segunda-feira, 30 de junho de 2008

Cantiga de despertar

Ele saía de um dia longo de trabalho. Embora cansado, não se sentiu mal, como antes. Tomou o táxi e foi subitamente tomado de uma sensação de paz. Uma paz indescritível, que só lhe seria revelada minutos depois, quando chegaria a seu quarto.

Instinto. Tomou da folha de caderno e começou a escrever o que segue. Sua cabeça estava leve e suas mãos incessantes. Não pensou duas vezes. Aliás, nem três, nem quatro. Apenas fez escrever, sentindo que uma força incontrolável invadia sua alma.

Eu não precisaria te escrever, mas sinto que devo. Acalma-te, meu filho. Tu não perdeste nada. Tudo o que passas na vida são pegadas de existência que ganhas em tua alma. Não te afliges com a dor que é passageira. Vieste com uma missão grande a este mundo. Nada que vá revolucionar teu habitat, mas a Missão de tua reforma íntima. Ela começa no desapego. E quantas lições os anjos do Senhor não vos tem enviado. A cada perda que dizes é ganho de vida. Acorda! Sofrimento é calo na alma. Isso é aquisição de longevidade, de décadas, de séculos. E bendiga a Deus por "sofreres" tanto agora, pois só assim podes desentorpecer tua visão e teus sentimentos. Deixe-se ser tocado pelo tempo da vida, pelo Belo de cada hora, de cada segundo. Não te vicies ou apegues a coisas vãs. É mal que tu mesmo recebes e aceitas.


Viveste, pela misericórdia, uma segunda oportunidade perto da natureza e do bucólico. Pedias honestamente isso em teus son hos. Sofrias com a ausência da figura da Mãe onipresente, como fora em tua infância. Concedemo-te as duas coisas por um período. Mas não te iludas, meu filho. Tratava-se apenas de descanso a teu corpo e refrigério a tua alma. Necessitavas deixar num lugar belo e cheio de boas energias a criança que não devia seguir contigo. É uma criança apegada, infantil, ciumenta, pedinte. Não a criança da alegria, da pureza e da caridade que devem persistir em nós. Acredite: tentamos te desligar dessa criança aos poucos, mas não foste capaz de aceitar. Fosse em casa ou no trabalho, estava lá a criança obssessiva. E, filho, quem pelo mundo é obssessivo, pelo mundo é obsidiado. De que adianta se abster dos prazeres mundanos se isso te mantém torpe diante do mundo? Se desconfias, se julgas, se vacilas...

Sê firme. No erro ou no acerto, mas jamais deixe de ser uma alma fluida. Aja com naturalidade, pense com naturalidade. Não reprima nem antecipe. Viva mais e melhor porque em paz constante com tua consciência. Cada um já cumpriu sua missão. Aceite isso de coração. Tua esposa te ajudaste e se ajudaste, mas era tempo de você crescer. Tua casa te abrigaste, mas era tempo de sair. E voar. Liberta-te. Saia, veja o Sol. E perceba como teu coração não depende de ti para pulsar. Basta estar em harmonia com a energia de Deus e do teu Eu-profundo. É hora de estar só para estar com todos. De aceitar a morte para viver o pleno. Deus vai tirar essa chaga do teu peito que se chama opressão. Deus está em ti. Seja mais forte e persistente do que teus pensamentos vãos. E que o balé eterno da natureza habite teu coração no compasso eterno do Criador. Que ele te abençoe agora e sempre.

Teu anjo da guarda

Ainda tomado por aquele sentimento inexplicável, ligou para sua mãe, que lhe confessou minutos de pois: sabe que tua avó acabou de me ligar dizendo não saber muito bem por quê? Escreve este texto que você recebeu no computador que vou mostrar a ela.

Em seguida, foi a vez de seu pai ler. Achou a mensagem coerente, bela e sugeriu que fosse compartilhada, afinal quanta gente não poderia precisar também daquelas palavras...

Aí está. Almas libertas se gostam e se compartilham. Porque nada aqui é só meu ou seu, esse texto é nosso. Como uma cantiga de despertar.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Da arte de congelar o tempo

Teu sorriso tem a medida exata de dez anos.
Faz tua face reluzir e o tempo parar enquanto te calas.
Nele, carrega o enigma esfíngico de teu ser.
Flor que se arma qual escudo impenetrável: mas como é doce contemplá-lo...

As palavras que de tua boca saem não ferem. Podem ser altas, sussurrantes, raivosas ou errantes. Mas fluem numa sinceridade tão clara como o caráter que delas emana.

Parece que essa angelitude rebelde te absolve dos pecados mundanos e dos julgamentos alheios, porque, se entoas o cântico da fúria, teu olhar descansa em mar aberto e sereno.

Ah, teu olhar... honesto como tuas palavras.
Fiel como teus pensamentos renascentistas.
Cada sílaba desmente a anterior, porém unidas soam um concerto lírico, desconcertante e único.

Cada momento contigo é singelo. Teus gestos regem passado, presente e futuro.
E se a dor ameaça feri-la, lá está ele novamente:
O sorriso que nem o tempo pode deixar de reverenciar.
A nós, andarilhos de tua estrada infinda, resta desfrutá-lo e aplaudir em silêncio.

Como é bom reencontrar essa voz doce que deixa palavras noutro plano.
Esse ser mutante, instável e suavemente instigante.
Rico poder te reconhecer pela força do Verbo, que poucos têm compreendido
E por isso mesmo lançado dardos contra teu peito aberto.

Teu trabalho e tua causa redimem teus deslizes.
Te tornam grande, sensível e guerreira.
Apóstola do bem, oferta a teus semelhantes a alegria que proporcionas ao Criador,
Quando te vê defender implacavelmente o Amor, ainda que às custas da guerra,
Sob esse sorriso puro que te traz à Terra.

Segue-te, Ana, tá?
Teu desejo será sempre uma ordem para a natureza que por sua filha se encanta.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Referendo Interno

Sim, eu voto pelo desarmamento.

Desarmem-se as consciências dos preconceitos sem sentido, as famílias do falso moralismo, os conceitos engessados que se perderam no tempo, a sociedade dos pensamentos ocultos, as ofensas desumanas que não cabem dentro de cada um.

Eu voto pelo desarmamento da velha política, dos esquemas sujos que envergonham o país. Desarmem a corrupção e seus autores que nos enganam, matando nossos sonhos e assassinando ideais de um país mais justo.

Meu voto é pelo desarmamento das ruas e seus fuzis barulhentos que disparam ódio, filhos da pressa, irmãos do stress, netos de um despotismo nada esclarecido.

Desarmem-se as bandeiras que sangram de ira, as línguas que destilam inveja, os corações que pulsam mágoa. Desarmem quem insiste em abrir as veias de nossa nação, os que se fartam da falsa riqueza e da pretensa nobreza. Atear fogo no lixo da sociedade? Atirar pedras nos que já cambaleiam?

Voto pelo desarmamento dos casais. Deponham os revólveres do ciúme, as pistolas da vingança, as carabinas do rancor. Sejam suas munições beijos; os tiros, afagos; a arma, o perdão. Calibre? O amor e suas balas que penetram sem perfurar.

Desarme-se a continuidade das cruzadas, basta de novos gladiadores, chega de fogueiras e caça às bruxas. Desarmem as fantasias de super-heróis, os bandidos que só são bandidos e os mocinhos que só são mocinhos.

Meu voto é pelo desarmamento do medo, da paralisia que impregna as cidades, da desconfiança perante o desconhecido. Quantas vezes não fabricamos armas e as entregamos de bandeja nas mãos do algoz, ainda que sejam eles nós mesmos...

Eu voto sim para a franqueza, não para a hipocrisia; sim pelos direitos que sabemos impor, não pelos deveres que aceitamos adquirir.

Meu voto é duplo, jamais nulo. Sim e não. Nascimento e morte. Respeito e reverência às naturezas. A minha, a tua, a dele, a nossa, a vossa, a deles.

Ah, se me fosse lícito o voto multicor... cheio de opções pra escolher algumas, pleno de flores para abastecer minha roleta russa. E poderia distribuir tiros de bom dia, como vai, precisa de ajuda?

Sim, te ajudaria. Não, não cobraria. Apenas faria atirar pro alto rojões de felicidade sempre que a sentisse perfurar nossas almas enquanto te ofereceria deliciosas bombas de chocolate pra agradar teu dia. E se meu peito explodisse de raiva ou ruísse de tristeza, fecharia os olhos
e contaria até dez, cem, mil. O quanto fosse preciso pra me desarmar e seguir de alma lavada.

Bom seria crescer e ver bolas de tênis não mais reféns de pés escaldados pelo asfalto da metrópole. E as armas voltando a ser lápis, cadernos, livros e corações desarmados; bocas sorridentes e olhares sinceros engatilhados tão somente pra disparar felicidade aos quatro
ventos...

Ainda não podemos votar por isso. Esse referendo passa ao largo de nossa pretensa genialidade.

domingo, 18 de maio de 2008

Cantigas de ninar I

Versos que encantam pela sonoridade, por adormecerem nossos corpos ainda na primeira idade, mas que entram e saem por nossos ouvidos como as brisas que assopram nosso dia a dia. Por onde andam nossas cantigas de ninar?

Pouco ou raramente temos a chance na vida de refletir sobre aquele punhado de palavras ditas por nossos pais, tios ou avós. E perceber sua sabedoria ímpar, ora imersa em códigos que passam inocentes por nossos sentidos, ora bem ali em nossa frente, porém guardada num passado que não acessamos mais.

Talvez por nos ocuparamos com tantos pequenos porquês de nosso mundo sério de gente grande, cantigas virem poeira, como as que cercam os livros de infância que ano após ano jogamos fora em nossas arrumações domésticas.

Uma pena que tão cedo esses legados despretensiosos tenham sido substituídos por fórmulas e teoremas nas salas de aula da vida, omitindo-nos a contribuição de nossa cultura e de quem mais deseja o nosso bem-estar.

Hoje acordei com uma dessas músicas na cabeça. Muitos devem lembrar-se dela.

"Se essa rua, se essa rua fosse minha... eu mandava, eu mandava ladrilhar... Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante... só pra ver, só pra ver meu bem passar. Nessa rua, nessa rua tem um bosque... que se chama, que se chama solidão... Dentro dele, dentro dele mora um anjo... que roubou, que roubou meu coração. Se eu roubei, se eu roubei teu coração... tu roubaste, tu roubaste o meu também... Se eu roubei, se eu roubei teu coração... foi porque, só porque te quero bem".

Quanta coisa singela e ao mesmo tempo necessária... quantas previsões... Nas ruas que são nossas teríamos aprendido sobre limites, atalhos, responsabilidades e o cultivar para cativar. No bosque dos anjos ladrões, saberíamos que inveja, ciúme e insegurança andam lado a lado. Que possuir não é ter verdadeiramente. E, finalmente, que estar com não basta para duas almas serem irmãs e libertas.

Ainda assim, rumamos por estradas tortas, enladrilhadas de cacos mal-juntados de experiências. Não importa o quanto erramos, mas em quantas dessas vezes o fazemos com vontade de acertar.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

De volta a Marte


No vazio do não, a razão pediu ao coração que sentisse paixão
Doce ilusão...
Paixão não existe onde pulsa recordação
Nobre tempo, senhor da vida, pai da perfeição

Quem diria, o perdão?
A transformar fel em mel, pedra em algodão
Mágoa em permissão
A fazer o sorriso emergir da sombra hostil de palavras vãs
Para espalhar luz de volta a almas irmãs

Quem diria, a comunhão?
A resgatar risadas puras e abraços abertos
Lágrimas de olhares sinceros
Carinhos de amantes confessos
E lembranças que de alegria transbordam em versos

Bem-vindos de volta os de Marte
Planeta vermelho, antes distante, agora tão perto
Que em minha esquina não é mais deserto
E em meu futuro faz juras de amor eterno

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Céu de prata


Cansada de vagar sob os olhares do cruzeiro, ela voltou sua alma para os céus de prata. De um lado, descobriu seu encanto, do outro percebeu que encanto também se cativa.

Assim, aquela menina morena voltou à sua pátria, mas não sem antes transbordar na alma uma felicidade celeste.

Amor aos montes, em conta-gotas, de prata e de praia. De vento frio e céu do oriente que dali por diante a orienta.

E este dom sacrossanto? A glória. Nos céus do amor, a glória é cristã. E fiel, porque pronunciada com alma e entusiasmo sublimes, deitados eternamente em berço esplêndido.

Quem negará que é amor o olhar errante pelo horizonte que nem daqui se avista? Pois que horizonte seja lembrança, confiança e esperança. Passado, presente e futuro em um sorriso doce e singelo de Monalisa, a desafiar os que pensam que só se amam os que sempre se tocam.

Porque tocar corações diariamente com palavras também é afagar almas banhadas por sonhos de prata. E ela aguarda com paciência o dia que prata virar ouro e escorrer por seus dedos a provar que valeu a pena cultivar amores cristãos.

domingo, 27 de abril de 2008

Na estrada


Na estrada...
Só ou acompanhada?
Tudo ou nada...
Ser amada?

Teus olhos contemplam o mar pálido
E sob o coração jaz céu esquálido
Faz-se noite o dia
E tristeza a alegria

O luar no dia da noite é luz
Mas na noite do dia não reluz.
A tristeza, companheira do céu...
Mel ou fel? Léu.

Ah, índia...
Queres a liberdade da natureza
A simplicidade e a beleza
Quem roubou tua pureza?

Queres ser como o rio
Seguir livre teu curso,
Driblar pedras anos a fio
Não te importas o discurso.

Tentas, em vão, reter o passado
Mas do coração, só o enfado
Recordação... Tudo acabado?

Versos minguam como o escuro que te acolhe
A aurora vem
Mas, pra ti, a noite é além.

E reserva teu sol para o trabalho,
Enquanto procuras atalho
Para trazer de volta a lua
Só tua.

De volta ao caminho, a rua.
Distante carinho,
Amor que floresce e esquece,
Paradoxo de uma vida que não aquece.

E, no inverno, persiste o amor
Como na primavera a flor
No verão o calor
E no outono a dor.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Estações da alma



Primavera. Deram-lhe um jardim de flores do campo para cuidar. Sem nunca ter sido jardineiro, aceitou a missão, embora soubesse que esse tipo de flor dispensava grandes cuidados para prosperar.

Mas tanta empolgação com a tarefa fez com que, dia após dia, lá fosse ele a regar a terra, retirar as plantas que murchavam, plantar novas sementes, de modo que, em poucos meses, o quinhão sob sua tutela chegava a brilhar de tanto amor.

Verão. Em um dia de muito calor, sentiu-se mal e resolveu descansar em vez de cuidar do jardim. Pensou que não devia fazer tanta diferença, afinal, estava tudo tão perfeito... um dia a mais, um dia a menos, que mal faria.

Acostumou-se com a idéia de nem sempre dar bom-dia às flores do campo. Dividia com a natureza a tarefa de regá-las, afinal, para que fazê-lo se logo viriam as chuvas? As plantas murchas, a brisa do fim-de-tarde se encarregaria de tirar. E as sementes, estas talvez nem fossem tão necessárias assim, pois que haveria insetos a transportar o pólen de um lado a outro.

Ocorreu-lhe que flores do campo sabiam se virar sozinhas, senão nem teriam esse nome. Não eram como as rosas ou violetas que, frágeis, necessitavam de cuidados diários de um jardineiro. Sem se dar conta, começou a tirar seu time de campo. E, em poucos meses, as flores ficaram órfãs de pai e passaram a depender apenas da mãe natureza.

Outono. A chuva, antes fina e constante, agora alagava o jardim abandonado. O vento, até então brisa suave, não raro soprava furiosamente ao fim da tarde, arrancando as flores pela raiz. De belo só o sol do dia seguinte e o céu limpo da manhã, a iludir o jardineiro sobre o bom encaminhamento de sua missão.

Inverno. Finalmente resolve dar bom-dia às flores. E sente o frio cortar sua alma. Em vez do brilho, do colorido habitual, encontra um punhado de terra devastada. Já desacostumado a semear, regar e podar, se vê imóvel diante do que se passa à frente de seus olhos. Na verdade, seus olhos só fazem derramar lágrimas de quem se lembrava do jardim florido e reluzente da primavera, trocado pela imagem de um inverno que acabou por congelar seus sentimentos.

Percebe que perdeu a amizade com o tempo. O tempo das horas e o tempo do clima. De qualquer forma, o tempo. E tem de reconstruir tudo. Mas não é primavera e nem ele sabe se é jardineiro. Agora só lhe cabe a certeza de que cuidar é mais preciso que contemplar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Felicidade em movimento

Anda, anda!
Andar por quê?
Andar pra quê?
Pelo mundo afora.
Pela vida, ora!

Ao fundo, a voz canta
Teu corpo levanta
Movimento se encanta
Energia que espanta!

Os olhos espelham alegria
Quanta magia!
Por eles, um novo dia se cria


Corre, corre!
Correr pra onde?
Correr de quê?
Da tua angústia, dos teus medos...
Pra tua felicidade!

Vamos, um, dois, três, dez, cem...
Vai além, cativa alguém!
Faz um bem...
A alma do corpo refém? Nem vem?
Saudáveis apenas, amém!

Corta o quê? Pula pra onde? Chuta daqui?
Sim, daí!
A vida é pra sorrir
Corta a tristeza onde vir
Pula pra outra, se o coração pedir!

Profissionais do corpo que afagam as almas,
Ensinam, aprendem, praticam
A vocês, as palmas
De uma platéia que chora suor,
Transpira problemas de cor
Mas sem perder o sorriso ao redor

Vocês, maestros da batuta invisível,
Silenciem por um instante as vozes
Pra que nossas almas digam velozes
Caminhar é possível
Viver, incrível!

Quatro horas que mudaram o mundo

Interessante perceber como algumas tecnologias vão permitindo descobertas geniais. Acabo de me convencer que outras “ologias” – as mais ocultas - estão erradas, precisam ser revistas, deu a louca nos astros ou eu estou ficando louco. Explico.

Outro dia estava navegando por um desses sites conhecidos de ‘expansão de círculos’ (a última vez que tinha ouvido falar nisso era nas aulas do velho Dionísio, que conseguia, com maestria, conduzir o giz pelo quadro negro desenhando uma circunferência perfeitamente curvilínea). Mas dizia eu da minha navegação virtual quando me deparei com uma “comunidade” absolutamente única: o dia do meu aniversário!

Sim, depois dos “eu odeio algo ou alguém” e “fora fulano ou cicrano” criaram uma comunidade decente: o dia do nascimento. Imagina... depois que o primeiro sujeito teve o arroubo de genialidade foi copiado por outros 365 (imagino que a mais interessante das 366 seja a do pessoal de 29 de fevereiro, que só pode assoprar velinhas de verdade a cada 4 anos, mas sigo curioso pra saber quando o tal gênio nasceu...).

Mouse vai, clique vem, e eis que alguém surge com o tópico tão esperado, mas que ninguém havia tido coragem de postar: você é de que ano? Hum... senti um arrepio na espinha e aquela sensação de frio na barriga incontrolável. Finalmente os dezessetanos de dezembro saberão quando nasceram seus pares de velinhas.

Minha mãe sempre gostou de astrologia. Nunca fui muito metido no assunto, mas algo me levou a concluir que aquela seria a chance derradeira de saber se os “ólogos” da vida estavam certos. A primeira a se voluntariar – e sugerir o tópico - foi uma simpática senhora de óculos escuros. Pensei: será esse meu futuro? Ser um simpático senhor míope charmoso que fica navegando na Internet com idéias geniais sem muita utilidade?

Antes que me ocupasse da resposta, outras manifestações começaram a aparecer. Em tese, deveriam ser sucintas, afinal, a pergunta era bastante clara. Mas como os sagitarianos são vaidosos! Cada um fez questão de dar pitaco na sua própria resposta. Eis que na terceira tacada chega a Marisa e emenda: “tb sou bem experiente!!!!” Taí outra característica nossa: não assumimos que envelhecemos, aí velhice vira experiência, sabe como é... (ah, e as quatro exclamações bem espalhafatosas ao fim da frase não seriam de se espantar em se tratando de alguém mais jovem... mas vá dizer isso pra um sagitariano “experiente”...)

A criatividade do Zé Faria o levou a fazer uma espécie de auto-degustação: sou da safra de 1952. Faltou dizer se era argentino, chileno, francês ou italiano... Pra não fugir à regra veio logo a Mila cantar de galo: acho que sou a + nova aki, Bem, que é nova não precisa dizer. Basta ver que, com um econômico e moderno “+” e um “k” espremido entre duas vogais ela deu um prepotente tiro no “qu”.

Duas horas depois a Carol, inconformada, foi dizer que ela sim era a mais nova, e provou por a mais b. Coitado de mim... eu que nem estou tão velho, comecei a me sentir um trapo. Elas não viram os caras-pintadas, os colloridos roxos, as diretas, o playmobil, o atari, os discos de vinil... Mas devem estar felizes com as tchutchucas, os tigrões e as festas no apê. Pior a Bia, tadinha, nasceu em 93 e se declarou radiante a mais nova da casa. Não viu o Senna correr nem morrer. Não viu a inflação subir nem descer. Em compensação, deve achar que o futebol brasileiro é algo do outro planeta e até hoje deve se perguntar pra que disputar copas se todo mundo já sabe qual o melhor time (sei não, pensando bem, não deve dar muita bola pra isso...).

Enquanto isso, a Bárbara, mostrava alívio com o destino que a poupou de não ser dezessetana: “às 23:30h. Ufa, por pouco sou do dia 18.”. Tristeza mesmo só pro velho Rodolfo de 1969, cuja melancolia em pouco lembrava o jovem Marcus de 1957: até disse a hora em que nasceu! A Vanessa, por sua vez, parece daquelas que não se cansam de aumentar sua “circunferência social”: “eu nasci em 1983!!!! Quem tbm nasceu no mesmo ano que eu, mi adiciona la tah!!! Bjos.(sic)" Lamento, vanessinha, mas vou ter de ser seu inimigo mordaz por causa de 2 anos...

Tava uma delícia a busca e a cereja do bolo foi quando achei o Rafael de 1981. Não acreditei! Pronto, a confirmação de que há outro como eu! Não sou único! E pelos que os “ólogos” insistem em dizer, deve ser igualzinho a mim! Bom... semelhante, afinal o cara nasceu quatro horas antes... Parecido comigo, pra ser preciso, já que ele estampa seu voto pro “não” no referendo com a mesma convicção com que votei “sim” ...

"O valor das coisas nao esta no tempo q elas duram, mas sim na intensidade com que elas acontecem". Que apresentação! Bravíssimo! Que sintonia! Os astros não mentem! Então era só confirmar a regência solene do espaço: saí a caça das comunidades adeptas do meu homônimo, homoânomo e homodátano.

Ele, de São Paulo; eu, do Rio. Ele, Inri Cristo para papa; eu São Francisco de Assis; ele, Portal do Inferno; eu acampamento Paiol Grande; ele Jason; eu Cidade dos Sonhos; ele bateria, eu violão e teclado; ele, estranho; eu, no máximo, converso com meu cachorro e sou meio esquecido; ele diz que vai pro inferno, eu já não gosto de violência nos estádios; o humor dele é negro, o meu, irônico e suave; o genérico gosta de zumbis e mortos-vivos; eu só quero acampar e fazer trilhas; ele é a favor da pena de morte, eu luto pela vida; ele acha brinquedos traumatizantes, eu jogo Playstation, e daí? Isso pra não dizer que transformava pregadores de roupa coloridos em jogadores de futebol; ah, ele odeia futebol com a mesma gana que eu morro de paixão pelo esporte, e ainda por cima acredita no horóscopo egípcio!

Quer saber? Já não acredito é em horóscopo nenhum!