Um tapa na cara da hipocrisia
A cena chocou meio mundo: um pai-técnico destemperado agride a filha-atleta após o mau resultado no mundial de esportes aquáticos, disputado na Austrália. De quem é a culpa? Da câmera indiscreta.
Por que ela estava lá no vestiário justamente naquele momento constrangedor, senão para nos tornar cúmplices da nossa imagem e semelhança cotidiana? Só para nos forçar a emitir uma opinião socialmente correta sobre o acontecido? Definitivamente, apareceu na hora errada.
Pois fomos nós. Editoriais abertos, textos cintilantes, consciências tranqüilas de que o absurdo da cena do 'espancamento' merecia reprovação veemente. E cumprimos o papel devido de cidadãos.
Na seqüência da cena, a filha parece fugir. Nosso olhar insiste em segui-la. Ela sai do quadro, como se quisesse abandonar o papel principal da tragédia, mas retorna. Como num passe de mágica, o pai volta do transe. Abandona a fúria perfectível de treinador e volta ao pai-humano, enquanto a filha perde os superpoderes de atleta para ser simplesmente... filha.Para a ucraniana Kateryna Zubkova, pior do que perder uma disputa esportiva seria consumar a dilapidação moral de seu pai em praça pública. Mais por instinto do que por razão, busca, atordoada, o assento. Claramente arrependidos do ato de agressão mútua, pai e filha transferem ao espectador, ainda que sem saber, o papel do constrangimento. Por que aquela câmera estava ligada?
Imagina então se, a cada agressão nossa a um filho, a um irmão ou um companheiro houvesse uma câmera a apontar o indicador para nossa dignidade? Conviveríamos aterrorizados com o monstro do ato que persiste a despeito do nosso arrependimento, de nossa condição humana, dos erros e acertos inerentes ao simples existir. Quem nunca se excedeu, ainda que verbalmente, que atire a primeira pedra. Pensando bem, melhor não atirar. Pode pegar mal...
Por isso, a filha é a primeira a correr em defesa do pai, proibido pela justiça australiana de se aproximar dela em um raio de 200 metros. Sabe que Mikhail Zubkov errou. E daí? Será que ela também não erraria com um de seus filhos? Humanamente, exige que a proibição seja revista. E o tribunal acata.
Somos todos assim. Batemos na vida aqui, apanhamos dela ali. Zubkova prometeu ao pai uma grande atuação que apagasse a vergonha dos Zubkov. No fundo, a ucraniana sabe que, brevemente, Melbourne serão águas passadas de março. Uma furiosa piscina de julgamentos onde, desta vez, a hipocrisia nossa de cada dia levou uma surra da autenticidade.
***
Abaixo, você vê a cena da agressão de Mikail Zubkov à filha. As imagens são da Rede Globo, veiculadas no programa Redação Sportv, do canal a cabo Sportv. Luis Roberto apresenta da redação e é auxiliado, em Melbourne/AUS pelo repórter Pedro Bassan.