo) e escapou de ser rebaixado na ocasião (o tal caso Sandro Hiroshi que ele cita). Mágoa também do Fluminense, que caiu para a segunda divisão em 1997, fez manobras políticas para não descer e, quando conheceu o fundo do poço em 1999, voltou da terceira divisão diretamente para a primeira. Por que não dizer, uma pontinha de ressentimento com o Vasco dos mandos e desmandos de Eurico Miranda, como na final da Copa João Havelange de 2000, quando o Vasco conseguiu remarcar uma partida dura contra o São Caetano após a queda de um dos alambrados do Estádio de São Januário. Pensando bem, raiva também com o Flamengo, que, segundo comentários dele próprio na TV Gazeta, só não está na segundona porque é constantemente ajudado pelas arbitragens. Em suma, por ele o futebol carioca bem que poderia explodir.

Mas, estranhamente, vai bem. O Fluminense é o campeão da Copa do Brasil e garantiu vaga na Libertadores da América, competição mais importante do continente. O Vasco está entre os primeiros e, se o campeonato acabasse hoje, estaria também classificado. O Flamengo vai mal, mas é bom lembrar que com vários jogos a menos por causa do Pan-americano. O Botafogo, contra quem Flávio dirige seus dardos do Ipiranga, esse é de matar de raiva. Lidera o campeonato há 17 rodadas, mesmo com seu artilheiro suspenso por um estranho doping manteve a ponta e acaba de ganhar uma licitação para administrar o estádio mais moderno do Brasil: o Engenhão, construído especialmente para o Pan do... Rio de Janeiro. Enquanto isso, São Paulo, que já teve mais de 10 times na primeira divisão, hoje lambe os beiços de ter apenas os quatro grandes, sendo um deles, o Corinthians, na zona de rebaixamento.

É muito para a cabeça desse cidadãopaulista futebol clube.

Aí ele resolve chutar o balde e dizer nas entrelinhas que o alvinegro só é líder porque "turbina" seus atletas com bolinhas de Femproporex. Depois, insiste na picuinha: atesta seu desprezo pelo tribunal de justiça desportiva. Mal se dá conta de que, ao fazer isso, ele despreza sim a inteligência de milhares de leitores ao chutar o bom-senso para escanteio. Flávio, que sempre brigou com os fatos para sustentar sua imparcialidade, acaba de ser surpreendido pelo seu ufanismo bairrista. O pior é que, diferentemente dos que se vendem, permitindo que se anunciem produtos em programas esportivos, não vai ganhar um centavo de recompensa por isso.

Enfim, já deu de Flávio Prado. Apenas para relembrar aos coleguinhas que o Ministério da Saúde Literária adverte: querer ser imparcial faz mal à saúde de vossos textos.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Amor não-linear


- Amor não-linear... Isso! É o título da nossa história. "Amor não-linear". E aí não importa se foi num "news edit", passou pelo "final cut" (aliás, nome sugestivo... rs) e não chegou ao avid (ou seria ápice...rs). Pensando bem, dá para fazer uma boa história sim...

- Quando acabar de escrever eu quero ler...

- E tudo terminou quando perdemos a linha!


- Amo tanto você, mas sou tão tapada!


-
Tapada por quê?

- Meu Deus, nossa historia é perfeita!


- Em tese, deveríamos nos completar. Ao menos, profissionalmente é o que se espera. Texto e imagem... mas dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Então o que dizer do choro... o que dizer das palavras que custam a sair no momento da despedida... uma história que
é exibida por um controle-mestre. ora, quem é o controle mestre da vida?

- Deus
. E agora você escreveu exatamente o que somos, texto e imagem

- Pois é. E não estava na programação. O Mestre consentiu mas não aprovou o produto final. Cortes demais, algumas piscadas em negro, ausências de áudio... e assim se vai a história de dois apaixonados. Um pelo que pensa e escreve. A outra pelo que sente e pinta em telas de pixels. E quem ensinou a eles onde começa o sonho de um e termina o do outro. Preferiram ver as diferenças. E texto e imagem, no fundo, só serviram para dizer que na vida só se aprende fazendo. Quem vai entender a cabeça desse roteirista genial que é Deus

- Talvez quando o filme acabar a gente consiga entender o pq dessa historia louca que ele nos escreveu


- Verdade. E o "felizes para sempre" só é contado depois que o filme acaba.


- É...
queria ser a editora desse filme e saber o final do roteiro

- Bem, não podemos dizer que Ele não nos deu a oportunidade. e foi Ele mesmo, porque não nos conhecíamos sequer e de repente estávamos trocando beijos, carinhos e amor em uma cama e por telefone, né?
Talvez os atores sejam demitidos depois dessa pré-produção rsrs e tudo terminou quando perdemos a linha rs

- Quero ler o produto final. Pelo menos eu guardo para ficar lendo quando sentir saudades de nós dois...
Vamos dormir?

- Vamos sim. Pra variar, com os anjos. E tomara que não sejam tão atrapalhados como nós!


- Boa noite, durma com os anjos. E estou muito orgulhosa de você!


- Obrigado! E desculpa pela veemência de hoje. Você vai vencer, pode acreditar! Bjão!


- Agora já passou... E quase acabou mal
.

- Quando for sair para andar de bicicleta no aterro me chama, eu tenho uma bicicleta rosa!


- Quem sabe não comece por ali uma nova história?
Diários de bicicleta!

-
Olha, do fundo do meu coração triste, EU TE AMO DEMAIS!!

- Beijos!!!!!!! Do fundo do coração!!!! Muito amor pra você!!!!!


- Eu queria que você me amasse como amou as outras
. Fica com Deus... Bjs.

- Te amei sim, sua boba!
Bjs!

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Por um triz, Matariz!

Fevereiro de 2003.

- Vocês têm certeza de que é isso mesmo o que querem?

A pergunta de Andreia encontrou silêncio no rosto exausto de Felipe. Sabia que um segundo a mais de hesitação era abortar o plano para aquele dia na Ilha Grande.

- Vamos, dá sim. Olha, são oito e meia. Se sairmos até nove, chegamos em Matariz antes de anoitecer.

Meus dois amigos tinham boas razões para não comprarem a idéia. Andreia já havia percorrido o caminho em outra de suas "voltas" na Ilha Grande e, para Felipe, a ida a Cachadaço no segundo dia já valera a viagem. Para mim, a conta era simples: restavam três dias e, se não chegássemos à metade da parte interna da ilha, as chances de desfrutarmos a praia selvagem de Aventureiro seriam mínimas.

Caminhar por Ilha Grande é reviver um pouco da sensação luso-brasileira de Caminha, José de Alencar e Castro Alves. Algumas trilhas simplesmente não existem. São apenas o caminhar pela areia tendo, de um lado, a baía de Ilha Grande límpida (será que hoje ainda está?) e do outro a vegetação costeira que se mistura com os riachos que escorrem do Pico da Pedra D'Água para dar no Poço dos Escravos, nas Ruínas do Lazaretto e no Aqueduto, obras de arte esculpidas parte pela natureza, parte pela ignorância secular.


A caminhada pela Enseada das Estrelas, que tem seu nome relacionado à fartura de estrelas do mar naquele trecho, era relativamente fácil. Daquelas para se contemplar, esquecendo peso nas costas, pernas pesadas e coisas do gênero. E que manhã de verão generosa! Vento fresco e sol tolerável, acabara de se juntar a nós um insistente cãozinho vira-lata que adotamos como mascote.

Mais uma hora e meia, encarávamos a trilha que ligava o Saco do Céu a Japariz. No início, apenas uma trilha escorregadia. Depois, ela mesma, apenas uns bons graus a mais na vertical. Pela primeira vez, percebi o peso de se carregar uma mochila de 60 litros. Felipe ia numa velocidade digna de carros de rali. Andreia, devagar e sempre, fazia o "meio". Eu fechava a fila cada vez mais exausto, e não me cansava de perguntar à parceira quanto tempo faltava.

- Não muito. Mais vinte minutos estamos lá.

As respostas de Andreia sempre tinham a precisão de um cronômetro. Eu e Felipe brincávamos, dizendo que era como se ela vivesse com uma bússola e um relógio incorporados ao seu corpo. Sempre sabia para que direção irmos e quanto tempo precisaríamos.

Em Japariz, foram pelo menos três quartos de hora bem descansados na sombra de amendoeiras próximas a um bar rústico. Com as reservas de água comprometidas pela falta de nascentes ou bicas pelo caminho, nos vimos obrigados a gastar o pouco que tínhamos. O relógio marcava uma e meia da tarde quando partimos para Bananal dispostos a cumprir o roteiro pré-estabelecido.

- E economizem água porque daqui em diante vamos ter poucos pontos de abastecimento, alertou nossa amiga.

Logo de saída, passamos por uma chácara e nosso fiel escudeiro açoitou duas galinhas d'angola, sob os gritos desesperados de "Ei, volta aqui!" "Esse cachorro tem dono?" Para todos os efeitos não, mas, persistente que era, minutos depois estava conosco na trilha.

O relógio marcava 14h30. Seguimos até Bananal, parando antes em Freguesia de Sant'Anna - embora desativada, a principal igreja da Ilha. Alguns escorregões e horas de caminhada, chegávamos a Bananal com o sol das 16h.

O cenário era tentador. Algumas pousadas de um lado e corpos cansados de outro. O sol baixando contra a vontade de deitar até só Deus sabe quando.

- Temos mais duas horas e meia de sol para chegarmos ao camping de Matariz, alertou Andreia.

- Mas não tem como ficar aqui em Bananal? De repente a gente pede para montar acampamento em alguma daquelas pousadas...

- Não, Rafael. Nunca fiz isso. Não temos grana pra bancar pousada e eles não vão deixar três pés-sujos entrarem lá. Mas se quiserem tentar, tentem. Só se lembrem que não temos muito tempo antes do pôr-do-sol.

- Vamos seguir então, Rafa. Esquece essa idéia. Se o camping é em Matariz, paciência...

As palavras de Felipe foram sensatas. Mas doía o coração - para não dizer as pernas, as costas e tudo mais que tivesse articulação - saber que parar em Bananal era igual a escurecer no meio da trilha para Matariz. O tempo estava contado e se não aumentássemos o ritmo consideravalmente, chegaríamos ao destino com o cair da noite, o que em pouco nos ajudaria na busca de um camping.

A última trilha era bem no meio de um mato baixo. Percebíamos o sol se pondo, mas sabíamos que, pela época do ano - fevereiro - ainda seria possível, mesmo sem o horário de verão, procurarmos camping sem a luz de lanternas. Eram 18h20 quando aportamos em nosso destino.

Matariz se resumia a casinhas de pescador, um bar, uma praia muito poluída e alguns terrenos. Um deles virou camping. Na verdade, só se pôde acampar por lá devido à existência das ruas, que nos distanciam um pouco da faixa de areia, onde, definitivamente, a lei não permite armar barracas. E as ruas só estão ali porque, um dia, o lugarejo foi uma fábrica pesqueira.

Corremos para o bar e custamos uns vinte minutos para alcançarmos a dona do camping. Bom, "camping" é uma generosidade para aquele terreno arenoso, cheio de arbustos e saúvas e dois banheiros improvisados. Uma das formigas atacou impiedosamente o dedo médio do pé esquerdo de Andreia. Sorte que já havíamos baixado acampamento. Tempo para eu e Felipe prepararmos o rango da noite - miojo, para variar - antes de irmos para dentro da barraca.

Daquele dia longo viria uma paixão rompante e insurgente de morar um dia em uma ilha. Utopia que, graças a Deus, eu veria se concretizar quatro anos depois no coração de um dos maiores centros urbanos e comerciais do Rio de Janeiro. Pena que tenha durado tão pouco, assim como aquela noite, afinal, o dia seguinte nos esperava para outro dia de sol, desta vez rumo à Praia Grande de Araçatiba.

Mas isso é papo para outra história...

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Quando o caminho venceu o destino

Uma das experiências mais ricas que levo da vida até aqui é minha primeira trilha. Quem me apresentou à novidade foi Andreia, uma amiga filha da terra e que hoje se encontra casada com sua razão de viver: preservar a maior floresta equatorial do planeta.

Acabara de entrar para a faculdade e ainda vivia os primeiros semestres de alegria, ansiedade, enfim, tudo o que fosse emocionalmente contagiante. Era um menino do futebol e do video-game até aparecerem os caminhos tortuosos de Alto Caparaó.

A cidadezinha não tem mais de 10 mil habitantes, como naquela época. Mas guarda um dos maiores atrativos da natureza brasileira (maior mesmo, em termos de tamanho): o Pico da Bandeira. Trata-se do terceiro ponto mais alto do Brasil, o mais alto do Sudeste. Tão acima do nível do mar que, reza a lenda, mesmo estando na divisa de Minas com o Espírito Santo, de lá dá para se avistar as águas deste estado. Então era pagar para ver.


Começamos a caminhada no início da noite, por volta de 21h30. A idéia era ver o amanhecer lá de cima. O mês, setembro, não favorecia tanto a aventura , já que tem o bendito "erre" no meio. E, dizia o manual do trilheiro que, para não se surpreender por tempestades, trombas d'água ou coisas do gênero , é bom evitar os meses que contêm essa letra.

Mesmo assim, subíamos pelo vale que margeia o rio Caparaó numa noite gostosa, com uma brisa refrescante e um amontoado de casacos sobrepostos. Éramos conduzidos pelo Sr.Sérgio, hoje capitão da marinha aposentado, pai de minha amiga. Fechando o grupo, mais quatro colegas, cada qual com seu mochilão e barraca nas costas.

Lembro-me da fascinação por filmar aquela aventura. Registrar o momento inédito virara obssessão. Filmei a saída, a subida e colhia depoimentos a torto e a direito até ser alertado:

- Rafael, desliga a luz da câmera porque a gente pode precisar dela.

Andreia tinha razão. A visibilidade não era das melhores, já que, mesmo caminhando sob lua cheia, uma frente fria acabara de se aproximar da região. Assim, concluímos com relativa facilidade a primeira parte da caminhada, da tronqueira (saída) até o terreirão, ponto de apoio e descanso eventual.

Eram onze e meia da noite e o frio, de suportável, já passava a congelante. A visibilidade piorava sensivelmente e Sr.Sérgio achou por bem não permanecermos a noite no terreirão até horas antes do amanhecer.

Encontramos um casal acampado na beira da trilha que levava ao pico. Haviam acabado de tentar uma investida frustrada. Se, na primeira parte, o vale do rio Caparaó era generoso com marinheiros de primeira viagem, na segunda nem tanto. A subida ficava íngreme e se confundia com bifurcações criadas para as mulas que levavam bagagem de turistas que preferiam subir sem peso nas costas.

FIzemos uma rápida avaliação. Valia a pena prosseguir? Era um sete de setembro, e nada mais simbólico do que atingir o pico da bandeira no dia da independência, mas não dava para ignorar as condições extremas - para não dizer perigosas - que teríamos de enfrentar nas duas horas e meia de caminhada até o cume.

Decidimos ir com o casal. Subiríamos até bem perto do pico e esperaríamos mais uma hora e meia no máximo para ver o amanhecer. A operação de risco punha em xeque nossa resistência física e psicológica. Os recursos eram cada vez mais escassos. Algumas lanternas não funcionavam mais, outras iluminavam precariamente e, após caminharmos mais uma hora e meia, paramos.

Parar no meio de uma trilha é uma decisão complexa. Mexe com o emocional do grupo, normalmente já desgastado, além de por à prova a liderança do comandante do grupo, no caso o Sr.Sérgio. Numa lição de humildade e desprendimento surpreendente, ele suspirou por alguns segundos e confessou:

- Nos perdemos.

Pediu que reavaliássemos juntos a decisão de subir naquelas condições. Certamente, naquele momento, falava a voz da experiência de piloto, atividade exaustivamente praticada por Sérgio na Marinha. Só que retornar ao terreirão também não seria fácil àquela altura. Há muito havíamos perdido o ponto de referência.

Toda câmera que se preza é feita para filmar, mas o que isso importava às 2h30 daquele sábado com neblina e rajadas de vento? Tínhamos a opção de guardar a recordação do que viesse a acontecer em nossas memórias ou filmar o que restasse de viagem, gastando mais bateria do que a luz demandava e, quem sabe, virar capa do noticiário caparaoense no dia seguinte.

Por isso, decidimos que a câmera seria, junto com a lanterna profissional de Sérgio, a luz de que precisávamos. Subimos uma hora por trilhas absolutamente incertas. Por um momento, Andreia até teve a sensação de reencontrar a trilha, m as a escuridão era tanta que bastou alguns segundos para nos darmos conta de que tamanho esforço havia sido em vão.

- Posição de bivaque, todo mundo!

A ordem de comando de Sr.Sérgio era impositiva. Nunca havia ouvido aquela expressão antes, aliás, nunca havia ouvido Sérgio falar daquela maneira antes, mas pelo frio que fazia, pela impossibilidade de continuarmos a caminhada e já sem a luz de apoio da câmera, imaginei se tratar de um procedimento emergencial. Significava termos de procurar um ponto de apoio no desnível entre uma pedra e outra, de modo que a de cima funcionasse como barreira contra o vento gelado. Caminhando em círculo há meia hora por um platô descampado, demoramos mais de meia hora para nos espremermos (ou inventarmos?) num pequeno desnível e nos viramos para pregar os olhos. No que restava daquela noite de incertezas, a única resposta era que não veríamos o amanhecer do Pico da Bandeira.

O relógio, uma das raras coisas que ainda funcionavam àquela altura, marcava 7h30. Sérgio nos acordou informando que precisávamos descer. A neblina ainda estava forte, a visibilidade nula, mas, ao menos, a claridade nos dava alento de que resolveríamos o dilema em alguns minutos. Uma hora mais tarde, céu nublado, porém com visibilidade suficiente para descer. Chegamos a pensar se valia a pena continuar a caminhada, já que era dia e reencontráramos um ponto de referência. Mas Sérgio interveio novamente. Pediu que fôssemos pacientes e reconhecêssemos que aquela não havia sido a nossa vez.

Foi inevitável a frustração, especialmente para quem nunca havia feito uma trilha. Mas se não pude chegar ao destino, aprendi definitivamente a lição. Muitas vezes o próprio caminho é o destino. Quantas vitórias não houve naquela derrota aparente? Superação física, mental, paisagens lindas apreciadas na volta, esperança de que é possível se chegar, mesmo que não quando desejamos. E, pensando bem, isso vale para tudo na vida. Por mais que nosso desejo aponte de forma segura e determinada para um ponto que chega a tocar o céu de tão alto, quando perdemos agora, não perdemos para sempre.

Em tempo, chegaria ao Pico da Bandeira no ano seguinte. Mas essa é uma outra história...

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Renato, o Destino e o Brasil

Corpo fechado, gol benzido, nada passa por Fernando Henrique. O que se esconde em cada um dos 90 minutos de agonia tricolor, de um time que pouco ataca e se arrisca na iminência de morte por detrás da linha média?

Abril despedaçado. Retirado subitamente do Vasco de Romário, Eurico Miranda e São Januário, o gaúcho mais carioca do país troca o suntuoso projeto dos 1.000 gols pela modesta ambição de voltar à casa. Acolhido generosamente pela torcida, lá estava mais um personagem do vergonhoso rebaixamento triplo em 96, 97 e 98. Jogador e aprendiz de técnico na ocasião, Renato deixara as Laranjeiras com uma dívida impagável.

Um dia, precisaria voltar. Tinha de prestar contas com o destino. Obrigava-lhe o futebol que a moral desnuda vestisse o fardo de três cores. Um clube que via o presente ruir junto com os vitrais de sua sede a cada novo vexame. Perdia o Fluminense que clamava por Renato.

De repente, lá está o Portaluppi. E onde está o tricolor cambaleante do primeiro semestre, incapaz sequer de passar às semifinais de turno no campeonato local? Aquele Fluminense pálido e minúsculo parece ficar num passado que nenhum torcedor deseja se lembrar. Empate com gols aqui, vitória magra acolá, segue o tricolor com o regulamento debaixo do braço.

Quando acordam, lá está o Flu. Algum time arrebatador? Não. Falível, frágil mesmo. Mas é para ser 2007 o ano da Copa do Brasil. Ou alguém ousa dizer, por exemplo, que esse time é melhor do que o vice-campeão de 2005? Aquele não era para ser, não estava escrito. Não tinha encanto.

Esse não joga. Arrasta-se animado senão por um destino moribundo a clamar Renato. Maior do que o presidente Horcades, maior do que o patrocinador extravagante, maior que qualquer campeonato vencido, lamentado ou expurgado. Maior do que Ivos, Paulos ou Joéis. Maior que Albertos, Dias ou as 17 contratações da diretoria.

De repente, Santa Catarina. Santo destino! Lá estavam Fluminense, Figueirense, Renato e a dívida histórica. Lá no Rio Grande, em 92, com um gol de pênalti inexistente, o Fluminense deixava escapar seu primeiro título da Copa do Brasil. Talvez por isso – e pela impossibilidade de uma revanche contra o Inter, que disputava a Libertadores – quis o destino que o título tricolor viesse exatamente do sul.

Em Florianópolis, nada passa por Roger, Thiago Silva e o Destino. Nada rompe a linha de zaga da história, que escreve, a cada segundo de resistência, uma declaração de amor a Renato. Com as mãos no rosto, o gaúcho chora o apito final. Santo reconhecimento do tempo! Agora sim, ele pode deixar a cabeça cair sobre o travesseiro e dizer: paguei minha dívida com o futebol.

Para acordar no dia seguinte e ver a imensa torcida tricolor novamente grata por sua existência.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Obra de igreja

Acabo de voltar do Centro de Pentatlo Moderno em Deodoro. É de entristecer. Reboco para todo lado, tratores dividindo espaços com atletas, lama, muita lama, poças d˙água, nenhuma lanchonete ou restaurante, banheiros químicos interditados, enfim, vestiário masculino de Maracanã ganha de goleada.

Antes de tudo, fico triste como cidadão. Percebo que, a 60 dias da abertura dos Jogos Pan-Americanos, cada instalação se resume a um grande canteiro de obras. Tudo isso às custas do meu dinheiro. Do seu dinheiro, da nossa confiança depositada nesse projeto tocado por gente da mais absoluta confiança. Onde estamos errando? Vamos continuar tapando o sol com a peneira e fingir que nada está acontecendo?

Sei que sobram perguntas e um certo desapontamento ao léu. Mas o espaço agora é para desabafo. Há um mês, este profissional que vos fala é funcionário do Comitê Organizador dos Jogos. Sou pago com o seu dinheiro. E pago para não fazer nada.

Me desaponta porque também me formei às custas do seu dinheiro numa faculdade pública. Talvez por isso, sempre procurei valorizar cada minuto, cada matéria, cada linha da profissão de jornalista. Trabalho demais, faço além do que me pedem, me prejudico às vezes, confesso. Mas faço com a consciência de estar, antes de tudo, cumprindo um dever cívico. Prestação de contas de um cidadão com sua sociedade. De um comunicador com o seu dever.

E fico pensando: onde está parando esse dinheiro que recolhem de impostos? Onde estão os IPTUs, as taxas estaduais e municipais diversas? Estejam certos: em Deodoro não estão. Por lá, apenas operários correndo contra o tempo para finalizar uma obra que, se não era para estar pronta a essa altura, ao menos já deveria estar na fase de retoques finais. Antes Deodoro fosse exceção. Duro é constatar que é assim em 70% dos locais de prova.

Por outro lado, não deveria me surpreender tanto, afinal eu mesmo, após um mês e alguns dias de trabalho, fui não mais do que 10 dias descontinuados à sede do COB. A culpa não é de quem me contratou. A culpa não é minha nem sua, mas de quem prometeu o que não poderia cumprir.

Li semana retrasada que Guadalajara prepara um Pan bem mais modesto que o nosso para 2011. Estão certos. Dinheiro e patrocínios não faltariam para prometerem um evento suntuoso. Mas o que ganhariam com isso? Status? Para quê? O que a cidade deixaria de legado para cada mexicano?

A cada dia me convenço de que o Pan nasceu fracassado em sua concepção política. Interesses dos mais diversos estavam em jogo quando o Rio lançou candidatura e venceu a cidade de San Antonio, nos Estados Unidos. César Maia, o prefeito, estava ávido por uma argumento que consolidasse sua imagem de estadista realizador. O capacete do Pereira Passos redivivo parece cheirar cimento. Nada melhor então, do que gerar emprego às custas de obras faraônicas.

As empreiteiras devem ter dado pulos de alegria. Obras aos montes para se candidatarem, aqueles mega-acordos de sempre (como o da obra do Metrô de São Paulo), enfim... Do outro lado o pobre do Nuzman, uma grande pessoa, mas que fez do Brasil Olímpico uma obssessão. Luta contra estatísticas, esbraveja contra fatos evidentes como a violência, estrutura de transporte precário, falta de infra-estrutura urbanística, e por aí vai.

A mídia também compra a idéia, e o faz com o gosto. A principal organização do país na área fecha um pacto tácito de não falar mal da (des) organização, da falta de transparência nos prazos e execuções, no amadorismo da gestão de problemas como a Marina da Glória e do Estádio de Remo da Lagoa. Do outro lado, promessa de exclusividade na transmissão dos eventos e aceno com a possibilidade (praticamente) real de ser a emissora geradora do sinal dos Jogos para o mundo.

Mas de repente a coisa vai ficando tão desorganizada que essa empresa nem ganha a exclusividade nem o direito de ser a "host broadcast". Mesmo assim, os dias avançam mais rapidamente do que as obras e o Pan continua a ser tratado como sol, sempre disposto a exalar brilho.

Ainda há tempo para mudar? Sinceramente, a essa altura acho difícil. Ao menos, creio que deva restar um mínimo de dignidade para não nos acovardarmos por detrás de empresas ou do discurso simplista de que "é assim mesmo, se eu espernear não adianta nada...". A situação exige uma postura, no mínimo, crítica a tudo o que se passa. A começar por quem deveria comunicar com isenção e compromisso social. Honestamente, não é o que tenho visto por aí. Estou incomodado. Muito. E não sei até quando vou querer conviver com essa omissão.

domingo, 13 de maio de 2007

Papas na língua

Quem acordou cedo neste domingo para torcer por Felipe Massa no GP da Espanha de Fórmula 1 se frustrou. Justamente quando o brasileiro liderava, a poucas voltas do fim, a Rede Globo acabou com a diversão. Pudera, missa é coisa séria.

Ainda mais se rezada pela entidade máxima do catolicismo. Ainda mais no Brasil. Ainda mais numa emissora católica. Ainda mais numa emissora católica que faz questão de prestar contas de seu catolicismo.

Li e vi muita gente revoltada com a atitude da emissora. Por isso, gostaria de entender junto com os amigos o que a levou a tomar tal decisão. Frustrante ou não, é mais ou menos assim que funciona.

Antes de saírem atirando pedras na Globo, é bom que se saiba: a rede carioca se dispôs a pagar uma grana boa quando tirou do ar o GP da Espanha ao vivo. Isso porque tem direito de exclusividade para corridas de Fórmula 1. Nisso o mercado é implacável: quem deseja exclusividade tem de pagar milhões anualmente na aquisição de cotas antecipadas.

Afora isso, as letras do contrato são muito claras e determinam que a empresa faça jus ao direito de transmissão exclusiva. Significa dizer que, se não quiser passar um trecho da prova que seja, o bolso vai doer.

E a Santa Missa? Nada. Nenhum direito de exclusividade, nenhuma grana para o episcopado do Vaticano. Então a Globo bancou jogar dinheiro pelo ralo apenas em nome de seu status católico? Definitivamente, não.

O raciocínio é simples. A multa pela não transmissão da Fórmula 1 é alta, porém fixada. Já a audiência obtida numa missa papal é incalculavelmente maior. Incalculavelmente porque traz para a frente da TV pessoas que normalmente não estariam lá num domingo de manhã. Na linguagem marqueteira, não fazem parte do público-alvo do horário. O público de domingo de manhã é mesmo do esporte, não tem jeito. A não ser que até o Papa resolva baixar no Brasil. Pois é, aí acontece uma dispersão qualitativa desse público-alvo.

Em resumo, a velhinha, a dona-de-casa, o executivo, o jovem, enfim, uma mistura de categorias que dificilmente veriam um mesmo programa num mesmo horário excepcionalmente tornam-se uma audiência em potencial. Torna-se irresistível para a emissora não querer angariar espectadores tão diversos para consumir seu conteúdo matutino dominical.

Pode até ser que a visita papal não renda aos cofres da empresa lucro acordado em contrato, mas gera muita grana indiretamente. Primeiro com os patrocinadores que por acaso desejem anunciar antes e depois da missa. E, ainda que não haja anunciantes durante a missa, por diretrizes éticas da emissora, qualquer evento para o qual ela "entregue" entrará no ar repleto de audiência. Como sabemos, na equação comercial das redes de TV, audiência é igual a dinheiro. Muito dinheiro, diga-se de passagem.

Há também uma questão importante de status. Grandes eventos são uma janela para o fortalecimento da marca da emissora. No caso, a marca em questão é institucional. A Globo vê na cobertura da agenda do Papa grande oportunidade de reafirmar seu posicionamento ao lado dos católicos. Ainda que o Brasil seja um Estado laico, tem no catolicismo a religião de maior aceitação, com larga margem de vantagem para a Igreja Evangélica, que vem a seguir.

Por isso, não é exagero dizer que a Globo até aceitou perder dinheiro para transmitir a Santa Missa. Vale o sacrifício em prol do vínculo de confiança com sua audiência. Mesmo que os fãs de esporte e de Felipe Massa chiem, não é exagero dizer que fazem mais barulho do que número. São parte já fidelizada da audiência, forjada em anos de Emerson, Piquet, Prost, Senna e Schumacher. Eles não vão deixar de acompanhar as próximas corridas, ainda que com uma ponta de ressentimento. Nada que uma nova vitória de Massa ou o Tema da Vitória não apaguem.

Já o Papa voltará para o Vaticano. E por aqui, o que ficará? Sempre que os milhões de fiéis ameaçarem se esquecer, virão à cabeça - ou dos arquivos da própria emissora - as imagens de Sua Santidade captadas pelas lentes da Rede Globo de Televisão.

Num domingo que respirou Massa e Missa, o placar final ficou assim: Felipe 10 x Bento 16.

domingo, 6 de maio de 2007

Exatidão imponderável

A certa altura do jogo, o narrador pergunta ao experiente comentarista: o que vale mais em uma decisão é a raça ou a técnica? E ouve que além delas duas é preciso ter sorte. Na mosca.

A predestinação não é medida por códigos de esquemas táticos. Ela dá o ar da graça nas três letras mágicas que até hoje, tornam o futebol um esporte único. Quem paga o ingresso jamais sabe quem vai vencer, mas tem a certeza de que os louros vão parar sempre do lado de quem faz gol e sabe como evitá-los.

Muito se cantou o mantra numérico do futebol moderno nas últimas semanas. O Flamengo iria de 3-6-1 contra o falso 4-4-2 alvinegro, que evolui para um móvel 3-5-2 que, dependendo do ponto de vista, pode ser lido como um ousado 3-4-3. Pois a decisão do Campeonato Carioca acaba de botar por terra qualquer divagação extracampo. Venceu quem pôs mais vezes a bola dentro da rede. Simples assim.

O Botafogo foi superior ao Flamengo nas duas partidas da decisão do Carioca. E daí? Fez quatro gols, tomou outros quatro, e levou mais quatro nos pênaltis. Assim, o alvinegro deixou o Maracanã ostentando uma invencibilidade invejável no estádio e, ironicamente, não levou a taça para General Severiano.

Cuca fez palestras motivacionais, chamou os jogadores do Bota à responsabilidade e ao brio. Arrancou lágrimas de funcionários e atletas, fez uma oração forte antes da entrada em campo. Orientou o time para que não errasse passes, a defesa para que marcasse a jogada, não a bola. O Alvinegro seguiu a cartilha à risca. Jogou como sempre. Perdeu como nunca.

O código da predestinação rubro-negra começa na primeira partida da decisão, quando, vencendo po 2 a 0, a zaga alvinegra sai pedindo impedimento e obriga Júlio César a tomar uma atitude condizente com sua inexperiência. Faz pênalti, é expulso e deixa o instável Max em uma roubada.

O segundo gol rubro-negro sai das mãos justamente de Max, como que se negasse setenta vezes sete a qualidade técnica do Botafogo. Até então, nem o mais otimista dos rubro-negros acreditaria na virada. Após Max, ficou claro que Deus estava sentado à esquerda da tribuna de imprensa do Maracanã.

Ou não seria possível explicar o arroubo de competência do Flamengo. Chegou pouco ao gol de Max, desta vez mais protegido e, em quatro chances claras, aproveitou duas. Uma delas, por exemplo, veio dos pés de Renato Augusto, que cansou a torcida de tanto perder gols ao longo da competição. Por isso, não é exagero dizer que aquele gol foi forjado com mãos divinas.

O gol anulado de Dodô, Zé Roberto fora, Bruno e Leo Moura ligadíssimos, a torcida rubro-negra aplaudindo até lateral davam as pistas cabais de que a tarde seria, de fato, vermelho e preta. Quando Djalma Beltrami pediu a bola ao fim do jogo, até o mais otimista dos pessimistas alvinegros sabia que o manequinho tinha ido pro brejo.

Encantador, o Botafogo se despede do Carioca 2007 com o artilheiro, o melhor futebol, a equipe que mais venceu, o time que mais fez gols, o que perdeu menos jogos, somou mais pontos, encheu os olhos da torcida e dos comentaristas, etc, etc,etc... O Flamengo vai embora sem o melhor futebol, sem artilheiro, sem Obina, sem Juninho, praticamente sem rumo para a Libertadores. Mas com o título.

E basta perguntar a um torcedor alvinegro se ele venderia a alma lustrosa de seu time só para ter o gostinho de dizer que é campeão. Ou indagar ao rubro-negro se ele liga de sequer ter vencido o Botafogo no campeonato. A resposta se encontra em algum lugar entre o insignificante "não podes perder" alvinegro e o majestoso "vencer, vencer, vencer" cantado em verso e prosa na Gávea mais feliz do Rio de Janeiro.