sábado, 29 de dezembro de 2007

Um tapa na cara da hipocrisia

A cena chocou meio mundo: um pai-técnico destemperado agride a filha-atleta após o mau resultado no mundial de esportes aquáticos, disputado na Austrália. De quem é a culpa? Da câmera indiscreta.

Por que ela estava lá no vestiário justamente naquele momento constrangedor, senão para nos tornar cúmplices da nossa imagem e semelhança cotidiana? Só para nos forçar a emitir uma opinião socialmente correta sobre o acontecido? Definitivamente, apareceu na hora errada.

Pois fomos nós. Editoriais abertos, textos cintilantes, consciências tranqüilas de que o absurdo da cena do 'espancamento' merecia reprovação veemente. E cumprimos o papel devido de cidadãos.

Na seqüência da cena, a filha parece fugir. Nosso olhar insiste em segui-la. Ela sai do quadro, como se quisesse abandonar o papel principal da tragédia, mas retorna. Como num passe de mágica, o pai volta do transe. Abandona a fúria perfectível de treinador e volta ao pai-humano, enquanto a filha perde os superpoderes de atleta para ser simplesmente... filha.

Para a ucraniana Kateryna Zubkova, pior do que perder uma disputa esportiva seria consumar a dilapidação moral de seu pai em praça pública. Mais por instinto do que por razão, busca, atordoada, o assento. Claramente arrependidos do ato de agressão mútua, pai e filha transferem ao espectador, ainda que sem saber, o papel do constrangimento. Por que aquela câmera estava ligada?

Imagina então se, a cada agressão nossa a um filho, a um irmão ou um companheiro houvesse uma câmera a apontar o indicador para nossa dignidade? Conviveríamos aterrorizados com o monstro do ato que persiste a despeito do nosso arrependimento, de nossa condição humana, dos erros e acertos inerentes ao simples existir. Quem nunca se excedeu, ainda que verbalmente, que atire a primeira pedra. Pensando bem, melhor não atirar. Pode pegar mal...

Por isso, a filha é a primeira a correr em defesa do pai, proibido pela justiça australiana de se aproximar dela em um raio de 200 metros. Sabe que Mikhail Zubkov errou. E daí? Será que ela também não erraria com um de seus filhos? Humanamente, exige que a proibição seja revista. E o tribunal acata.

Somos todos assim. Batemos na vida aqui, apanhamos dela ali. Zubkova prometeu ao pai uma grande atuação que apagasse a vergonha dos Zubkov. No fundo, a ucraniana sabe que, brevemente, Melbourne serão águas passadas de março. Uma furiosa piscina de julgamentos onde, desta vez, a hipocrisia nossa de cada dia levou uma surra da autenticidade.

***
Abaixo, você vê a cena da agressão de Mikail Zubkov à filha. As imagens são da Rede Globo, veiculadas no programa Redação Sportv, do canal a cabo Sportv. Luis Roberto apresenta da redação e é auxiliado, em Melbourne/AUS pelo repórter Pedro Bassan.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Nós do vandalismo

Neste domingo o futebol viveu um dia de PCCs, Marcolas e Al-Jazeeras. Quem ligar as televisões hoje e vir as cenas exibidas exaustivamente do jogo entre Internacional e Grêmio vai ter a impressão de que o esporte preferido dos brasileiros extrapolou os limites da sanidade.

A informação mais importante do episódio lamentável não está no fato, mas na cobertura mais uma vez espetaculosa da imprensa, conferindo importância àquilo que não merece, de fato. Parte ínfima da torcida do Grêmio se dirigiu ao estádio do Internacional com duas intenções claras: depredar o patrimônio adversário e ganhar notoriedade num caso em que o jogo seria, para eles, mero detalhe. Conseguiu, parte por irresponsabilidade dos órgãos responsáveis pelo planejamento do espetáculo in loco, parte por falta de senso comum de nós, comunicadores.

Não é a primeira vez que damos publicidade a bandidos, estejam eles travestidos ou não de torcedores. Fazemos exatamente o mesmo que a polícia e os políticos, responsáveis pela manutenção de uma polis minimamente civilizada. Despreparados para exercer plenamente nosso ofício, dirigimos nossos instrumentos para a direção errada.

O presidente da equipe que recebe os baderneiros transfere a culpa ao dirigente adversário, que vaticina: "meus torcedores foram tratados como animais, encurralados em uma pequena parte do estádio sem direito a utilizar os banheiros". Sem perceber a gafe que comete ao generalizar a torcida gremista, mistura o torcedor-fã ao bandido travestido de torcedor. Bota no mesmo pacote duas classes que, de comum, só têm o espaço que lhes foi designado.


A inteligência policial (expressão que, aliás, virou moda) não destacou efetivo suficiente para a partida, subestimando os alertas dados pelos baderneiros, que prometeram ao longo da semana fazer o que de fato fizeram. O roteiro da tragédia estava escrito. Bastava ser executado e rodado.

Um dos raros momentos de lucidez se deu quando a partida foi paralisada. Parte do estádio Beira Rio ardia em chamas e o repórter Luciano Calheiros perguntou a um jogador gremista algo do tipo "ainda dá para fazer alguma análise do jogo diante disso tudo?". Não era o tipo de pergunta para qual boa parte dos jogadores estivesse treinado para responder. Aliás, apenas treinadores estão treinados para responder algo que não está na pauta diária. Poucos treinadores, diga-se de passagem. Personas non-gratas pela imprensa, como o hoje beatificado Felipão ou os tão temidos quanto exaltados Emerson Leão e Vanderlei Luxemburgo.

A propósito, o jogador em questão, diante da pergunta do repórter, fez a típica "análise do jogo": o time está lutando, a partida está "pegada", etc e etc. Perplexo com a falta de engajamento do jogador na questão - diante de parte do estádio envolto numa fumaça negra asfixiante - Calheiros tentou situar o atleta no episódio. Em vão. Eles não usam black-tie.

O grau de exaltação dos bandidos era proporcional à agressividade dos despreparados policiais e do deslumbramento de fotógrafos e cinegrafistas. Se pudessem, pegariam uma sonora com a fumaça: como é estar asfixiando os torcedores? Outros comunicadores, mais comedidos, optaram pelo caminho simplista da hipocrisia: eles deveriam ter tomado alguma providência. Esses vândalos não podem continuar freqüentando os estádios. O policiamento está inadequado. Até quando ou onde isso vai parar, perguntavam-se tão alienados quanto o presidente de clube que generaliza seu torcedor ou o responsável pela segurança que não percebeu o infeliz desfecho que o episódio iria ter.

Vinda da imprensa, dos comunicadores, a pergunta soa esquizofrênica. Eles são parte do espetáculo até o ponto que lhes convêm. Depois, não se sentem culpados por "publicizar" o fato, como não se sentiram quando abriram infindos blocos de Fantástico e afins para cobrir as ações do PCC em tempo real. Marcola devia estar rindo e pedindo por celular que aumentassem o vandalismo cada vez que o programa abria novo link a um de seus repórteres.

A imprensa está órfã da censura e refém da democracia. Falar em censura na imprensa é como apoiar o nazismo. Pois é hora de dizer: há um tipo de censura que precisa ser considerada. Ela é necessária para que não se dê cartaz àqueles que não merecem. Diferentemente da implementada pela ditadura militar, esta se baseia na defesa dos direitos humanos e numa sociedade não-violenta, a começar pela construção da linguagem. Se vivemos num país em que mais de 90% da população recebe informações via televisão, se reconhecemos que somos, de fato, produtores e formadores de opinião e educadores, por que não direcionarmos nosso olhar e nossa linguagem para a reeducação de nossa audiência?

Não basta pregar o fim da violência nos estádios. Enquanto ajustarmos nossas lentes para as arquibancadas violentas e não abolirmos de nosso futebolês palavras como guerra, batalha, tiro, bomba e afins cairemos sempre na hipocrisia da omissão de quem sabe que pode mudar mas prefere angariar votos para a a audiência. O bom-senso agradece.
***
Abaixo, a reportagem do jogo entre Internacional e Grêmio, com imagens do canal a cabo Sportv.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Como pode um peixe vivo...

O cruzamento de Jorge Luiz é perfeito. Romário se estica, mas perde para o tempo. Fosse bola, estaria sorrindo de orelha a orelha. Como é Peixe, mergulha no vazio e só encontra a rede.

Romário sonhou com gols. Deram-lhe oito. Pediu uma partida para a história. Por sete vezes a rede balançou em apenas 45 minutos. Suplicou emoção. Disputa de pênaltis. Mas que destino é esse que entrelaça o Peixe na ilusão do quase? Que oferta aquilo que um jogo tem de melhor para o artilheiro, exceto para um sonhador agonizante?


Ninguém deu bola para ele. Bola nos pés do meio-campista, cadê Romário? Bola para o lateral, onde está Ele? Os deuses olham, mas até para eles é difícil encontrar o gênio. Definitivamente, 11 não é a bola da vez. Estatura?

Estigma.

Em noventa minutos tingidos de preto e branco, Romário não tem seu sonho revelado. Ao fim do jogo, suas pernas se transfiguram em cristal frágil, a acusar 23 anos de serviço prestado às redes. Desaba no gramado. "Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só,
mas sonho que se sonha junto é realidade."

Cansados da romaria angustiante, seus companheiros de equipe não sonharam com o milésimo. Se pudessem, todos reservariam uma baliza só para que ele realizasse sua fantasia e, finalmente, deixasse todos trabalharem. Mas a grandeza do Peixe não permite a nau cruzmaltina seguir rumo solo. Por hora, o Maracanã será sempre palco do onze. Só depois, dos outros dez coadjuvantes.

Sem forças, Romário vê seu time e seu sonho serem penalizados. O Peixe olha fixo e abatido para as redes. E, como apraz ao destino de sua espécie, não esboça reação.

11 de abril de 2007. No dia da estrela solitária Romário, foi outra que brilhou. Na verdade, uma constelação de 11 homens com brio de general e sorte de gloriosos. O Botafogo segue em busca do sonho do bi. Ao Peixe, resta descansar em sua rede de ilusões e aguardar a próxima janela do destino se abrir.

***
Abaixo, você confere como foi Botafogo 4 x 4 Vasco no Maracanã, pelas semifinais da Taça Rio pela Globo com a narração de Galvão Bueno e comentários de Sérgio Noronha.


quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A violência é um problema ecológico

'Ainda bem que não foi comigo' ou 'a culpa é deles'. Quantos de nós não reagem assim ao abrir mais uma manchete tingida de negro pela violência insana do futebol? Poderia ser na vida, dá no mesmo. O pior de tragédias como as de ontem na Itália não são as mortes físicas, nem as centenas de feridos. Duro é constatar que estamos matando a capacidade de nos indignar. Diante do absurdo, quando muito, resmungamos. Sim, porque não dá para qualificar de indignação a revolta sem ação. E novamente deixamos a vida seguir, o sino da Igreja dar as seis badaladas e o pássaro cantar.


A morte de um policial, após confrontos dentro e fora do estádio de Catânia, fecha as portas no armazém do futebol italiano. Mas que ninguém se iluda: a paralisação do campeonato é uma febre passageira, motivada mais pela incapacidade de discernirmos como, por que ou para onde nos mover do que por um arroubo de civilidade. Já já voltamos a vender e consumir pizzas, como apraz à digna racionalidade de nossa espécie.



Aliás, essa incapacidade de reagir à violência social é sintomática e revela o quão dissociados estamos da dimensão do outro como extensão de nós mesmos. Se não conseguimos ser exatamente indiferentes ao sofrimento alheio, elegemos a hipocrisia ou a conveniência. No primeiro caso, recorremos ao macro: o governo, a polícia, a mídia, as autoridades em geral são incompetentes para frear as mazelas humanas. Em um raciocínio oposto, buscamos na falência do homem a explicação para a derrota diária de nossa cidadania, como se disséssemos que falhamos por natureza e a humanidade é um erro.

Essas duas visões polarizadas nos impedem de reconhecer a mediação com o social - em outras palavras, o cosmo humano. Assim, passamos indiferentes por pequenas coisas, como o vizinho que joga papel no chão, o motorista de ônibus que não pára no ponto, o sujeito que deseja levar vantagem em tudo e até mesmo o bandido que acaba de furtar a pessoa ao nosso lado. Tudo aquilo que não nos afeta diretamente passa despercebido pelo crivo da nossa razão.

O grande desafio da espécie do século vinte e um não é simplesmente calar a boca de bandidos ou sucumbir à fatalidade ontológica. Após milênios de existência, nosso problema continua a ser ecológico. Por isso, convém aproveitar esses pequenos choques de civilização para cada um de nós se perguntar: o que temos feito para evitar que a violência aconteça? A resposta certamente não passa pelas tribunas verborrágicas, mas pela indigna-ação de tratar bem os que nos cercam.
***
Abaixo, as cenas da agressão entre torcidas no jogo entre Catania e Palermo, que causou a morte de um policial italiano. As imagens são da emissora RAI, da Itália.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A opressão da bola

Os brasileiros se cansam de dizer orgulhosos que têm o campeonato de futebol mais democrático do mundo. Sob a égide da emoção com grandes decisões, mas carente de maior senso de justiça - nem sempre quem tinha o melhor aproveitamento levava o título - foram 16 campeões de 7 estados diferentes, de 1971 a 2002. Mas a europeização do modelo administrativo verde-e-amarelo atingiu a fórmula de disputa dos campeonatos, que, desde 2003, passou a ser por “pontos corridos". Pode ter sido o início de uma era de opressão aos clubes tradicionais do país.

Os torneios no modelo "todos contra todos sem final" são implacáveis com roteiristas aventureiros. Sem a final, o final quase sempre é o mesmo. Na Espanha, vencem Real Madrid ou Barcelona, na Itália, Milan, Juventus, Inter ou Roma são os donos do "calcio". Em Portugal, Porto ou Benfica se alternam entre os melhores e, na Inglaterra, Manchester e Arsenal, vez por outra, são incomodados pelo Chelsea ou o Liverpool - apenas para ficar com alguns exemplos.

Não é exagero dizer que o campeonato brasileiro atingiu em 2007 o ápice da concentração de poderes, como que a refletir no campo esportivo um painel social preocupante da nação. Num torneio excludente, aberto a cada vez menos participantes - apenas vinte, nunca antes tão poucos -, muito é dado a quem muito recebeu. São Paulo, Cruzeiro, Santos, potências do centro-sul, mais uma vez rumam firmes para a Libertadores da América, deixando aos demais apenas mais uma vaga por índice técnico. Na parte de baixo da tabela, onde os quatro piores são relegados à segunda divisão, clubes do nordeste sofrem para manter um desempenho competitivo e não caírem. Recém-promovidos, América de Natal e Náutico passaram mais de 70% do campeonato na condição de virtuais rebaixados, e o Sport em nenhum momento vislumbrou o acesso às primeiras colocações.

Em 2003 e 2006, Cruzeiro e São Paulo, dois dos quatro times mais ricos e bem estruturados do país, sagraram-se campeões respectivamente. Há quatro anos, aparecem.ao lado de Santos e Internacional, como os times de melhor aproveitamento na era de pontos corridos. O Corinthians, campeão em 2005 muito mais pela injeção de capital de investidores pontuais do que por méritos administrativos é previsível exceção nessa lista recente. O time na ocasião foi montado com craques dentro e fora das quatro linhas especialmente para justificar o dinheiro mal-batizado do grupo liderado pelo magnata russo Boris Berezovsky, com o aval do hoje investigado Alberto Dualib.

Nesse cenário de ricos e pobres, chama a atenção a derrocada de "velhos ricos". Clubes também do centro-sul, mas que não conseguiram se adaptar às mudanças que exigem o novo cenário, Corinthians, Palmeiras, Botafogo, Flamengo, Vasco, Atlético Mineiro e Grêmio ostentam grande tradição, prestígio político e social nos corredores da Confederação Brasileira de Futebol tanto quanto nos botequins que circundam o mundo do esporte. Só que constituem hoje uma espécie de casta aristocrática perdida no vão entre os clubes de base social sem fins lucrativos declarados e os que se adequaram estatutariamente às exigências do binômio futebol-negócio/ clube-empresa. Em um tempo de menor organização político-administrativa, alguns deles chegaram a orquestrar ações "por baixo dos panos" para se salvarem do rebaixamento. Hoje, têm suas tentativas abafadas pela organização intelectual europeizada, legalmente manifesta no Estatuto do Torcedor, cujo objetivo é garantir transparência administrativa aos clubes.

Vagam à sombra de equipes emergentes, com base de torcedores mais modesta, mas nem por isso menos organizadas. Clubes que souberam se estruturar empresarialmente com rapidez e viram seus esforços recompensados em campo. Paraná, Atlético Paranaense, São Caetano, Goiás, Santo André, Paulista de Jundiaí e Ipatinga fizeram, fazem ou farão em breve o caminho do sucesso, vencendo os tradicionais campeonatos regionais, figurando na primeira divisão nacional ou se classificando para a seletiva Taça Libertadores da América dentro das quatro linhas, como que a refletir a política de austeridade e respeito ao torcedor fora delas.

Ao consagrar o Sâo Paulo virtual bicampeão na era dos pontos corridos, deixar Cruzeiro e Santos perto de uma vaga na Libertadores e relegar a segundo plano equipes como América, Sport, Náutico, Atlético Mineiro e Corinthians, o Campeonato Brasileiro 2007 acende o alerta nos clubes para a necessidade de se organizarem dentro e fora das quatro linhas e gerarem receita para seus cofres, independentemente de seu peso histórico e social. Por outro lado, sinalizam a contaminação (positiva ou negativa?) do futebol, como que a indicar que os parâmetros de exclusão social e econômica do país chegaram ao maior patrimônio simbólico e cultural de classes menos favorecidas do país. Sem a emoção das decisões e vendo seus times de coração sucumbirem ao peso do futebol europeizado, até quando esses torcedores farão dos estádios território de expurgo de frustrações diárias e aspirações de um improvável sucesso pessoal?

Como punição e prêmio, esses clubes ora podem ver a derrocada de seu pavilhão, fazendo eclodir a fúria de fãs acostumados com a glória e os títulos de outros tempos, ora escreverem - definitiva ou pioneiramente - seu nome na galeria dos campeões brasileiros do século XXI. Galeria que tem hoje no São Paulo seu grande modelo vencedor e uma centena de outros clubes à sombra de um passado que parece não querer voltar tão cedo.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

De La Paz a Shizuoka, a redenção do Deus que é brasileiro

Quando Owen, aquele inglês mirradinho com jeito de moleque brasileiro, avançou sozinho em direção ao gol de Marcos, me veio à cabeça um certa sensação de já vi essa cena antes em algum lugar e alguma época. Difícil àquele momento me recordar quando isso ocorrera, mas ainda que tentasse o esforço mental, a bola do garoto britânico acariciando cinicamente a rede brasileira tornaria essa tarefa inglória.

Vazio.


Durante uns quinze minutos, essa sensação carente de explicação – porque carente de si própria – se apossou de todos os brasileiros presentes de alguma forma à Shizuoka, província japonesa onde Brasil e Inglaterra travavam o mais esperado confronto da Copa nas quartas-de-final. Jogadores, torcedores, pessoas ligadas à partida apenas pelo afeto e umas centenas de milhares de cabos de fibra ótica, enfim, todos paralisados na contemplação dele: o vazio.


Vazio de idéias, vazio de futebol, vazio de tudo. O que se viu nos minutos que se seguiram ao feito trágico de Owen foi o desfile da inoperância e burocracia de um futebol tediosamente tático, objetivo, quase-perfeito. Onze homens pálidos de idéias como suas camisas e outros onze amarelos como a do uniforme que deixaram de usar em detrimento de um certo azul que pouco parecia inspirar.


E eu continuava no meu vazio de idéias, marcado no espaço por uma idéia vaga de uma falha irrecuperável de um certo zagueiro Lúcio, que se deixara abater pelo vazio alguns décimos de segundos antes que os demais e no tempo pelos minutos que simplesmente insistiam em passar. O estádio estava cheio. Cheio de gente, cheio do futebol que maltratava a grande dama do espetáculo: a bola. O campo estava vazio. As tribunas de honra estavam vazias, à espera de um simples aventureiro que soubesse tratar com carinho e afeto aquele objeto redondo cansado de apanhar. O estádio estava vazio.




O dentuço flertou a dama. Ela pediu: vem, me conduz; as mentes estão vazias, o campo está vazio; o gol está vazio. Assim ele, em ato de extremo cavalheirismo cortejou-a cuidadosamente pelo tapete verde que dava no altar de um certo Rivaldo, sujeito de pernas compridas e desengonçadas. E foi este quem gentilmente celebrou o casamento da bola com sua razão de ser: o gol.

Estava feita a justiça. O homem de preto emitiu o som do despertar. Tudo igual. Intervalo. Quinze minutos para a libertação do vazio, a volta à realidade.


Mal me dou conta do reinício do espetáculo. Dentro do quadrado colorido apenas uma esfera, um retângulo e alguns borrões: uma barreira e um sujeito cabeludo sob um poste. Nada que aquele dentuço, que antes conduzira sua dama ao altar, não pudesse agora sim efetivar com maestria e genialidade. A dama sai de seus pés, parece igualmente querer sair do palco. Quando todos se preparam para o fim melancólico do ato, eis que ela volta dissimuladamente em uma trajetória de rumo perfeito. O ângulo direito da meta de um atônito sujeito de nome Seaman. Justa e perfeita; perfeita e justa.


O goleiro inglês não quer acreditar no que vê e para mim tudo começa a fazer sentido. O gol de Ronaldinho é a chave que desvenda o mistério da falha de Lúcio e da cena que eu jurava ter visto antes.


La Paz, eliminatórias para a Copa. Último ato do que foi o maior martírio da história da seleção brasileira rumo a um mundial. Jamais havíamos sofrido tanto para jogarmos a maior competição do futebol internacional. Naquele três de novembro de 2001, uma escorregada de um certo zagueiro brasileiro prenunciou a tragédia de La Paz, que se consumaria com um segundo gol que iria morrer no ângulo direito do gol de Marcos. Dois a um. Perdíamos para a Bolívia. Em vão nossa moral, nossa história, nossa camisa. Precisaríamos derrotar a Venezuela na última partida ou não cruzaríamos a barreira do sol nascente. O placar de três a zero contra os venezuelanos não apenas acabaria por nos classificar à copa do oriente, como iniciaria a série invicta de partidas da seleção.

O brasileiro esteve sentido, magoado, ferido. Durante esses sete meses que separaram La Paz de Shizuoka viu seu posto de número um do mundo ruir, acreditou que podia menos. Deus seria mesmo brasileiro?

O dentuço esvoaça suas tranças. Abre um sorriso terrivelmente simpático e honesto: Ele, Ele é brasileiro sim. Como fazer aquela cobrança despretensiosa e sem rumo entrar? Como fazer a gravidade do planeta dobrar e sugar a bola para as redes com tamanha violência e decisão. Ele, ele, eles, o estádio, a torcida, nós. Todos acordam e ouvem a vós que pela primeira vez se ouve ecoar dos céus do oriente: os azuis reagiram; venceram; a competência é novamente brasileira; o bom futebol é novamente brasileiro; Deus, mais uma vez, é brasileiro.

***
Abaixo, os melhores momentos de Brasil 2 x 1 Inglaterra pelas semifinais da Copa do Mundo de 2002, com imagens da Rede Globo, narração de Galvão Bueno e comentários de Paulo Roberto Falcão, Walter Casagrande Jr. e Arnaldo César Coelho.


quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Paixões em Valência


Foi uma ligação simples, mas avassaladora.


Dois gênios. Ele, liberal, sempre à esquerda. Ela, reservada, mais à direita.

Num golpe do acaso, se viram atraídos em Valência. Moravam longe, mas nada que aquela ponte não resolvesse.

Aos poucos, perceberam que se completavam. Ele tinha a oferecer o que preenchia seu vazio existencial. E não tardou para encontrarem a química ideal: elétricos de tão radiantes!

Mas relação, sabe como é. Ele acha que o laço é forte, ela se faz de desentendida e, por tabela, começam a sentir falta de algo.

Ele, sempre confortável em sua pseudo-doação, mal percebe que ela precisa de algo mais.

A união começa a se desgastar e logo ele se dá conta: há um outro elemento na história!

Começam a discutir na ligação: "Quantas pontes atravessei para te ver? E, de mais a mais, nos completávamos em uma química sólida!"

"De mais a mais, vírgula", ela retrucou. "E tampouco podemos dizer que é uma relação sólida", desdenhou.

"Mas você me traiu com esse mau-elemento!", esbaforiu irritado.

"Igualzinho a você. Aliás, vocês H são todos iguais..."

"Aqui, Ó!"

A instabilidade atingiu em cheio o núcleo da relação e tudo já parecia ir por água abaixo. Impossível ficar neutro diante de tamanho constrangimento.

Aí lhe ocorreu a ideia de gênio...

"Vá. Abra, sua ingrata.."

"Vê lá o que vai ser essa caixa."

"Já disse que pode abrir..."

Incrédula, desfez o mistério. E qual não foi a surpresa...

"Um anel! Que lindo!"

Foi a chave para reatar a ligação. Ele prometeu-lhe uma vida mais estável e dedicada dali em diante. Na semana seguinte, foram ao padre que, benzeno o anel, proclamou:

"Sejam felizes para sempre!"

E a velha Valência ficou pequena para eles dois...

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Por onde partem os corações


Tudo deveria estar bem, afinal fora uma decisão madura, consciente, segura.

Mas nem sempre as coisas funcionam na prática como se pensa. Ele continua muito, mas muito angustiado por tudo o que vem acontecendo. Não agüenta mais a escuridão, a clausura que se instalou de fora para dentro e de dentro para fora em sua nova casa.

Não agüenta ter de pensar que há um ano curtia sua esposa, com quem tinha uma casinha linda, com quintal para cuidar, comida para fazer, compras do mês, tanta coisa dessas simples, que passavam batidas mas que agora ele vê como fazem falta... Por isso, basta pensar um segundo. Basta olhar uma foto que seja de celular, ali, pequenininha, para as lágrimas caírem dos seus olhos ao perceber que deixou escapar por seus dedos um momento tão especial da sua vida.

Assim, nem forças encontra para manter um segundo relacionamento. Achou que tivesse tomado uma decisão segura de dar chance a alguém que o amasse, mesmo que ele próprio não correspondesse. E lá foi uma menina nova, coitada, pagar o pato dessa incapacidade dele de pensar em outra coisa que não tudo o que lhe escapou pelos dois rios que desceram e ainda descem dos seus olhos para desaguar na lagoa de um passado recente.

Não tem coragem de pensar como seria voltar. Não consegue sequer passar perto daquela ilha. Longe dali, sua vida se automatiza, ele pouco a pouco vira escravo de remédios novamente, sente sono demais, sai de menos, apenas faz canalizar energia para o trabalho, sua válvula desregulada de escape. E quantos não querem um trabalho... Mas ele não quer só trabalho. Não sabe se basta para ser feliz.
Está corroído porque ainda ama alguém que o ama mas não tem coragem de dizer a si própria que pode, deve e quer tomar uma decisão definitiva.

Ele faria tudo para ter de volta o sorriso sincero no rosto, a alegria de viver, fosse brigando daqui, discutindo dali, mas amando. E ele não sabe o que é amar desde quando ela virou as costas para ele e para a casinha dos dois. E se foi.


No fundo ele sabe que nem sempre as coisas correm como se quer.
Por isso, se limita a tocar a vida, mesmo sem ser tocado por ela. Segue um bom trabalhador, mas um ser humano ferido. Não foi só a casa, não foi só a companheira, não foi só a família. Foi um menino-homem de 23 anos que, do dia para a noite, descobriu que não podia mais jogar tênis, ir do Flamengo ao Leblon de bicicleta, jogar futebol aos domingos, correr no aterro, curtir a praia.

Tudo passou a ser doloroso desde 2004. Uma dor que não passa. No máximo, se alivia. Mesmo a esposa, que lhe jurou fidelidade, zelo e compaixão,
um dia ela se cansou. Como a antiga namorada se cansara. Como ele próprio vem se cansando. Afinal, por mais cativante, por mais amoroso e bacana que tente ser com o mundo, há um momento em que conviver diariamente com esses problemas se torna um fardo muito pesado a todos. Assim, vai deixando aos outros pegadas na areia de que ele não quer reagir diante das ondas da vida. Mas alguém faz idéia do esforço que é um simples caminhar na praia num dia de sol?

É sentir falta de ar, enjôo, tontura. Depois, ir ao médico para descobrir que apenas a pressão está um pouco alta. Mas, vá lá, deve ser ansiedade. Então, tome remédio para ansiedade, tome remédio para depressão. E vem o sono. E vai a vida. Para onde vai a vida? Não sabe.

De uns tempos pra cá, só sabe caminhar olhando para o chão e desviando dos obstáculos. Rogando a Deus proteção para que uma luz apareça, para que acorde desse pesadelo que começou em março de 2004, em sua primeira crise séria, e não sabe que dia vai terminar.

Por isso, ainda assim agradece a Deus por cada dia em que pode se levantar e celebrar a vitória da vida. E segue o rumo que seu coração descompassado lhe ordena.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O maior artilheiro do mundo

* Mais um texto antigo, publicado ano passado no meu blog. Cai bem, no entanto, a todos os botafoguenses já "viúvos" do matador André Lima. Quem sabe o protagonista da história não venha a ser o próximo artilheiro do Fogão?


O Guiness Book registra o australiano Archie Thompson como o jogador que mais marcou gols em uma só partida. Nas eliminatórias da Copa de 2002, a Austrália fez 31 a 0 em Samoa Americana. Thompson anotou 13 e entrou para a história do futebol. O recorde mineiro de gols em uma só partida pertence a Ninão, ex-jogador do Cruzeiro. Pelo Campeonato Mineiro de 1928, o centroavante fez 10 gols contra o Alves Nogueira, de Sabará.

Porém, tanto Thompson quanto Ninão tiveram recentemente suas marcas batidas. O maior artilheiro de todos os tempos, em um só jogo, é Ricardo do Fardo. Pouquíssimos devem conhecê-lo. O time pelo qual ele atua disputa apenas o Campeonato Rural do pequeno município de Tocantins-MG. Ainda assim, o seu feito não deixa de ser histórico, digno de documentação nos papiros do futebol.

Na partida válida pelo Ruralzão-Tocantins 2006, Ricardo do Fardo marcou todos os gols do Guarajá contra o Só Show. O Só Show levou um verdadeiro “showcolate”. A partida terminou 21 a 0. “Hum? Então o cara marcou 21 gols?”

Deveras!

De acordo com Marquinho Cassiano, companheiro de time e testemunha ocular da façanha do artilheiro, nenhum jogador do Guarajá, além de Ricardo, fez sequer um golzinho. Marquinho ressaltou que Ricardo prometera aos defensores do Só Show - time sem chances de classificação no campeonato - um fardo de refrigerantes, caso eles facilitassem sua vida. Por isso, sem contar o espaço na história, Ricardo ganhou também um apelido.

Assim como grandes craques do futebol brasileiro [Jair Bala, Roberto Dinamite, Didi Folha Seca e Jorginho Carvoeiro], Ricardo do Fardo não poderia atingir a fama sem um pseudônimo emblemático. O recorde pode ser contestado devido à condição de atleta amador de Ricardo do Fardo. Sem considerar ainda o fardo de refrigerantes que ele pagou em troca de um refresco dos zagueiros.

Mas quem é que, mesmo naquela pelada de fim-de-semana, já marcou 21 gols em um só jogo? Com fardo ou sem fardo, é tarefa das mais tortuosas. Enquanto não aparecer um que tenha marcado mais de 21 gols em 90 minutos, Ricardo é quem carrega o fardo de ser o maior artilheiro do mundo.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Ao som da bola

* O texto abaixo foi postado há um ano no meu blog e adaptado para o Nem dou bola. Momento bem propício para a estréia neste espaço e para essa postagem. Afinal, os Jogos Parapan-americanos já estão batendo à porta.

---------------------------

O que faz do futebol o esporte mais popular do mundo é justamente a sua praticidade. Não são necessários equipamentos complexos, nem mesmo aptidão para o esporte. Uma bola qualquer, um espaço delimitado e demarcações para as duas balizas. São os requisitos básicos para bater aquela tradicional “pelada”.

E, nessas condições, costumam surgir os melhores jogadores; nos subúrbios, nos campinhos de terra ou de várzea. O futebol não é exigente. Em qualquer lugar, quem quiser pode jogar.

Então, como distinguir um bom jogador dos demais?

Velocidade? Força física? Habilidade? Perspicácia? Visão de jogo? Mas quem disse que é preciso visão para jogar bola?

O "futebol de 5" é prova concreta de que a bola rola para todos. A modalidade é disputada por deficientes visuais e segue basicamente as mesmas regras do futsal. A quadra é adaptada para 40m x 20m e as partidas disputadas em dois tempos de 25 minutos.

As equipes têm quatro atletas de linha que jogam vendados. O goleiro enxerga normalmente. No entanto, ele só pode atuar em uma área reduzida, de 2m x 5m. Dentro da bola há um guizo, através do qual os atletas a localizam em quadra. Eles são orientados também por um “chamador” - técnico da equipe – que fica atrás do gol adversário. Por isso, nos jogos do futebol de 5, costuma-se pedir silêncio aos torcedores, que geralmente só vibram na hora do gol.

O Brasil é o atual campeão paraolímpico da modalidade. A seleção brasileira ganhou a medalha de ouro nos Jogos Paraolímpicos de Atenas, em 2004, após vencer a Argentina na final - se bobear, até em futebol de botão os argentinos também são fregueses. Medalha que o país ainda não conseguiu ganhar em Olimpíadas.

Os brasileiros são favoritos nos Jogos Parapan-americanos Rio 2007, que começam na semana que vem, de 12 a 19 de agosto.

Assista aqui a um vídeo da Associação de Esporte e Cultura para Deficientes Visuais, a URECE. A Associação trabalha no estado do Rio de Janeiro incentivando o esporte e promovendo o acesso à cultura por parte dos deficientes visuais.

Dá para notar que nem mesmo a falta da visão impede a prática de um futebol bonito de se ver.